Ser Qualquer ser

Há dias a garrafa derramada da geladeira está manchando o chão numa poça à cor de sangue. Tudo bem. Eu a olho daqui num vislumbre quase artístico. Há dias não ouço mais a janela ranger baixinho como costumava fazer, os ventos lá de fora perderam a encantadora força ou o barulho aqui de dentro ficou cansativamente mais ensurdecedor? Por deus, queria me encolher num cantinho ameno dessa casa. Hoje queria um dia de paz se é que ainda há paz nesse mundo.

Você que me rouba a segurança com a insensatez de uma frase mal acabada, me desfalece em mil pedaços de mim ao ameaçar agir e nunca completar a ação. Você que não é ninguém e mesmo assim insiste em ser plenamente tudo e todos e absolutamente o mundo todo em mim, me faz morrer cada vez que insisto mais um pouco que não será, não pode ser, mais nada em mim. Porque essa minha ausência de mim, esse eu faltante em mim faz com que qualquer um, qualquer corpo e alma sejam capazes de bastar. Qualquer ser possa caber aqui já que eu, em minha incapacidade de me ser, não sou. Não posso ser. Então aceito essa eterna tábula rasa de seres mal amados e mal amáveis, só para que me sejam qualquer coisa preenchível, ocupável, tangível, permeável. Só para que ocupem isso que chamo, erroneamente, de eu. Pois não sou, há muito não me sou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s