Teu lado da cama

Não soa estranho um sussurro que já fora tão íntimo, intrínseco, pertencente ao meu eu, agora reverberar feito um eco arranhado? Não lhe estremece a alma pensar que um riso cheio de toques e timbres doces agora ecoa num sem fim de distâncias?

Porque a vida tem dessas rotas torpes, esses encontros passageiros, essas almas que se esbarram e, mesmo que num tempo minguado, costuram a eternidade em nossa pele.

Por deus, eu esfreguei meus braços e pernas, arranhei a fina derme suja do meu eu só para tentar tirar um outro alguém de mim. Eu que queria ser eu, tão somente eu. Eu queria minha pele limpa, minha alma vaga, meu cerne límpido e desocupado. Porque quando me deixo invadir eu vivo três timbres acima do aceitável. Quando deixo qualquer coisa além de meus fantasmas me trançar as pernas, eu fico a um piscar de olhos de me derrubar. Sou uma desvirtuada equilibrista mirrando, definhando, morrendo à cem metros do meu chão. Mas todos se foram e eu sucumbi a mim. Venerei a solidão, meu excesso, desaguei, não coube em meus moldes.

E agora há um sem fim de outros corpos, outras almas que se ocupam e se enlaçam em outras histórias, outras vidas. E quando olho ao lado, quando suspiro fundo, quando estendo o braço, é o seu lado da cama que eu toco. Tantos sorrisos que habitaram esse meu sóbrio coração, feriram meu peito, despertaram meu afeto despretenso, agora é seu corpo que impregna em minha tez tão da cor da sua. Agora é seu riso que ri comigo. Agora é sua presença que ecoa no que, pela vida toda, foi um remendo de outras almas.

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