Espelhar

Olho minha pele rabiscada no espelho um tanto sujo e percebo que me pareço cada vez menos com o que sou e mais com o que gostaria de ser.

Mas, veja, não quero soar otimista ou tolamente vislumbrante. Não é como se eu quisesse me afastar desse externo eu que é, eterna e infinitamente, eu. Na verdade, quase creio que me fora dada a chance de ocupar um pouco de mim com o que, de fato, sou. É como se meus pulsos cansados agora pudessem ser marcados com um tracejo de alma que berra minha essência, ainda que sórdida, ainda que amarga, ainda que desumanamente sem essência.

Olho-me no espelho intacto, mas vejo um corpo estilhaçado. Não de hoje. Por deus, os fragmentos são uma ferida velha. Mas o reflexo é de uma sombra um tanto mais distante de tudo que foi dilacerado. Mas repito, não é essencialmente uma forma de fugir do eu que veementemente será sempre meu. Ainda que pudesse livrar-me da pele fria, duvido que me seria dada a alforria das memórias cruas e fodidas. Então me resta habitar esse espaço corporal entre o caos e o fim. Entre o frenesi e o fenecer. Entre a flor que despetala e nunca morre.

Permito distanciar-me do que carrega o breu do existir e rumar ao fragmento de mim mesma. É como se assim, e tão somente assim, a cada estilhaço meu uma nova história possa ser recontada ainda que exatamente igual sem nunca, de fato, ser a mesma. Um milhão de vezes, se for preciso, mesmo que sem começo, mas também sem o fim de quem já morrera eternamente refletida mas sem ver-se no espelho.

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Neblina

Apago as luzes para ver se me diluo pelo cômodo, para ver se meu breu interno se mistura ao escurecer da sala. Mas nada muda, nada sai de mim. Nenhum peso incômodo me larga os pulsos, nenhuma aflição atônita diminui o tom.

Meus olhos, já adaptados ao novo inebriante sombreado das paredes sujas, ainda vêem o profundo caos que exala de minha derme fria.

Lá fora os ventos são frios. Ou quentes, já não importa. Aqui dentro nenhum vendaval é capaz de me assolar, pois não resta muito além do fim. Uma linha sem toque, uma nota acima do nada.

Os dias mudos me ferem os ouvidos – mas, por deus, são quase dias amenos. Parece que há um gracejo fino que me separa do mundo e, do lado de lá, hei de ter um segredo que me daria paz. Algo que não me foi permitido saber sobre acordar e dormir e respirar com a certeza de que vivo.

Bobagem, só eu sei quanta bobagem ando dizendo nesses tempos amargos. Menina, se tu soubesses que nenhum café resiste quente aos meus quase fins, se soubesses que os cigarros me marcam os dedos e me queimam a alma antes mesmo de eu sentir o gosto amargo, se soubesses que as garrafas se empilham e a bebida amorna em meu copo. E agora, sabendo de tudo, os cafés frios, brasas em chamas e álcool ruim já não me servem de acalanto, o que te peço? O que te digo?

Como digo que esta sombra tenra que há anos me habitara e – tola – achei ter-me abandonado, voltara. Acordo num despertar assombroso, feito uma batida de porta que me rompre o sono, o sossego. Ainda que não haja porta. Não há saída.

Meu eco insonso volta a reverberar, berrar, escancarar meu peito fodido. Meu vazio vibra numa intensidade que fere meu sétimo existir. Não existo mais.

Pequenos debruçar-me em meus caos. A luz de mim ofuscou e, agora, a sala escura parece pouco assombrosa para meus olhos cansados.

Afinei, mirrei, dobrei-me em cem pedaços frouxos de alguém que não mais existe. Mas foi, juro, para esquivar-me da dor, do despetalar frenético que me matou por dias sem fim. Agora, o que restou não me serve para combate. Sou pequena demais para caber em mim de volta.

Um quase nada, um eco baixo, um adormecer que me salva do fim, mas não me resgata da vida que me mata. A luz me respinga mas não me reflete.

Musical

Uma folha seca cai aos meus pés e um estrondo vocifera ao meu redor. Todos os ecos da minha fala rouca são pausas do meu arfar.

Agora o som meio sem melodia toca baixo na sala grande demais para meu corpo mirado que está escorado a 100 metros da paz.

Por deus, minhas entranhas reconhecem esse tamborilar quase seco, quase oco, de uma música que há tempos eu não ouvia. As paredes dessa sala são tocadas por um sem fim de dedos brancos demais para alguém que vibra à luz da vida.

Mas não pense que não havia som até há pouco tempo. Havia. Devia haver timbres crescentes, badalos frenéticos, tomborilares que ensurdecem a quarta paz de um alguém afetivamente são. Deveria haver dez notas frias e quentes e amargas e melodiosas e. Nenhuma era minha. Nunca fora.

Antes eu as ouvia. Deitada nesse chão incólume e denso e frio. Debruçada numa calmaria falseada pelo fim que caminha mas não chega, que me escapa mas não cessa. Eu ouvia notas pesadas de um amor que não viveu para virar sentimento capaz de me tocar a derme, só a ilusão de ser qualquer coisa mais do que esse quase nada.

Mas eu ouvia paz e dor e fim, ouvia a nota surda me perfurar a carne. Emudeci.

Por um sem fim de dias bons, eu fingi que as músicas não haveriam de ser continuadas. Fingi, por deus, que eu era um corpo surdo para a dor que me sangra o existir.

Agora ouço. De novo, como eu quis jamais ouvir e ressoar, ainda que quase morta do meu emudecer, uma melodia que me veste mas não me deixa sentir.

Reescrita

Há tempos que as folhas repousam brancas em minha mesa. As canetas – que da última vez já riscavam quase sem tinta – permanecem igualmente debruçadas na madeira dura da mesa oca.

Faz tempo que linha alguma se ocupa de meus anseios sôfregos e angústias tolas. Não, por deus, não que existisse paz ou calmaria a ponto de não haver o que escrever – pois minha única forma de dizer qualquer coisa, as coisas todas, sempre fora escrevendo.

Houve. Só eu sei como o barulho me fez emergir falas inteiras, assim como o silêncio me fez sentir até o último resquício da ânsia por dizer.

Mas não disse. Por tempos eu não disse, não soube manifestar nenhuma palavra conexa à outra. Nenhuma frase consonante à minha’lma aflita exatamente por não saber exprimir – mas que besteira isso tudo. Alguém que sofre pelo silêncio enquanto se exime do barulho alheio. Mas devo, anseio, arrisco dizer: sou o que sobrou da minha sórdida vontade bradar no meu eco aflito. Sou o que não sabe fazer-se em meio ao caótico evervecer das multidões. Milhões de corpos barulhentos que falam um sem fim de sons e nenhum sentido.

Respiro.

Sou o tecido do silêncio, sou um nó que se faz e desfaz nos emudeceres. Mas é só depois de um bordado denso que, de fato, existo. Somente quando transpasso para o papel, um tanto mais branco que minha alma fraca é, eu me permito vestir-me disso que me resta ser: mangas tão mais longas do que os braços meus. Vontades tão mais distantes do que a vida me permite ter. Um tecido tão mais grosso que meu corpo há de poder suportar. Uma dor tão mais ardida do que meu peito há de saber arder. Uma roupa tão mais pungente do que meus olhos sabem apreciar revestindo uma alma que se desfacela em cada sopro frio de um viver que não espera os desesperados.

Mas, olhe, não é costume me perder em minhas falas. Acho que a ânsia acumulada me despertou uma multidão de desejos falantes. Preencho agora um sem fim de linhas e me perco no emaranhado de meus culposos emudeceres.

Respiro.

Escrevo pra registrar a paz que me pende o pulso esquerdo, ao tempo que o suplício de permanecer em mim corrói a carne da mão direita. Minhas canetas permanecem repousadas na mesa e meu cerne se debruça próximo ao fim de mim. Morro a cada linha e me recomponho antes da próxima – porque alguém já me disse que escritores que não morrem escrevem nas paredes da alma.