tudo de ti que não me cabe

Você é o canto da sala que eu não consigo atravessar. Você é o perfume concentrado entre o caule e a pétala vívida da flor que eu não alcanço. Talvez você seja aquela sombra esguia que me atiça e suscita curiosidade na sala ao lado. Não, não. Você é a paz que me chegou em uma tarde de caos. E a merda do ser humano é estar preso sempre em um filme ruim em que ninguém pode te salvar. Te juro, menina, como tentei me manter em pé, equilibrada sobre meus pés tortos, sapatilhas sujas, sobre minhas insustentável inexistência sôfrega.

Eu queria te deixar um café e um boa carta. Queria dizer como o sol parecia tão afável quando frestas tocavam-lhe a pele branca. Queria que os ponteiros longos do relógio se arrastassem só para que eu permanecesse sentada aqui, ainda que longe, apenas para admirar tudo de ti que não me cabe: seu sorriso e inquietude. Sua paz e ousadia. Sua mania de tremer o lábio e de desviar os olhos. Parece bobagem, uma porra mal escrita, mas eu queria que a última coisa minha soasse bonita. Então escrevi sobre você.

Com algum asinino divino, meus planos falhem miseravelmente e amanha seja um novo dia. Mas esses tempo andaram matando os resquícios de amor em mim, de vida, de esperança. Os dias comeram minha carne, dedos e braços. Engoliram minhas lágrimas e me fizeram chorar para dentro. Eu não queria mesmo ser alguém se atirando das janelas, nem caminhando à esmo em ruas de morte. Eu não queria mais ler sobre a solidão de projetar-separa dentro evitando as dores externas. Mas também não ouso crer que alguém haveria de me salvar. O inferno me cercou em um espiral infinito de memórias remoídas. Me sentei no centro do meu melindro e deixei que o fogo fosse, aos poucos, me tronando uma brasa que mal queima.

Te escrevo essas últimas palavras para que tudo que foi chorado fique na folha virada. Por deus, eu olharia por cem dias seu riso e ainda assim os dias seriam poucos para lhe caber a felicidade. Agora eu caminho feito equilibrista no alto da corda banda, em escorrego entre um arfar denso de quem abandona metade dos dias e pede socorro num titubear duvidoso de salvação. Se eu pudesse ser qualquer coisa, por deus, eu seria uma paz danada, eu seria um livro entreaberto no seu poema predileto. Se eu pudesse ser o encanto que nasce de deus olhos cansados, eu seria. Mas se eu pudesse me ser em qualquer outra coisa além de mim, eu correria vinte quadras escuras só para deixar meu passado perdido e, quem sabe, a dor de me habitar fosso derrubada numa esquina suja.

Se eu pudesse, menina, eu me sentava numa esquina mal iluminada e me desmontava para ver se sobra algo a ser salvo. Se sobrar, queria te entregar. Mas agora a esquina parece gelada, o fim é um chuva fina caindo em minha cabeça e ninguém vai notar se em me escorar nessas paredes sujas de desafeto.

Antes de você chegar em decidira quebrar os espelhos, limpara casa, varrer as calçadas, desmanchar os laços. Deixei que a dor fosse maior do que a vontade ou a capacidade de sentir qualquer coisa. E se deixo qualquer coisa mal acabada ou mal escrita foi porque seus olhos dispendiosos me atrapalham os planos. Não queria esquecer nada na cama ou na mesa, mas acho que deixei minha alma e meu afeto todinhos lá. Cuida do que foi teu, cuida da melhor parte final dos dias maus.

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