Amortizar

Os dias vazios são de um peso imensurável. Se houvesse algum resquício de alma nessa casa, coisa qualquer, certamente me questionaria como pode um espaço de tempo oco, vago, quase um limbo temporal, ser sufocantemente árduo, indigesto. Mas não há nenhum vestígio de vida, nenhum passo arrastado pelo andar de cima, sequer há a lembrança de um perfume impregnado nas paredes. Agora me sento solitária e esvaída de mim nesse sofá meio desbotado pelo peso dos meses sufocados, dos olhos mal vistos, dos corpos mal amados, agora me debruço na inexistência de alguém que sequer sabe se um dia existira de fato.

Os cigarros queimam entre os dedos meus e pesam. Por deus, as cinzas que caem ao chão possuem a dor de três vidas e nenhum amor. As plantas morreram sem água e eu me afoguei em meus excessos. Porque a casa está muda e escura e inabitável, e não me ocupo de mim, ainda que cheia e transbordante desse meu insonso eu, me olho nos olhos e vejo um reflexo irreconhecível. A cor púrpura de minha angústia me corroeu a carne, riscou minha tez pálida, atravessou minhas entranhas. Mentira, a amálgama fodida de dores inexpressivas se instalou em mim, contornou meus dedos, se entrelaçou em minhas pernas, adentrou pelos meus poros. O peso desse mundo caótico e desse meu eu sombrio afincou-se em meu peito, se alojou em companhia ao frio do café. Respirei fundo três vezes: eu ainda respirava, mas tudo em mim era silêncio.

Eu já estava aqui quando você chegou. Eu já previa o abismo quando suas olhos vagos ocuparam os cantos da casa. Eu já estava aqui quando suas blusas brancas e barras tortas recaíram sobre a cama. Quando os timbres roucos ecoaram pela sala grande demais para registrar meu mirrado eu, quando seus dedos longos tocaram os vidros frouxos das janelas, quando a embriaguez despertou um paz amena, escassa, torpe. Quando os corpos nem tão vivos revivem e recobram um afetuar-se ao mundo, eu já estava aqui de com pés preparados para correr até lugar nenhum, até as esquinas obscuras de ruas sem fim. Os olhos vendados, os medos pungentes, a décima ferida corroendo minha alma fodida. Não há mais café para esfriar, não há um só copo de vinho barato para amortecer a culpa de ser quem se é. Mas você, por deus, você me escorre entre os dedos, pinga no chão. Você evapora pra dentro de mim mesmo quando a casa tornou-se um caótico vazio do que eu fora. Pra longe disso tudo, eu já estava aqui quando tudo começou. E três segundos depois do fim, num suspiro, eu permaneço num recomeço dilacerado por nunca poder acabar.

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O tempo não sobe escadas

É como se você me olhasse do alto, de um andar distante, de um ponto incólume em que não posso me ver. É como se você sussurrasse essa porra de segredo que me salva e todos podem ouvi-la, menos eu. Por mais que afinque minha atenção na sua boca amargurada, por mais que eu me escore na parede suja da sua alma, eu não ouço, não sou capaz de entender uma só palavra. Então seus olhos entristecem minha alma já dilacerada, seus timbres mudos queimam minha esperança, sua distância fria torna-se insuportável. Eu, que já estou à beira do meu abismo interno, despenco para ainda mais fundo. Um buraco turvo, uma penumbra de mim mesma.

Vou bordando as páginas de um diário que ninguém lerá. Vou contornando com tintas de meu sangue os desenhos que caíram de meus olhos e escorreram pelo meu rosto. Seis manchas densas causadas por lágrimas sofridas quase furaram o papel, mas o enfurecer da dor secou antes que a folha fina pudesse se desmanchar. É feito o afeto que escorre entre meus dedos antes eu que eu possa ser recoberta pela paz. Vou tecendo novas folhas meio amassadas, meio emendadas na angustia que você não quer ou não pode ver. Ou, por deus, não quer poder ver. Mas me mantenho escravizada, obrigada, renegada a furar meus dedos só para que você tenha páginas para me ler. Só eu sei com quantos tons de desespero continuo a tingir esse papel desalinhado. Quem sabe você aprende a me olhar.

Mas é exatamente isso que me mata. É seu olhar desviante, seu afrouxo atencioso, sua inexatidão em me captar. Ainda assim, é a porra da sua atenção que me mata, enrosca meus pés, cerceia meus passos frouxos. É a merda do seu existir que rouba o ar, prende meu peito, costura cada poro de minha derme para que eu morra em acúmulos de ti. Me sobrecarrego do seu mal-me-quer e então não resta mais nada para me querer.

Escrevo três páginas borradas com uma caligrafia apertada. Repouso a caneta no fim de cada palavra que me acerta o peito com uma estaca cega. Deixo o café esfriar, o cigarro me queimar a ponta dos dedos, o inferno incendiar minha garganta. Você faz ruir em mim o que nem eu mesma sabia possuir. Te jogo do décimo sétimo andar, mas quem cai sou eu. E quando do chego ao chão, você me acena do alto, de onde não posso mais te alcançar, te ouvir. Do alto do meu próprio desespero fugaz, você deixa escapar sete segredos que me dão paz. Eu, estirada no chão da minha desistência, já não ouço nenhum. Suas palavras pesadas, há tempos, só me atingem feito flechas doloridas, me ensurdecem, me cravam um ardor insustentável. Há tempos, nossa linha fina não me dá equilibro e não deixa eu me afastar. Há tempos, o tempo entre nós foi engolido pelo despertar fodido de vidas sem timbre, corpos sem cerne, amontoados de entranhas que se decompõem sem a necessidade de haver tempo. O tempo engoliu a mim e pausou um segundo antes do fim.