as janelas altas também choram

Eu acho que tudo bem ser invadida pela angústia, tudo bem a dor e o medo nos tomar pelas mãos. Acontece. Olha pra você, menina. Nenhum dos seus dias mais doces e leves – mesmo que sempre abrangentes -, seriam capazes de secar suas dores hoje. Suas lágrimas pesadas são riscos de sangue em sua pele branca.

Olha para esse gente toda.. Hoje nem meus cigarros me assossegariam o peito e minha alma se retorce dentro de mim. A multidão virou uma massa branca e homogênea e eu não faço ideia para onde eu tô correndo. Tudo em mim dói, ainda que não haja mais o que se sentir. Eu poderia brincar de morrer dez vezes e nenhuma me daria medo pois o inferno consumiu meu peito, minha alma e minha esperança. Que tipo de ser humano sujo persiste sem esperança alguma? Nem as cervejas geladas, os cigarros fortes, as bebidas baratas que queimam meu estômago me tiram essa aflição e furor de flertar com o fim. Por deus, minha pequena, como eu tenho tentado viver nesse caos que sou. Tenho me escorado nas paredes de minha alma e, por garantia ou covardia, fechei as janelas do apartamento. Rabisco pedidos de socorro e atiro em pequenos papéis rasgados. Ninguém nunca sobe. Ninguém nunca olha para cima. Bando de filhos da puta do caralho. Todos vendados por suas vidas repetidas e suas lascividades cheias de pudor. Que tragédia somos nós.

Esses dias bebi até quase sentir a alegria de estar fora de mim me tocar as costas da mão. Esses dias – lembra-se do vinho que você deixou aqui?- pois bem, dias desses, eu, vinho, umas músicas tristes e senti minha dor diminuir um tiquinho a cada gole. Mas foi bem pouco, te juro. Sorri de leve pensando que talvez haja gente por ai que passe bem pelos dias, ao menos a maioria deles. Me escorei na janela e o chão era um resquício de vida. Morrer não tem glamour. Não ouse achar que falo isso como quem ressoa Bukowski e seus poemas solitários. Morrer é podre, é sujo, é desesperador. É passar os dias tentando arrancar de si algo que, no fundo, é inteiramente você. Você é a dor, o medo e a ansiedade. É a raiva, o receio e a queda do décimo andar. Você é a brasa quente queimando a pele só para sentir de novo qualquer coisa que te garante que, cedo ou tarde, para de doer. O sangue para, as cicatrizes fecham, a dor cessa. O inferno de dentro não. Você se senta no vão das portas e se permite verbalizar um quase socorro, uma quase oração “deus, universo ou o diabo que seja, me leva de mim, anda insuportável existir”. Mas nada acontece. Nada nunca acontece além da dor continuar e corroer sua essência. Um fogo que te tranca a garganta e afasta você dos olhos audaciosos de quem, insolitamente, vive.

Aqui do décimo andar não dá pra ver direito, mas as janelas altas também choram, o céu muda um pouco de cor quando alguém extremamente bêbado e quase feliz se debruça no parapeito e pede, por deus, se há vida depois de fenecer de dentro para fora, me deixa viver. Acho que era só porque lembrei que precisaria comprar outro vinho para você, outro cigarro. Te liguei, mas não atendeu. Chamou três, quatro, dez vezes, já nem sei. Tudo bem, joguei alguns papéis de socorro, mas não havia ninguém na rua. Pensei em pedir ajuda, mas só consegui me deitar no chão da sala e pedir pra vida, enfim, me deixar viver, me deixar morrer. Sem beleza ou glamour, sem poesia barata embalando essa porra de cena mal contada, mal narrada. Por dentro invejei aquela flor que acordou seca e despetalada. Joguei o resto de vinho nela e fechei os olhos. Me deixa ser flor, me deixa ser flor, me deixa derrubar uma pétala do décimo andar.

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