Meus ombros pesados pesam menos do que ontem e, por isso, hoje eu gosto um pouco mais deles.

Gosto da linha curva que os tecidos assumem quando o corpo, cansado e mirrado, vai minguando sob os ossos. Ainda que numa enunciação meio fúnebre de quem não sabe bem o que diz – ou ainda pior, sabe o quão horrível o é dizer, mas ainda assim atreve-se a pronunciar -, eu gosto do peso escasso que as entranhas vão assumindo entre os dias. Os olhos turvos vão tendo dias de neblina interna. Em frente ao espelho, meus dedos contornam um osso que agora se sobressai. Isso me soa mórbido ao mesmo tempo que me dá um prazer assombroso.

Minha alma acumula um peso bem mais denso ainda que meu corpo pareça um pouco mais frágil sob meus ossos, minha essência está meio suja há alguns anos. Acho que meus fantasmas pesam tanto que esse amontoado de peso que vejo no espelho é reflexo das dores de alma. Será que dá pra esmiuçar-se tanto a ponto de sucumbir a si mesma? Ficar pequenininha, contornada em minhas costas magras, clavículas expostas, nos dedos longos que almejo ter?

Será que a alma pesa muito quando a gente pesa pouco?

Anúncios

Espelhar

O reflexo denso dos meus olhos me assusta. O espelho intacto paracetamol se fragmentar em um sem fim de rachaduras e estilhaços quando vejo meus demônios refletidos no que deveria ser eu. Se me desmancho em tintas sem cor, sem tom, me acentuo em timbres e retoques de assombro. Meus olhos cansados não se prezam a serem oblíquos nem dissimulados. Nas melhores hipóteses são olhos fodidos e que entregam uma alma desesperada. Joguei os pontos, nenhum reflexo me devolve a paz que venho me forçado. Me escancarei esses arredores de alma e nenhuma calmaria me abraçou.

Ser Qualquer ser

Há dias a garrafa derramada da geladeira está manchando o chão numa poça à cor de sangue. Tudo bem. Eu a olho daqui num vislumbre quase artístico. Há dias não ouço mais a janela ranger baixinho como costumava fazer, os ventos lá de fora perderam a encantadora força ou o barulho aqui de dentro ficou cansativamente mais ensurdecedor? Por deus, queria me encolher num cantinho ameno dessa casa. Hoje queria um dia de paz se é que ainda há paz nesse mundo.

Você que me rouba a segurança com a insensatez de uma frase mal acabada, me desfalece em mil pedaços de mim ao ameaçar agir e nunca completar a ação. Você que não é ninguém e mesmo assim insiste em ser plenamente tudo e todos e absolutamente o mundo todo em mim, me faz morrer cada vez que insisto mais um pouco que não será, não pode ser, mais nada em mim. Porque essa minha ausência de mim, esse eu faltante em mim faz com que qualquer um, qualquer corpo e alma sejam capazes de bastar. Qualquer ser possa caber aqui já que eu, em minha incapacidade de me ser, não sou. Não posso ser. Então aceito essa eterna tábula rasa de seres mal amados e mal amáveis, só para que me sejam qualquer coisa preenchível, ocupável, tangível, permeável. Só para que ocupem isso que chamo, erroneamente, de eu. Pois não sou, há muito não me sou.

Penumbra

A noite derruba seu manto escuro em meus olhos e não há vestígio que a luz voltará no outro dia. Ela não volta há tempos. Agora sou uma migalha entre vãos que nada são. Sou um pedaço pequeno demais de mim que se perde entre meus medos e receio de ser exatamente o que sou. Porra, fui me escondendo, me dilacerando, me forjando tanto, por tanto tempo que me tornei o pior tipo de essência funesta que não sou. Ou sou, já não sei mais. Por deus, não sei se sou exatamente isso que carrego em cicatrizes e dores mal sentidas. Não sei se sou tudo aquilo que acho que deveria ser.

Um dia eu fora alguém passível de ser amado. Porra, eu era doce e os dias eram bons e eu fui amor ao lado teu, menina. Hoje sou esse emaranhado árduo de não saber o que sou, por isso eu abandonei o barco e a alma. Abandonei os dias e as noites, os quartos, a casa e os encantos. Não sobrou muito entre as cortinas. Ao anoitecer a noite recobre de escuridão o que há tempos já é breu em mim.