Silêncio

Não tem ninguém do lado de fora. Mas tudo bem, também não há ninguém aqui dentro. Essas paredes frias e finas deixam escapar o eco do silêncio. Essas rachaduras me deixam vislumbrar aquilo que evito encontrar nos espelhos da alma. Esse abismo entre a existência e o pertencimento. Ah, bobagem, nunca existiu nada além desse meu eu torpe e sujo e cansado.

Ah, tenho estado tão cansada nesses últimos tempos. Nada mais do que um corpo sem cerne, um amontoado de feridas que não sangram mais vagando em decomposição da alma. Os dias já foram doces, foram bons, já foram dias. Agora a paz é um caco reluzente no canto oposto da minha sala. A calmaria é um espelho estilhaçado que ocupa a parede inversa dessa casa. Tudo que posso, por deus, tudo que me é cabível de ser feito é me sentar num canto mal iluminado desse cômodo e observar o que restou dos dias bons. Quase chego a tocar o esplendor de reviver. Mas o que me tece os dedos é tão somente o fenecer em três tons abaixo de um sussurro.

Seis flores debruçadas nesse chão frio e todas elas morrem sem cor. Se despetalando em um fulgor flamejante. Não há fogo que queime tanto quanto a solidão. Não há chama que encurte mais a essência doce de uma pétala do que a inexpressividade de ser sufocada pela queda. Seis flores caindo em um continum, um ciclo efêmero e constante, curto e inevitável. Antes mesmo da morte tocar o caule, essas malditas flores retornam a cair. O abismo não cessa, pois o medo o alimenta, o rega, o faz florescer. A solidão é um barulho surdo de uma flor morta tocando o chão.

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