Florescer

Meus olhos semicerrados de trás das lentes um tanto sujas, um tanto foscas de meus óculos são só um eufemismo para minha cegueira d’alma. Minha voz rouca é só um retalho desse caos que me silenciou.

Mas, por deus, como as dores e ardências dessa vida fodida ganham tons poéticos quando são bordadas em corpos que não os nossos. Todo escritor é um abismo de cicatrizes não sentidas por quem o lê.

Mas caminho nessa reta meio inebriante e desvio dos reflexos de quem sou e não quero ser. Ainda que os seja incansavelmente. As flores mortas despencam das árvores e atingem o chão antes do meu próximo passo. Toco nelas e são tão mais vivas do que eu, ainda que padecidas em seu fenecer. Morri três vezes mais e ainda invejo a paz de quem se deixa cair do topo do galho sem ao menos temer o encontro com o solo. Meu abismo nunca termina porque minha queda é a linha fina que me sustenta.

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