nenhum comodo há de dizer que não tenho morrido em suas ausências

A música rouca ao fundo faz meu coração se trincar. Meu peito sofre um estilhaçamento contínuo e perpétuo. Em cada linha desse quebrar-me insonso ressoa sua tez pálida. Por deus, se você soubesse que me é a força certeira a me salvar e trincar, a me desvelar e me trazer à vida. Mas não sabe, não há de saber.

Como uma pequena ousadia que vocifera do lado de fora desse meu estupor falido e fodido, como uma ressalva amarga, mas que ainda me salva dessa vida sem fim, desse fim sem vida. Eu, pequena demais entre seus olhos grandes de coragem, vou me moldando entre as frases doces e soltas que você entoa. Eu, frágil em minhas perdidas incertezas, vou me despindo das dores de não caber em lugar nenhum. Me aninho em suas mãos e deixo que meu caos escorra pelo vão dos dedos seus. Mas às vezes cresço, fico imensamente incabível nesse mundo, nessa essência sua e tão somente sua. Então sofro, morro por dentro por não saber onde me escorar, onde me debruçar senão entre os feixes doces de sua luz. Tenho um medo danado de ser uma presença que você não suporte carregar, um colo que se dissipe no tempo afetivo por não saber mais como ser afeto. Tenho um medo danado de ser e me ser demais, ao mesmo tempo que me arrisco em me ser ausência e acabar por ser de menos.

Mas quando posso, quando ouso ser mais do que a mim – e tenho sido, como tenho sido! -, eu te recolho em meus bolsos. Tenho te construído de memórias e pequenos esquecimentos. Desses disparates que fazem você perder uma folha rabiscadas da sua agenda, um lenço, uma roupa velha. Tenho surrupiado pequenas partes suas para que assim, e tão somente assim, eu seja capaz de manter uma pedaço seu junto a mim em segurança. Sem que nada me desassossegue, nem as palavras doloridas, sem os silêncios incômodos, sem que nada te tire de meus olhos feridos. As paredes de casa já bordam afetos teus e nenhum comodo há de dizer que não tenho morrido em suas ausências. Mas morro também em sua presença, pois me fere esse existir tenebroso e pesado e asfixiante de precisar me ser quando estou junto a ti. E sou, num esforço trepidante, que me exauri, que me faz estilhaçar de ponta a ponta,como um espelho que não suporta mostrar a imagem refletida de quem verdadeiramente sou.

E nesse misto de olhos vagos e suplícios quietos, nessa paz que não vem, nos dias que não me traem paz, na paz que se aquieta em meu sorrateiro choro interno, você vai crescendo em mim feito uma música triste. Quase não sou mais capaz de te abarcar. Vou me desvinculando de meus laços e, por deus, começo a me contornar em minhas afetuosidades. Queira a vida que você me deixe entre suas pulsos e dedos, bolsos e malas bagunçadas. Mas você vai ficando tão grande, me apertando por dentro, vai me escapando, me escorrendo, me transbordando. Chegará a hora que, debruçada nas minhas construções tortas de ti, poderei embalar-te apenas nas memórias que resgatei. Ninguém cabe muito tempo dentro de um corpo, ainda que seja uma doce alma calma.

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