Pecados

Há tempos eu fora embora. Não de casa, pois ainda habito esses cômodos vazios, esses quartos escuros e melancólicos, essa sala incomodamente solitária. Fui embora de minha essência, minha paz, meu bom grado. Fui embora dos dias bons, do acalanto, da paz de Helena. Nenhum entardecer sussurra melodias doces em meus ouvidos. Nunca mais um toque me enseja qualquer futuro, meu presente queima feito um quimera fodida e nenhuma esperança recompõe essa alma destroçada e funesta que se despende do meu eu.

Se eu pudesse, eu terminava de ir embora. Se eu pudesse, me escorava no muro mais escuro só para minha dor passar e não me ver. Se eu ousasse, correria de olhos fechados até o fôlego me obrigar a parar, apenas para enxergar um local irreconhecível e ser incapaz de retornar ao que me mata. Se a vida me permitisse, eu me largava na primeira esquina mal iluminada e rumava de volta pra mim. Se eu soubesse me ser ainda, por deus, se eu lembrasse como existir num não amontoado desalmado de feridas e dores costuradas, eu me entrelaçava aos dedos meus, caminhava os passos meus, me vestia de mim, me sufocava de quem eu de fato sou, se é que sou. Queria eu rever o mundo com os olhos que um dia o olhei.

Agora meus dedos sangram, meus ossos doem, minhas vísceras rasgam cicatrizes de dores que não cessam. Hoje meus demônios submergiram e, aos poucos, me impediram de respirar. Hoje meus demônios se penduraram em meus pulsos, braços e pescoço, sentaram em meus ombros, adornaram meu colo, repousaram em minha barriga. Hoje eu quis correr de mim pois tudo que me sobrou foi a vergonha de não ter mais vergonha de mim. Me acostumei tanto com meus monstros internos que, hoje, quando eles saíram de mim, eu os reconheci como meus. Como eu. E apenas tive vergonha de ser esse eu tão desumano perto dos outros humanos tão salvos de seus demônios internos. Seus pecados perdoados, como num aval social, seus corpos todos vagam pelas ruas e passam bem. Nenhuma cicatriz exposta, nenhum demônio afincado feito uma lança cega ao peito, nenhum estilhaçar da alma corroendo a existência humana. Vou me decompondo em meu próprio ato de existir. Por deus, orei três vezes para que alguma de minhas dores finalmente me matasse, me eximisse de mim. Deus não me ouve, não me ouvirá nem em uma centena de pedidos mudos. Eu sou meu próprio anjo decapitado. Eu sou quem afiou a estaca, quem alimentou o demônio, eu sou quem apagou a luz da rua. Eu e tão somente eu sou responsável por marcar à pele minha morte sem nunca, de fato, morrer. Deus não acredita em mim, mas tudo bem, eu também não acreditaria.

Sou só um corpo curvado do constrangimento de ser exatamente o que se é: o demônio interno que criei e agora me comeu.

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