Um espelho caído

A dor volta. Feito um flecha afiada atirada pro alto, ela volta. Num segundo você está bem, no outro a ponta atravessa seu peito penetrando suas entranhas com um ardor incômodo. Ainda que o caos seja sempre um suspiro interno pronto a explodir, por vezes a gente quase crê que ele cessou, que enfim calou os fantasmas internos.

É sorrateiro o modo como os demônios acordam e, num piscar de olhos, te consomem o corpo e alma, se agarrando aos seus pulsos, pernas e pés. Um segundo após o despertar, entrelaçam suas pernas, entram em seus bolsos, se aninham em seus ombros. Numa rapidez descomunal, o inferno queima diante seus olhos e arde a alma toda. Antes da primeira lágrima sua paz queimou feito uma folha seca. Antes da dor ser exposta, seu peito já se estilhaçou ao chão feito um espelho trincado. Meu corpo caiu ao chão e mal tive tempo de abrir os olhos. Meu eu nem reflete mais nos espelhos destroçados, se é que um dia refletiu.

Antes de escurecer o quarto, antes de recostar as janelas e baixar as cortinas eu queria suspirar palavras de paz. Eu queria pintar as parede de boas lembranças. Por deus, eu queria tamborilar qualquer porra de melodia que não me fira feito brasa. Mas meu peito arde e minha essência já morreu três vezes antes de ver a calma.

As paredes são tingidas com a cor de desafetos envenenados. O amor é um fósforo riscado que incendeia a casa ou apaga antes de se consumir totalmente.

Você, porra, você, com seus olhos perdidos, com a porra do seu afeto embrulhado no egoísmo de sua existência. Você sentada na beira da razão, me empurrando pro meu inexistir. Você que me despetala sem ressentimentos, talvez nem sinta que me rouba a paz, a calma, a alma. Talvez não ouça os gritos mudos de minha pele. Talvez não sinta os toques cegos de desespero de estar aqui sem nunca, de fato, ter existido. Sua voz me mata, me ensurdece, me atira no poço fundo da minha agonia. Seus dedos de jogadora, amarrando mais forte os meus nós, me prendem a circulação e então eu vou morrendo num arfar longo demais. Um suspiro teu me mata em sete tons que eu sequer posso enxergar. Sua presença debruçada em meu fenecer me aflige e nenhuma chave me abre as portas. Você roubou de mim a única coisa que eu haveria de ser: eu mesma.

Eu em minhas dores e medos. Eu em minhas falas tortas e olhos cansados. Sobrou isso, esse pedaço meu, corrompido de seus atos, ferido pelas suas palavras, estraçalhado pelo que não te dói, mas me come a carne e o cerne. Seus dedos me impregnam, sua voz rouca me atira do vigésimo sexto andar e eu continuo vivendo. Minhas dores não escorrem mais pelos pulsos, só as linhas ardidas de uma dor que você não sente. Nem eu, porra, nem eu sinto mais. A dor que me aflige não sai mais. Grudou nas paredes da alma, está tatuada na pele, cicatrizada em minhas falas. A porra da sua vida está incutida em mim e refletindo os demônios que não me deixam dormir. Meu corpo frio se decompõe de dentro pra fora, mas o sangue ainda corre nas veias e escorre no chão. Você é feito uma lâmina interna, me dilacerando os órgão, me fazendo doer por dentro, me matando de um sentir que só eu sei como me arde. Você repousa ao lado e, mesmo dormindo, atrapalha meu sono, rouba as músicas doces que eu poderia ouvir. Você me tampou os ouvidos, me vendou os olhos. Você cortou minha voz, mesmo que suas mãos sujas não me toquem. Você me matou e não me tirou a vida. Sugou minha essência e me revive todos os dias. A porra do seu afeto costura à minha pele um amor que não quero e não sei sentir. A porra das suas palavras me cospem a asfixia de ser parte de você e nunca parte do que era pra ser: eu.

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Já sentiu sua vida riscar o fósforo na caixa da sua insegurança?

Hoje o frio foi mais frio e nenhuma luz se acendeu. Me debrucei no chão porque a crueza do cimento é tão reles que pouco me afeta. Em mim tudo corrompeu.

Há dias que o tempo não corria tão lentamente. Olhei seis vezes para o relógio e não passaram das sequer 5 minutos da minha agonia. Se a gente reparar bem, nossa angústia está respingando dos ponteiros lentos. Três gotas no papel amassado e eu não sei como te dizer que, por vezes, os redemoinhos caóticos emergem, numa surpresa maldita, rasgando as peles, os órgãos, até mesmo os ossos. Mas era paz, era a porra da paz que estava aqui. Nada de vibrações eufóricas, mas eram dias amenos, singelos, por vezes bons. De repente seu corpo é mergulhado num sem fim de extremos. Ah, pequena, como te explico o inferno sem te jogar seus pedaços numa flâmula fodida de desespero? É como relatar que há uma estaca ardente me perfurando o peito. As horas são longas e curtas, um paradoxo que rouba a vida sem, de fato, matar. Só hoje eu morri 18 vezes por segundo.

Acendo um cigarro agora e sequer faço ideia quando esta porra de dia irá terminar.  Há chance dele acabar comigo antes do fim. Esse noite, talvez, o corpo não vai vencer minha alma destroçada.

Já sentiu o corpo cair de um precipício de mil metros e nunca chegar ao chão? Já sentiu sua vida riscar o fósforo na caixa da sua insegurança? Os ponteiros circularam 4 vezes eu meus pulsos sangram uma dor que eu, tola, achei já não mais guardar.

Estava ali. Porra. Estava tudo ali, as dores, os medos, a raiva, a ojeriza desse meu eu sujo e surdo que mal sabe se ouvir. E se sabe, não quer, não pode, não ouve. Tanto silêncio entre minhas vísceras, tanto desafeto fulminando entre mágoas empalidecidas e disfarçadas com um sabor adocicado. Queimei minha insensatez na ponta desses cigarros mal tragados. Agora quem queimou fui eu.

Já reparou como as quedas são muito mais duras depois que a gente acredita ter reaprendido a caminhar? Tantos metros, tantos passos dados, um caminho trepidante, mas ainda assim percorrido. Tropecei em meus próprios pés e permaneci desfalecida em mim. Morri pra dentro, fui morrendo numa progressiva corrosão de mim mesma. Logo eu, que não creio nem no sossego nem numa força divina, naquele momento, pedi pra vida me deixar viver longe de mim. Não me caibo, não me sirvo mais. Sou uma blusa grande e desajeitada que veste o próprio corpo. Atrapalho meus dedos, minhas mangas se embolam entre minhas pernas tortas, sufoco meu existir. Permaneci deitada, por sorte deus eis de me afincar a paz nessas minhas feridas abertas.

A dor se derrama entre as parcas entranhas dessa casa

Você é um corpo delgado e curvado na sala ao lado. Um corpo frio, delineado em traços finos, estirado no chão da minha casa. Você habita cada metro quadrado desse meu torpe eu. Mesmo esguia e malgrada, junto a minha ânsia de te ter longe dos olhos meus, sua existência me pesa três tonalidade de cinza e obsolescência. Mesmo que intrépida, sua presença sufoca a fina e latente passagem de ar em meus pulmões.

Você é uma camada amarga de meu inexistir, uma macha sobre o chão que, dia após dia, se espalha pelos cômodos. Se adere às paredes, aos móveis e, por fim, irá me afogar em mim. Não sei bem de sua estadia aqui, é como se sempre houvesse uma ferrugem encrostada naquele canto amargo de minha alma. Um dia eu acordei e a mancha estava maior.

Por deus, como a gente se habitua com a dor, e seu esparramar é tão sombrio e gradual que a gente aceita e quase nem nota. Quando dei por mim, a sala se fora, as janelas abertas se foram, a cortina branca de renda virou um manto espesso e gotejante da árdua existência tua. A dor se derrama entre as parcas entranhas dessa casa. Um dia acordei e você subira na cama. Deixei. Sequer me mexi, porque minhas forças foram usadas para salvar o que me restou da vida. Nada mais restou em mim. Não existo mais.

Em pouco tempo, o que era um quarto vívido e afetuoso, virou um cerceamento de frustrações. Os tons de cinza mórbido se entrelaçaram em minhas pernas, cobriram meu corpo, se assentaram em minhas mãos como luvas perfeitas. Recostando em minha face, a escuridão me tampou os olhos. Mesmo me imobilizando o corpo, preenchendo a casa, mesmo sendo esse absurdo de regojizo e ojeriza, em mim a malgrada existência é eco. Um fenecer constante e interminável. Em mim soa essa tenra incapacidade de me mover.

frias camadas decompostas pelo não mais existir.

Minhas parcas e rotas palavras andam infinitamente ausentes. Nenhuma frase ou contexto tem culpa  desse vazio. Olho ao redor e tudo em mim parece um reflexo meio borrado, um espelho sujo desse meu torto eu, desse meu inexato e inexprimível ser. Andei dias sem ecoar uma palavra, sem permitir que qualquer assombrosa lamúria se reverberasse. Sacudi roupas e de meus bolsos caíram dores de alma. Caminhei e entre meus passos havia o peso da dor, o medo e a angústia entrelaçados em minhas pernas.

Os dias terminam e eu fico sempre com a extenuante sensação de que uma densa nuvem cinza pairou em minha alma. Mas que besteira. Se ainda houver alguma essência espiritual, almática ou enérgica nesse meu falecido e mórbido corpo, as vejo fragmentadas em mil finas e frias camadas decompostas pelo não mais existir.

Carrego pra dentro de mim o que me resta de segurança, mas o amor sucumbiu. Havia afeto, porra, havia um sem fim de cenas doces e os dedos tocavam a paz na alma alheia. Havia brilho nos olhos e um pulsar, ainda que insonso, muito mais vívido. O afeto emerge e ressalva. Mas por deus, sempre há um lado que ama mais, que morre mais e que se deixar ferir mais. Sempre há alguém que sente em excesso e alguém que se ressente. Por isso o amor é um abandono constante. Por isso não te entrego as chaves de casa, das entranhas da intimidade. Por isso mantenho as janelas fechadas e meus toques distantes. O amor exige um estar em ti que me exauri, me inflama e, por fim, destroça meu eu num chão cru do não-saber-sentir.

E, por todos os deuses ou por força alguma, nem pela falta nem pelo excesso. Abandono a casa antes de você chegar porque eu, caminhando em minha fina faixa à 300 metros do chão, sou derrubado pela menor brisa de desafeto. Me debruço em mim e suspeito querer estocar todo meu sentimento no mais fundo de mim para que eu posa, quem sabe, me amar também. Acumular potes de bons ecos pronunciados, sabendo que assim, e só assim, eu me ame. Não aceito gente em casa porque o corpo tá vazio e a alma queimou em brasa de solidão.