Um segundo mais denso

A maioria de nós já esteve uma linha abaixo de onde estamos agora.

Ou uma linha acima. Mas é sempre difícil lembrar dos dias menos tenros.

Dos amargores mais intensos. É sempre mais inviável recordar do medo mais latente ou da asfixia mais nefasta quando não se vive o momento exato.

Acho que a maioria de nós, humanos e tolos fodidos, já esteve um grau mais perto da loucura. Já riscamos o fósforo com medo do escuro. Já queimamos o temor da solidão com a chama ardente da desistência.

Acho que nós, corpos desalmados e decompostos pela inexistência de ser, já estivemos um passo mais perto do amor. Mais acima do bem. Quase tocando a paz, ainda que sem nunca ousar romper o manto suave do intateável.

Nós, entre corpos amontoados e almas dilaceradas, caminhamos um caminho sinuoso. Um curva quase nula. Um eco ressoando à exaustão. Mas nós já estivemos um segundo mais perto da perfeição, da inescrupulosidade de aspirar o ar, aspirar o fim, tragar a última essência que perfura os pulmões.

Estivemos perto do fim e do começo. Do ponto final que nunca chega.

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Falo-te em afetos

Era sobre o amor que eu queria falar. Sabe, pequena, sobre os anseios compartilhados e os dias amenos. Era sobre seus risos frouxos e toques delicados de quem teme me tocar de um modo abrupto ou incoveniente. Era sobre o seu amor me cobrindo o corpo, segurando-me as mãos, entrelaçando-me as pernas. Era sobre seu modo de preencher meus vazios sem nunca me ocupar demais, ainda que eu anseie por me transbordar de sua alma doce. Por deus, eu só queria te entregar frases de amor, de afeto.

Mas eu sempre sucumbo às linhas amargas. Aos tons cinzas, aos toques emudecidos por um sentimento um tanto mais amargo. Acabo sempre ressoando sobre a solidão e o amargor da casa.

Agora ocupo minhas linhas sobre essa solidão que divido ao lado teu. Sobre os dias que correm soltos e me trazem pra mais perto de mim apenas por estar ao lado teu. Hoje eu escrevo sobre um vazio que já não me dói mais, mesmo que todo humano mantenha em si, em sua mais tenra essência, um espaço caótico e inocupável. Escrevo palavras sobre a paz e o caos que você me causa e sobre o medo de te deixar escapar entre seus olhos cansados. Escrevo sobre as salas vazias e o peito apertado, sobre o eco de não te ouvir e sobre o fim dos dias que suspendem no ar o teu perfume empregado em minha alma.

Escrevo palavras pesadas para que marquem as folhas, o cerne. Desejo que minhas palavras, por vezes secas e inexpressivas, te penetrem a pele. Porque me resta um pouco mais de mim a cada vez que tu me toca. Me sinto um tanto responsável pela felicidade que se ausenta de ti. Não pela prepotência de me achar capaz de causar felicidade, mas por te achar digna de uma paz que o mundo, cruel, te rouba.

Mas, por fim, mesmo quando não sou capaz de falar dos afetos que lhe teço, desejo que os amores que emergem desse tecido denso que te bordo te aqueçam a alma. A solidão é um afeto  entregue cem vezes a quem sabe compartilhá-lo.

É sempre de amor que se fala.

Silêncios

Seis frases roucas emudeceram em meu peito. O café esfriou antes que eu pudesse dizer que o tempo anda esmagando nossas entranhas. Nenhum livro foi lido, nenhuma música soou pelos cômodos da casa. O silêncio, que fora calmaria, hoje é a agonia que come o que restou de nós.

Mas você se senta nesse sofá velho e espera que os dias corram bons. Eu me debruço no chão frio estirada nos estilhaços do desafeto.

Suas roupas esquecidas no pé da cama me lembram que nenhuma estadia dura tempo o bastante para ser suficiente. Por deus, nós sempre morremos antes do arfar definitivo, daquele que encerra os filmes, que aquece as almas.

A gente sempre vive na imanência de resistir a mais um dia. Horas corridas e bebidas esquecidas na cozinha escura preenchem o caos de não existir. Não mais resistir.

Dias úteis

Entre pilhas de papéis e xícara vazias de café, entre a rotina fatigante e uma semana mal vivida, entre a solidão de estar rodeada de rostos turvos e a audácia de persistir um dia a mais, eu sobrevivo ao fim dos tempos.

Por deus, meus passos são arrastados e meus cigarros queimaram o vão dos dedos meus. Lá fora chovem cem lágrimas fúnebres de anjos negros e ninguém notou a palidez a morte alheia.

Eu me sento em frente a mim mesma e procuro uma resposta que não vem. Por deus, não há de vir. Nenhum timbre rouco para aliviar a depreciação de existir esse meu exaurido eu. Feneci sob meu manto denso de imprecisão. Coberta do caos de me pertencer, de me habitar, de carregar um sem fim de mim, mesmo que de fato sem nunca me ter, me estar, me ser.

Ah, mas olhe quanta bobagem. Meu corpo cansado anseia pelo repouso e minha mente goteja junto à chuva sorrateira. Meus dedos percorrem a borda curvada dessa xícara fria, mas são meus olhos que tombam na porcelana mal cuidada.

Eu me debruço na inexistência desse torpe eu e mantenho meus pés no chão. Só Deus sabe que minha alma foi decapitada antes do amanhecer e não há vestígio de amor ou de dor capaz de fazê-la recobrar a vida.

A música soa rouca no rádio quase mudo. Isso porque meus ouvidos fodidos ensurdeceram aos berros internos. Mas você quer ver em mim tudo aquilo que eu acredito não ser capaz de sustentar. Acho que a esperança tua me sufoca, me asfixia, me mantém inebriada no poço que me escalda. Incapaz de me mexer, eu me permito afundar um pouco mais só para te tocar os cabelos densos. Você cheira àquelas flores que arranquei as pétalas por não saber a hora certa de regar.

Você suspira debaixo de meus dedos e toques, me matando pelo não sentir. Ouço seu arfar denso e te imagino entre os tilintares que a vida me roubou.