Sete agonias mudas

Faz silêncio lá fora e dentro do meu peito soa um longo e constante assovio. Nem alto nem baixo, nem seco nem eufórico, nem inebriante, menos ainda calmo. Agora ainda é um assovio oco, rouco, estável. Um zunido que soa distante, mas se agarra às instâncias do enlouquecer-me.

Por deus, minha pequena, queria escorar-me em suas cores, me aninhar em seus braços, entre sua paz e seu caos. Queria, ainda que apenas por hoje, sentir-me recoberta por seus olhos turvos e olhares vagos. Queria encolher-me entre seus dedos e ficar do tamanho de seu riso frouxo. Ah, pequena, se eu pudesse, se a vida me brindasse com a efuziante audácia de ficar do tamanho dos meus arranhões, dores e temores – por deus! – eu seria enorme, não mais caberia nesse quarto, desse lado da cama.

Queria, se houvesse um único desejo, me entrelaçar em seus passos tortos, toques doces, em seus timbres rítmicos. Queria só por hoje calar o mundo, esquecer que cem almas podres vagam nas ruas vazias, permitir-me melindrar em meus desafetos, calar o mundo que morre de fome e de sede. Queria escorar-me na luz que vem de ti, afrontar-me nas sombras e ver um feixe do seu tom me transpor, transcorrer, penetrar. Deixar, ainda que só hoje, que tudo que te salva me ocupe, me invada e me transborde. Fechar os olhos no seu colo e derramar o que já não me cabe, se é que um dia me coubera. Escorrer de mim o que não sou, não ouso ou não posso ser. Pingar, escorrer, me esvair de mim entre sua tez, entre sua fé, entre tudo o que já não me sobrou.

Hoje, se deus me permitisse, eu queria derramar de mim, esquecer que o mundo é esse emaranhado caótico ao qual não pertenço e não sei mais se um dia, de fato, pertenci. Queria me absorver em seus poros e sardas, me ocupar de seus jeans velhos e bolsos fundos. Queria adormecer na tua paz, longe do meu silêncio que me sussurra sete agonias mudas.

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Aos fins

Ando tão cansada, pequena. Tão exausta desse meu nefasto existir que sinto poder debruçar-me em minha inexistência. Me olho no espelho e a lamúria toca a sordidez do meu eu. Menina, você já sentiu como se seus ombros afundassem, te obrigassem a curvar as costas, como se sua alma arrastasse mais cicatrizes do que qualquer podre humano fosse capaz de carregar?

Por deus, meu reflexo agora é um turvo e inebriado emaranhado de cenas não vividas, amores fodidos, gritos contidos, sussurros que me sufocam. A porra dos meus olhos que me fitam no reflexo são dois espaços vagos, ocos, vazios. Dois ecos eclodindo de angústia. Sem cor, sem tinta que ouse entupir a amálgama solitária que olha mas não vê.

É como se eu fosse perdendo um pedaço meu a cada dia, menina. Uma morte lenta e solitária. Me sentei em frente a um espelho do tamanho do mundo e me olhei, calma e sorrateiramente, decompor. A cada dia perdendo um pedaço, perdendo-me em pedaços e, porra, a cada perda eu enterrei um corpo inteiro meu. Fui fazendo um funeral completo. Uma marcha fúnebre de mim para mim. Entoei, toquei em três tons e refiz a melodia no mais alto timbre que alguém que não mais vive poderia ousar. Repeti meu fenecer até que senti a morte minha única companhia. Morrer não dói mais. Ainda que todos os dias eu tenha que viver de novo, repito essa cena podre de quem se finge vivo só para rememorar o inferno de estar em si. Meus espelhos caóticos nunca racham. Refletir não me obriga mais a existir, menina.

Às peles minhas

A dor é um ciclo extenuante que me assola e me vence pelo cansaço. Ela adormece e renasce em mim cem vez antes que eu possa me dar conta que já me matou mais um pouco. Hoje a dor se estendeu como um manto árduo e áspero, como um tecido denso e manchado. Sem espaço pros meus braços, a dor me cerceou os movimentos, me vendou os olhos, me asfixiou a alma.

Você me é uma pele branca demais que não ouso tocar. Por não poder ou não saber se posso, eu te olho de longe. Nos dias bons, você quase me soa acalanto. Quando a melancolia recobre os ponteiros insonsos do meu relógio, sua tez pálida me berra um despretensioso escárnio, um pudor despudorado, um tocar-te tenebroso que me gela a alma e me rouba a paz. Quando te olho, vejo uma calmaria que algum deus um dia me prometera. Quando te olho, menina, teus olhos desvirtuados me corrompem a esperança e quase sinto a dor esvair-se de mim. Mas ela renasce mais densa. Porra, feito uma lança cega, feito uma estaca ardida me encarnecendo o peito, me dilacerando a alma, me depredando de dentro pra fora. Vou morrendo em frames curtos demais para chegar a, de fato, morrer.

Feito um casaco estirado ao chão, me debruço no que resta desse meu fatigado eu. Me escoro nas minhas parcas forças, escassas forças, mirrados lampejos de força. Hoje, por deus, tirei o telefone do gancho só para ver se ainda funciona. Ainda que eu não queira ver ninguém, ainda que os dias me isolem em mim mesma, preciso confirmar que o mundo me esqueceu: funciona, o toque contínuo e oco do outro lado do gancho me rememora que o mundo vive lá fora e eu reluto entre minhas mortes, entre meus sussuros doloridos, meus silêncios fodidos, entre toda essa merda que me fere em três tons sem cor, sem vida, sem mim. Me debruço nesse meu desalento caótico e já não sei mais quem sou. E se, por deus, ainda haverá alguma capacidade de ser.

Silêncio

Como um espelho que se estilhaça cada vez que adentro o cômodo dessa casa incomodamente vazia. Como um vidro sujo que se fragmenta e, rapidamente, tem seu corpo rijo atravessado por um raio denso e profundo. Nenhum reflexo meu se espraia na superfície, mas cem pedaços de minha alma torpe e sórdida berram agonias passadas.

A casa mal iluminada é feito um assombro desassossegado, nenhum corpo habita os quartos, mas as presenças estão impregnadas em cem feixes profundos nessas paredes tão mais densas, tão mais tenras. Minhas essências se acimentaram na cor desbotada da alma imunda. Essas tintas foscas mal escondem os passos que não dei. Os tapetes mal recobrem o chão turvo que não sustenta mais meu corpo, meu inescrupuloso eu. Meu eu ainda que sem mim. Meu inebriante eu que não me serve, se é que um dia já me vestira. Acabou a luz e eu permaneço na iminência dessa mal dita casa. Maldita estadia minha. Acabaram-se os dias bons e restou o que juntei de meus pedaços rachados e espelhos trincados.

Entre meios

Estou entre o dia e a noite, entre o inverno e o verão, entre o caos e a paz serena. Até a última vinda sua, eu estava aqui, sentada à beira de mim mesma, à espera de um amanhã sorrateiro que, por deus, me salvaria de mim. Ainda que os dias sejam sempre os mesmos, ofertando uma réplica diária que me assosegue em mim, ainda que todo dia seja exaustivamente um estatelar intrépido de cem almas sujas, que nenhuma delas me doa como dói existir em mim. Nesse mais pleno e sórdido eu, nesse nefasto timbre meu que me exauri só, e tão somente, por ser eu, me desmancho, me desmantelo, me sucumbo em minha presença nesse mundo. Estou entre tudo que sou e não quero ser, entre o sol que me toca e a luz que me impede de ver, estou entre o vento que me acorda e a asfixia de estar aqui, entre o perfume doce de sentir-me e a extenuante fragrância de resistir sentindo. Estou entre mim e o abandono. Entre o que resta e o que não veio. E eu não vim.

Porra, há dias, há meses não tenho vindo, sequer visto os olhos meus. Minha alma vaga tenra e solitária sem um corpo. Mentira. A alma se foi, mas o corpo venceu a essência e resiste entre os dias longos, os cômodos gélidos da casa, entre a ausência amarga do existir solitário em si mesmo. Ainda que não sozinho. Nenhum fantasma desabita um bom corpo sórdido. Assim como nenhuma cicatriz se esvai da pele fina. Abracei sete demônios e todos eles me abraçaram de volta. Será que entre os cafés e os cigarros cabem mais esperanças, ou será que me debruço em minha ousada estadia destroçada? Meu espelho me reflete melhor quando esboça meu reflexo turvo, distorcido. Combina mais com o peso dos meus olhos. Agora, entre os dias e as noites, entre o relógio lento e a vida que não passa, sou só uma mancha turva escorada numa dor pungente que fica entre o fio da vida.