Silêncio

Como um espelho que se estilhaça cada vez que adentro o cômodo dessa casa incomodamente vazia. Como um vidro sujo que se fragmenta e, rapidamente, tem seu corpo rijo atravessado por um raio denso e profundo. Nenhum reflexo meu se espraia na superfície, mas cem pedaços de minha alma torpe e sórdida berram agonias passadas.

A casa mal iluminada é feito um assombro desassossegado, nenhum corpo habita os quartos, mas as presenças estão impregnadas em cem feixes profundos nessas paredes tão mais densas, tão mais tenras. Minhas essências se acimentaram na cor desbotada da alma imunda. Essas tintas foscas mal escondem os passos que não dei. Os tapetes mal recobrem o chão turvo que não sustenta mais meu corpo, meu inescrupuloso eu. Meu eu ainda que sem mim. Meu inebriante eu que não me serve, se é que um dia já me vestira. Acabou a luz e eu permaneço na iminência dessa mal dita casa. Maldita estadia minha. Acabaram-se os dias bons e restou o que juntei de meus pedaços rachados e espelhos trincados.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s