frias camadas decompostas pelo não mais existir.

Minhas parcas e rotas palavras andam infinitamente ausentes. Nenhuma frase ou contexto tem culpa  desse vazio. Olho ao redor e tudo em mim parece um reflexo meio borrado, um espelho sujo desse meu torto eu, desse meu inexato e inexprimível ser. Andei dias sem ecoar uma palavra, sem permitir que qualquer assombrosa lamúria se reverberasse. Sacudi roupas e de meus bolsos caíram dores de alma. Caminhei e entre meus passos havia o peso da dor, o medo e a angústia entrelaçados em minhas pernas.

Os dias terminam e eu fico sempre com a extenuante sensação de que uma densa nuvem cinza pairou em minha alma. Mas que besteira. Se ainda houver alguma essência espiritual, almática ou enérgica nesse meu falecido e mórbido corpo, as vejo fragmentadas em mil finas e frias camadas decompostas pelo não mais existir.

Carrego pra dentro de mim o que me resta de segurança, mas o amor sucumbiu. Havia afeto, porra, havia um sem fim de cenas doces e os dedos tocavam a paz na alma alheia. Havia brilho nos olhos e um pulsar, ainda que insonso, muito mais vívido. O afeto emerge e ressalva. Mas por deus, sempre há um lado que ama mais, que morre mais e que se deixar ferir mais. Sempre há alguém que sente em excesso e alguém que se ressente. Por isso o amor é um abandono constante. Por isso não te entrego as chaves de casa, das entranhas da intimidade. Por isso mantenho as janelas fechadas e meus toques distantes. O amor exige um estar em ti que me exauri, me inflama e, por fim, destroça meu eu num chão cru do não-saber-sentir.

E, por todos os deuses ou por força alguma, nem pela falta nem pelo excesso. Abandono a casa antes de você chegar porque eu, caminhando em minha fina faixa à 300 metros do chão, sou derrubado pela menor brisa de desafeto. Me debruço em mim e suspeito querer estocar todo meu sentimento no mais fundo de mim para que eu posa, quem sabe, me amar também. Acumular potes de bons ecos pronunciados, sabendo que assim, e só assim, eu me ame. Não aceito gente em casa porque o corpo tá vazio e a alma queimou em brasa de solidão.

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