Escrevo fazendo memória com os tilintares teus que nunca ouvi. 

Estou escrevendo em linhas tortas, em papeis amassados. Estou fumando cigarros amargos e borrando a alma de palavras engasgadas. Estou sentada no breu de minha essência porque as luzes de casa queimaram. O afeto tocou o mais alto grau desse meu eu e se esvaiu. Se decompôs. Se despetalou no sem fim de um fenecer cântico. Mas você não viu. Porra, você não viu ou não quis ver. Entre seus olhos recônditos e seu desinteresse pelo eco desafetuoso, entre o tilintar eufórico do meu eu e o seu sobrepujante ressentimento, sobrou um abismo de flores murchas. Sobrou uma ausência excessiva. Sobrou tudo aquilo que falta em mim, falta em ti e, por deus, nunca ousou somar em nós. Escrevo o que não me coube e sequer sei se um dia me foi pronunciado. Escrevo entre o bem me quer e o estilhaçar do meu peito. Entre a letra borrada e a ausência do ardor sentimental. Porque o afeto é sempre uma lança em chamas, ardendo feito uma brasa vívida. O afeto que não reluta em permanecer em lume sufoca em sua própria temperatura gradualmente resfriada. Ainda que os olhos doces sejam um opulento acalanto, sua alma não mais reverbera a sordidez inefável. Seu mistério morreu em três tons calados e nenhum fulgor resultou de seus toques gélidos. Por deus, às vezes o estrambólico amor se debruça exausto na beira do precipício sem nunca cair, apenas para ainda ser amor, ainda que nunca de fato amado. É isso, esse nosso existir em dois nada mais é do que um amontoado de entranhas desalmadas debruçadas e debilitadas na incapacidade de amar. Ainda que querendo, sufocando, ensejando o amor. Ainda que exauridos pela necessidade de repousar num colo afável, duas matérias sem escopo vagando na linha fina e trepidante do não ser nada mais do que um não amar. Deito agora nesse chão frio, me debruço no meu vazio caótico, entrelaço meus dedos num malgrado de desarmonia costurada aos dias mornos. Nenhum afeto é uma linha resistente capaz de unir essa flor despetalada. Agora escrevo fazendo melodia com a melindrosa habilidade de abandonar as flores mal amadas. Escrevo fazendo memória com os tilintares teus que nunca ouvi.

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