Crepúsculo

Você tem medo do escuro e do breu lotado de reticências. Você tem medo do silêncio ensurdecedor e das sombras opulentas que se inebriam no chão de pouca luz. Você tem medo do que se mistura aos espaços de desconhecido e do que você não vê. Por isso, quando a luz é frouxa, pouca, baixa, você acende uma chama, risca um fósforo longo demais. Você deixa queimar um fogo que te sossega os olhos, aquece a paz, estende a visão, mas que me queima a pele. Esse fogo distante de seus finos dedos apenas reflete a calmaria em seus olhos. Um reflexo em sua íris que exala um respirar mais fundo, uma alma que agora pode adormecer mais em paz. Reflexos exalam outra coisa além de uma aparência sufocante? Mas essa porra de chama ardida me fere a alma, me dilacera o cerne, corrói em três camadas fodidas o castelo frágil de segurança que eu mesma levantei. Sua chama acesa lança luz em meu desassossego e projeta a sombra do caos anunciado. Mergulho em cem fragmentos de mim mesma e ninguém vem me salvar. Você, sucumbida ao seu egoísmo de fazer-se lúcida, me afoga em meu declínio. Vou submergindo no antagonismo de fazer-te em paz no meu naufrágio. Morro afogada em sua fogueira de salvação. Você me olha nos olhos e me mata no vislumbre de sua luz. Lança-me a intensidade de uma brasa que queima em mim, me transforma num papel que um dia fora poesia e agora se esfarela junto ao cigarro mal tragado. Você, com seu medo do escuro, agarra-se ao egoísmo de ver um pouco mais longe, longe que por vezes sequer será alcançado. Eu, escorada em meus atos fatigados de lutar sem vencer, deixo-te marcar nas paredes de minha alma as neuroses aflitivas de alguém que não sabe ser amor. O afeto se desmancha entre seus dedos tortos e unhas sujas de alguém que finge ser, finge ter amor. Você me asfixia nas pétalas murchas do seu bem-me-quer e me deixa morrer do que deveria ser cuidado. Escorrego na superfície do seu caule e morro nas feridas expostas dos seus espinhos. Seu mal-me-quer é fruto desse exalar intenso e ininterrupto do que, para mim, virou veneno. Seu perfume me afoga de angústia, seus excessos me atingem o peito feito uma lança cega, um espinho grande demais, dolorido demais, insistente demais. Ainda assim, suas palavras ásperas me envolvem os pulsos, apertam meus braços, roçam entre os passos meus, mas, por deus, não me deixam morrer. Você me esfola a carne porque tem medo do escuro. Você fechou os olhos há cem anos e nunca mais deixou a luz entrar.

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Janelas abertas

Lá fora, luzes flamulam entre gotas de uma chuva que não cessa. Lá fora, três timbres doces se misturam numa valsa quase inaudível pelas almas apressadas e desavisadas. Lá fora estampa um chão forrado pela calmaria que há tempos não me toca a tez. Não, por deus, esse sequer foi um dos piores dias. Já houvera um caos incalculável, um abismo quase instrasnponivel de inquietude. Mas os fins, sejam eles quais forem, sempre são de um amargor inexato. Beiram ao insuportável, mas nunca adentram a desistência plena. Sempre um equilíbrio tênue, um caminhar torpe entre as linhas que afogam a razão. Há sempre um flanar sórdido à beira do sucumbir a mim mesma. Permaneço existindo e resistindo de corpo, alma e vísceras nessa porra de limiar. Me deparo comigo mesma nas duas esferas finitas que parecem nunca, de fato, acabar.

Mas não é pelo fim em si. Não é a saudade do que se esvai, não é a impressão de que a ausência será um espaço inocupável ou que os quartos serão pra sempre um cômodo vazio destoando do resto da casa. Não. É exatamente pela certeza que há um recomeço, ou ao menos a necessidade de recomeçar, que me assola a paz, me corrói a constância amena do timbre rouco. É exatamente pelo encadeamento fodido de um reviver após abraçar-me ao fim que eu disperso da paz completa, não me debruço num riso doce.

Você que me olha um segundo a mais do que eu mesma nunca me permiti encarar, vê em mim a sombra de quem se cansa dos recomeços? Porque os processos recém iniciados causam um furor desgastante em almas já submersas, em corpos já desnutridos de essência. Mas confesso que seus dedos longos são toques de calêndula, são tilintares afáveis. Não sei, menina, com que impacto os recomeços vão me atingir, nem sei como o caber-me num outro reeguer vai soar, mas ainda que aqui dentro esteja áspero e desajustado, as janelas me mostram luzes baixas e ruas em tom de sépia. Tudo soa calmo do outro lado do fim.

Vinte horas e três segundos. Os minutos eu não vi

Há muito os cadernos estão intocados, com suas páginas  envelhecidas esquecidas no fundo da gaveta. Andei quieta a mais tempo do que esse velho relógio em minha parede suja pode marcar. Nenhum ponteiro poderá tiquetaquear o suficiente para preencher meu vazio. Acho que, por muito tempo, eu repeti intransigente e incansavelmente as mesmas frases rotas, pedidos torpes, desejos insignes de um alguém que não sabe ao certo o que diz. Nunca soube e, por deus, quem haverá de saber?

A solidão invade a casa pelas janelas entreabertas, pelas portas escancaradas pelo vento, pelos olhar emudecido de quem jura querer ver, mas não vê, não olha, não aquece os olhos amargos nas cenas tolas do dia a dia. Há certa vagueza em um corpo sem afeto que caminha sorrateiro pelo andar de baixo, suspira pelos corredores estreitos, arranha a parede oca de uma casa quase sem vida, quase sem alma, quase sem casa. Nenhum ranger do piso haverá de recobrar os risos contidos, os toques delicados, as almas entrelaçadas por um só coração. Você levou meu terceiro timbre e o rádio já não toca mais.

Eu, que disse por tanto tempo um sem fim de palavras, agora me escoro nos livros em busca de um timbre que me faça dizer. Que me permita dizer. Mas não há. Não há poema ou crônica doce, rima ou deleite literário que me permita o risco de ecoar pela casa, pela minha alma fria. Não há nessa vida sequer uma linha frágil que sustente o peso da caneta borrada, da tinta tremida, da palavra mal dita. Os cadernos têm manchas de vinho tinto e minhas palavras embriagadas se agitam no emudecer de um eu que pouco sou. Pouco fui e já não sei se resta a chance de me refazer. Me cabe um emaranhado tolo de palavras rotas, desconexas, um turbilhão enfadonho de grafias sem nexo de alguém que sequer escreve. Se, por deus, um dia escrevi, foi por pura audácia de não saber que me era escuso. Se ousei dizer quem desejara ser, foi por pura necessidade de tentar ser mais que a mim e, quem sabe, te tocar a tez pálida de quem sabe exatamente o que é. Agora não há mais nenhum café quente a minha frente, nenhuma necessidade de ser presente nessa casa com cheiro asséptico. Não há, por fim, nenhum desejo ou necessidade de me transpor numa folha seca que habilmente virará cinza junto aos cigarros e sonhos fodidos. Não há, nesta casa, um só corpo capaz de sustentar o que uma alma berra. Se sucumbir à escrita deteriora a paz do corpo, é nela também que floresce a dor de um relógio parado no tempo.

Atrás da porta

Pois não há força ou relampejo, não há espaço ou desejo de ser uma alma um pouco mais presente. Agora as amarras de um passado fodido me apertam os pulsos, agora a minha inexistência preenche meus poros, transita entre meus cabelos, escorre entre meus olhos. Não ser e não estar e, por deus, não querer ou não poder estar exatamente aqui é tudo que me resguarda. Vivo de inabitações. Vou me ocupando de cenas frias, louças sujas, amores rotos. Vou permeando as salas escuras, os dias secos, as toalhas manchadas de um vinho ruim. Vou cada vez mais sendo um incompleto eu, um torpe eu, um nada além do eco mudo de quem eu nunca fora.

Tenho seis angústias embrulhadas ao pé da cama. Tenho cem anos de uma morte lenta que não me deixa dormir. Tenho a vida debruçada na minha insignificante necessidade de inexistir. Agora tenho meus braços agarrados no que resta de mim enquanto a ojeriza de existir me corrói a carne da alma. E dói pra caralho.

Eu que fui silêncio pra que nada me visse, nem ninguém me percebesse, agora te peço com a frieza de um café esquecido, não volta. Você que veio entre a caótica rotina do meu não existir, se instalou entre os lençóis amassados, você que pronunciou o doce das palavras e fez romper em mim todo o medo de precisar me reinventar, me recriar, me bordar em três tecidos delicados só para te envolver. Você veio e despojou em mim a vontade de reverberar a voz que um dia, acho, foi minha. Mas emudeci em um sem fim de dores cruas.

Agora te imploro, entre a porra do meu eu fragmentado, entre o que não resta e não há de se recompor, seja silêncio. Seja a distância que me permite sorrir por ti mas não me cobra a existência intrépida. Te suplico, não me exija o toque dolorido. Deixa eu te guardar no bolso da alma sem me tirar a garantia do inexistir. Olhar pra fora dói, mas olhar pra mim me fere em tons incandescentes. Refletir meus passos tortos e medos tolos no espelho que  me você dera me machuca por te ter perto.

Sou um vaso rachado à beira de mim mesma.