Almas que ascendem

Há centenas de pessoas incríveis. Aos montes, espalhadas por aí. Há centenas de ações incríveis repetidas insistente e sorrateiramente por aí. Todos os dias, uma pessoa banal vence a si mesma e, no mais perene silêncio e anonimato, ergue-se sobre si mesma.

Juro a ti, se sair correndo o mais rápido que puder e contornar sua quadra às 5 da tarde, você esbarrará numa história incrível ou duas delas. Ou dez. Nunca se sabe.

Mas nem sempre estamos atentos às almas doces, aos encantos alheios. Estamos sempre tão absortos em nossa própria ânsia de ser que deixamos os fatos incríveis ocorrerem bem ao nosso lado sem, ao menos, deixar que eles sejam minimamente notados.

Eles quase nos tocam os ombros com seus dedos longos. Mas passamos ilesos com mais constância do que a justiça há de acordar. Mas é sempre um maldito quase que cava o abismo de cegueira ao nosso redor.

Todos os dias, vamos nos prendendo em nossa sôfrega vontade de sermos mais do que nós mesmos, que perdemos essas almas que vêem em nós os atos incríveis.

Queremos ser melhores do que tudo que já vimos, então não vemos nada mais além de nós. Na nossa pequenez e mesquinharia de ser nada mais. De ver nada mais do que achamos ser incrível. Não somos. Não vemos. Chegamos o mundo e, ao lado nosso, o incrível se prolonga sem nem ao menos nos fazer piscar.

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Luz baixa

A tristeza sopra um assobio baixo em meus ouvidos. Eu já ouvi esse sussurro por cem dias mortos. Mais do que isso, eu já vivi esse barulho quase mudo por cem mortes frias. O que se tornou paz, calmaria, agora começa a ranger, despertar nesse barulho ainda distante.

Talvez possa parecer confuso entender o que digo, ou tento dizer, mas eu estive imersa nesse assombro caótico por um tempo tão longo, que sou capaz de reconhecer qualquer pequeno romper silencioso. Sou capaz de perceber a nota fora da linha antes mesmo da melodia adotar ritmo. Sou capaz de prever o breu antes das luzes penumbrarem.

Esses últimos tempos houve uma paz danada. Não direi que não houve. Tudo foi leve, uma leveza que por vezes eu não soube lidar. Tudo adquiriu um tom vivo, um timbre mais alto e, ainda assim, mais afável. Nada me feriu os ouvidos.

Mas me resta dizer que os fantasmas são sombras adormecidas que persistem dentro do meu peito em um sono leve. Tive medo de correr rápido demais e acordá-los. Tive me medo de rir um pouco mais alto e fazer tudo desabar em meus medos assentados.

A verdade é que, hora ou outra, nossa essência um tanto torta desperta. Nossa paz se esgota. A verdade é que me sinto grande demais para mim mesma, então vou me encolhendo nisso que sou, que me cabe ser. Vou me escorando em meus cantos escuros até que eu mesma não seja mais capaz de me ver. Mas ainda vejo.

Me senti tão exausta nesses últimos dias que posso sentir o caos emergir em mim. Ainda que haja um porto de paz me segurando as mãos, sinto qualquer fim que já acabou comigo mais vezes do que fui capaz de suportar me olhar fundo novamente.

Ainda que a luz reflita no chão da sala, o chão da alma minha escurece entre os silêncios que não sei ouvir.