Nepente

De repente a gente sente o mundo pesar. As costas doem e pulso enfraquece ligeiramente. Os olhos morreram consumidos por aquela ilusão de brilho, de doce, de encanto. Ah, minha pequena, passamos dias de penumbra e noites em claro. Passamos do inferno, do medo, do receio, do desatino. Desfalecemos, nos afogamos em nossa inércia amedrontada. Menina, nós sobrevivemos aos assovios do mundo, às risadas frias, ao barulho ensurdecedoramente mudo do pânico do dia seguinte, do futuro que está no próximo segundo e nunca chega.

Nos levantamos sem sentir os pés tocarem ao chão. Nós morremos por dentro. De dentro. De alma. Porra, nós engolimos a essência da não-vida, do não-viver. Nos encurralamos no crepúsculo da aura. Afundamos, chafurdamos no inferno que queimou nossos sonhos. Menina, essa noite nós morremos.

Morremos pelos nossos sonhos esquecidos, pelo medo de sermos, de não sermos. Morremos por tudo que pendia em nossos pulsos, por tudo que cicatrizava ou marcava nossa pele, ou nossa alma.

Morremos.- suspiro

E, num sopro, numa ânsia de tentar e querer e, quem sabe, poder sobreviver no marasmo caótico da nossa supra essência, aspiramos ar, aspiramos fé, aspiramos vida que tolamente nos ilude e nos veste e nos disfarça de um mal-morrer eterno. Mas respiramos, ainda que sem ar. Ainda que sem vida. Ainda que sem a essência que garante o re-viver.

Porque a gente morre todos os dias. O corpo que adormece é privilégio.

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