minha alma dói por pensar na solidão que te toca os ombros

As últimas cartas foram deixadas nos braços do sofá, carregadas de um sufoco amargo, de uma letra apressada, de uma tinta borrada pela necessidade de despedir-se. As últimas cartas eram rascunhos manchados de um não-ser, não estar, não mais existir, ainda que seja preciso uma existência densa e exaustiva para transcrever uma dor qualquer que se sente. As últimas cartas eram sequências de despedidas que nunca, de fato, oportunizaram o abandono da dor. Um adiamento sorrateiro, um deixar de lado o peso fodido que se arrasta preso aos pés, aos pulsos, à alma toda. Mas apenas momentaneamente esquecido, pronto pra emergir à rotina novamente.

Eu, que há tempos não escrevia, passei meses furando esse sofá velho com as canetas já sem tinta. Eu, que há tempos não vivia, encontrei no meio do seu arfar solitário um repouso para meus olhos cansados. Por deus, eu, que não descansava mais, caí exaurida no chão sujo da sala escura. Ali fiquei até o silêncio reinar, até minha mente vulgar esquecer que a dor é feita pra doer, ferir, rasgar a alma em fragmentos torpes de um corpo que sente. Sente?

Deixo meu âmago sórdido escorrer por entre meus dedos, vou pingando de mim mesma e borrando essas linhas mal escritas, essas palavras vazias, esse eco repetido à exaustão. Vou deixando o grito seco do meu silêncio ensurdecer o que restou de mim. Não há muito mais, mas ouso pensar que há uma imensidão desse sujo eu para cair do penhasco. Deixo minhas últimas letras pingarem de meus olhos e tecerem palavras rotas numa folha branca demais.

Mas você tem olhos doces e a calma de quem leria todas as minhas escritas cansadas. Então me sento no chão frio do inexistir e deixo você me inventar em camadas difíceis de esculpir. Minha menina, há muito mais dor em ser o que se é do que cortar os dedos nas lâminas do que se deve ser. Me sento no canto dolorido de me perder e te olho de relance. Seus olhos ainda brilham e minha alma dói por pensar na solidão que te toca os ombros com dedos longos e frios. Meus anseios se estilhaçam ao ver a lança cega da decepção lhe perfurar o peito. Meu eu escorre entre os vincos sujos dessa sala oca, absorvida pela página quase branca do último bilhete mal escrito e perfurado no sofá: fui ser além de mim, inclusive isso tudo que não posso e não sei ser, pois não suportaria ser nada que te borrasse os contornos suaves, ainda que fosse exatamente eu.

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