Coabitar

Se você pudesse notar que há um bocado de silêncio em mim, talvez, ocuparia meus ouvidos. Se você pudesse notar que há, entre meus tons baixos e um constante emudecer, um caos que reverbera frequentemente, poderia se acomodar em meus hiatos. A paz que não me habita é tingida à cor de sangue, é bordada com uma linha espessa demais pra um tecido fino. Eu me destroço todas as vezes que insisto num bordar-me reticente. Não sobrevivo no que inventei de mim.

Mas seus olhos vagos e dispersos envolvem meus dias, tocam minhas horas, contornam uma alma minha que, por deus, não haveria de saber sentir. Caminho numa vastidão tola de me perder e te perder e, por fim, encontrar um pedaço nosso que haverá de me dar paz. Mas não dá. Porra, não dá. Esse meu emaranhado de almas sujas que compõem um único corpo é infinitamente menos caótico do que deixar que os afetos torpes bordem minhas entranhas com a sua existência. Mas, me entenda, não é um desejo de abandono. Por deus, sou humanamente incapaz de abandonar coisa qualquer, quem dirá uma alma doce. Mas é uma fuga complexa, um inexistir em mim que me impede, incapacita um inexistir no outro. Vou sobrevivendo aos pedaços, me decompondo em mim mesma, juntando meus retalhos para resistir um pouco mais envolvida em você. Então eu afrouxo os pontos, esqueço os nós e me sinto um bordado ainda mais sórdido num tecido teu. Tão limpo, tão mais branco do que qualquer branco que eu ousara ser. E, que não sou, nem nunca fui. Me sinto um corpo educado, ensaiado, descorado para sustentar o que a alma já não haveria de pronunciar. Me sinto decapitada da minha existência num outro alguém. Mas, porra, me sinto debruçada no meu vazio. Eu sussurro meus receios e sete medos ecoam por toda a eternidade em meus ouvidos. Eu me escoro em seus ombros nus porque o ritmo de sua respiração me traz paz e nada mais deveria me tirar daqui. Mas seus suspiros me assustam e a insatisfação em não ser moradia de mim mesma me impede ser quem habita um outro alguém.

Pisco os olhos um pouco mais forte e você ainda está em minha frente.

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Eu pisco os olhos um pouco mais forte para ver se recobro a anestesia de mim. Eu olho isto que restou de mim através do espelho meio embaçado, meio sujo, e de repente me dou conta que talvez sejam meus olhos que estejam inebriados. Um borrão de mim e nenhum suspiro aliviada meu peito.

Olho pras janelas distantes e o abismo entre o mundo e eu parece ainda mais intransponível. Por deus, como pode uma distância tão humanamente percorrível parecer um desafio que pouco ou nada valerá?

Mas são os reflexos turvos nos vidros estilhaçados que permanecem refletindo. São minha imagens tortas, meus olhos torpes, meu desajuste nesse sórdido eu que anda refletindo por aí que me entristecem a alma. É este cansaço em existir sem nunca, de fato, pertencer a nada. Um corpo se esgueirando das almas todas, dos corpos todos, da porra de um repouso sossegado em si mesma. Um dia acreditara que viver era feito flanar entre os suspiros alheios e incontroláveis desejos. Bobagem, viver é se olhar com ombros curvados, apagada pelas manchas do vidro. É se ver dispersa entre um reflexo que, quiçá, é seu, que não te contempla, não te sossega, não te alimenta. Um não estar em si e em nada mais.

minha alma dói por pensar na solidão que te toca os ombros

As últimas cartas foram deixadas nos braços do sofá, carregadas de um sufoco amargo, de uma letra apressada, de uma tinta borrada pela necessidade de despedir-se. As últimas cartas eram rascunhos manchados de um não-ser, não estar, não mais existir, ainda que seja preciso uma existência densa e exaustiva para transcrever uma dor qualquer que se sente. As últimas cartas eram sequências de despedidas que nunca, de fato, oportunizaram o abandono da dor. Um adiamento sorrateiro, um deixar de lado o peso fodido que se arrasta preso aos pés, aos pulsos, à alma toda. Mas apenas momentaneamente esquecido, pronto pra emergir à rotina novamente.

Eu, que há tempos não escrevia, passei meses furando esse sofá velho com as canetas já sem tinta. Eu, que há tempos não vivia, encontrei no meio do seu arfar solitário um repouso para meus olhos cansados. Por deus, eu, que não descansava mais, caí exaurida no chão sujo da sala escura. Ali fiquei até o silêncio reinar, até minha mente vulgar esquecer que a dor é feita pra doer, ferir, rasgar a alma em fragmentos torpes de um corpo que sente. Sente?

Deixo meu âmago sórdido escorrer por entre meus dedos, vou pingando de mim mesma e borrando essas linhas mal escritas, essas palavras vazias, esse eco repetido à exaustão. Vou deixando o grito seco do meu silêncio ensurdecer o que restou de mim. Não há muito mais, mas ouso pensar que há uma imensidão desse sujo eu para cair do penhasco. Deixo minhas últimas letras pingarem de meus olhos e tecerem palavras rotas numa folha branca demais.

Mas você tem olhos doces e a calma de quem leria todas as minhas escritas cansadas. Então me sento no chão frio do inexistir e deixo você me inventar em camadas difíceis de esculpir. Minha menina, há muito mais dor em ser o que se é do que cortar os dedos nas lâminas do que se deve ser. Me sento no canto dolorido de me perder e te olho de relance. Seus olhos ainda brilham e minha alma dói por pensar na solidão que te toca os ombros com dedos longos e frios. Meus anseios se estilhaçam ao ver a lança cega da decepção lhe perfurar o peito. Meu eu escorre entre os vincos sujos dessa sala oca, absorvida pela página quase branca do último bilhete mal escrito e perfurado no sofá: fui ser além de mim, inclusive isso tudo que não posso e não sei ser, pois não suportaria ser nada que te borrasse os contornos suaves, ainda que fosse exatamente eu.

Um tecido manchado pela falta de alma

Esses tempos correm vagos entre os suspiros e agonias. Esse vazio tamborila em meu peito dilacerado e faz eco. Três vozes sussurram desafetos em meus ouvidos e todas elas têm exatamente o meu timbre. Sabe, menina, acho que andei me contando memórias ruins novamente.

Do lado de fora, o vento varre a rua, aqui dentro a dor varre a alma. Continuo à mercê de mim mesma, beirando os meus penhascos, debruçada no abismo de minha mais tenra escuridão. Tenho medo de respirar um pouco mais fundo e cair de vez em mim, cada vez mais pra dentro desse imenso eu. Tenho medo de contrair a respiração e morrer em minha asfixia, sem ter por onde aliviar minh’alma cansada, acabada por excessos desse exaurido eu.

E mesmo quando os cafés são doces, quando as bebidas são fortes, quando os cigarros aliviam o peso árduo de se perceber inviolável dentro de si, mesmo quando os dias se somam em calendários sujos, ainda há um estilhaço fodido aqui dentro que insiste em arranhar o riso espontâneo. Ainda há um pedaço ardido de alma que não sossega em nenhuma essência. Ainda há um amargor costurado na garganta que insiste em misturar-se aos goles quase mornos do que deveria ser uma bebida boa. Por deus, as lembranças são retalhos sordidamente costurados num tecido fino demais para sustentar qualquer peso desalmado. Memórias doloridas que perfuram os dedos de quem apregoa dor à vida já sem cor, perfuram a pele, rasgam as fibras finas de uma seda que se rompe. Derramo meu café agora frio nesse tecido manchado pela falta de alma, pela falta de calma.