Teu lado da cama

Não soa estranho um sussurro que já fora tão íntimo, intrínseco, pertencente ao meu eu, agora reverberar feito um eco arranhado? Não lhe estremece a alma pensar que um riso cheio de toques e timbres doces agora ecoa num sem fim de distâncias?

Porque a vida tem dessas rotas torpes, esses encontros passageiros, essas almas que se esbarram e, mesmo que num tempo minguado, costuram a eternidade em nossa pele.

Por deus, eu esfreguei meus braços e pernas, arranhei a fina derme suja do meu eu só para tentar tirar um outro alguém de mim. Eu que queria ser eu, tão somente eu. Eu queria minha pele limpa, minha alma vaga, meu cerne límpido e desocupado. Porque quando me deixo invadir eu vivo três timbres acima do aceitável. Quando deixo qualquer coisa além de meus fantasmas me trançar as pernas, eu fico a um piscar de olhos de me derrubar. Sou uma desvirtuada equilibrista mirrando, definhando, morrendo à cem metros do meu chão. Mas todos se foram e eu sucumbi a mim. Venerei a solidão, meu excesso, desaguei, não coube em meus moldes.

E agora há um sem fim de outros corpos, outras almas que se ocupam e se enlaçam em outras histórias, outras vidas. E quando olho ao lado, quando suspiro fundo, quando estendo o braço, é o seu lado da cama que eu toco. Tantos sorrisos que habitaram esse meu sóbrio coração, feriram meu peito, despertaram meu afeto despretenso, agora é seu corpo que impregna em minha tez tão da cor da sua. Agora é seu riso que ri comigo. Agora é sua presença que ecoa no que, pela vida toda, foi um remendo de outras almas.

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Faz moradia

Agora a casa retoma seus timbres amenos, baixos, quase mudos. Quase se não fosse pela memória tua que vaga pelo corredor, faz ranger o piso frouxo, faz ressoar feito uma melodia dançante a voz tua que há pouco ecoou pela sala.

Agora a casa desaquece lentamente. Propaga o silêncio do não mais estar, ainda que você esteja em cada canto do quarto, de mim. Debruçada em minhas janelas da alma, você me espia com olhos tenros e despertos. Você me segura com a audácia de quem sabe exatamente o ponto fixo da segurança. Você me solta no nó frouxo da minha insensatez. Pois eu era paz, menina. Eu era um manto negro estendido ao chão. Nada me feria, nem me atiçava. Nada repercutia em mim, mas nada atravessava meu peito que, por deus, há tempo não sentia mais nada. Nada mais.

E depois de sua ida vaga, sua partida doce, tudo que me era vazio e concreto desmoronou. Feito um castelo de cartas no vento, eu me estilhacei em cem fragmentos de mim, de não saber quem sou e, se sou, por não saber o que fazer disso que, insonsa, carrego em mim.

Você partiu e, mesmo deixando as cores rítmicas da sua presença, um choro agudo me invadiu o peito, o cerne, comeu minha carne, entrou pelas narinas, se embrenhou na escória da minha alma. Chorei cem dias de solidão e não haverá mais lágrima para me despir dos outros cem, duzentos anos. Foi silêncio e caos ao mesmo tempo. Foi a paz sem fim de um noite já acabada. Minha dor escorre pela janela e encontra você debruçada nela. Hoje você se foi, mas resta de ti moradia e o tempo que vagueia. Resta teus olhos pungentes, tua voz que sussurra ainda que sem me verbalizar nada. Resta sua cor preenchendo minhas paredes sujas, flores secas, meu caos quase sem tom, sem vida. Eu que não quis nada mais de ninguém, presença e ausência, te pedi pra ficar. Logo eu que só queria um emudecer prolongado dessa casa, quis fazer moradia entre os seus dedos e toques singelos. Agora que a casa soa inebriante e só reverbera sua não presença, eu sinto a ausência tua me bater à porta, se aninhar em meus bolsos. Eu disse fica, ainda que sem dizer. Mas a casa já está em silêncio é o seu lado da cama esfria sorrateiro e solitário.