A noite baixa diante meus olhos e quase não vejo a calma pelo vidro sujo da janela. Há uma imensidão logo depois da minha parede de caos e eu, exausta do meu existir, não me atrevo a tocar.

Minha pele vibra em tons do silêncio. Mentira. Somente a paz é silêncio em mim. Todo o resto berra ecos intensos, tampa meus ouvidos com o volume lúgubre do inferno sonso.

Mas ainda que o inferno queime cem memórias tórridas dentro de mim, fazendo reviver ininterruptamente minhas cicatrizes abertas, seu corpo adormece ao lado meu e sossega meu peito intenso.

Tua paz apazigua o cômodo todo, teu arfar soa ritmico como a calmaria que há nos dias bons.

Por deus, existir me pesa toneladas e meu pouco talento faz-me tropeçar entre os passos tortos. Mas seus olhos são um caminho, uma estadia. Logo eu que nunca soube ou pude estar em afetos, agora me seguro em seus dedos com a vontade de me aninhar entre seu futuro eterno.

Mas dói, porra, como me fere pensar que os amores são tempos marcados. Se, por ousadia do destino, eu te fosse eterna e o amor não se esgotasse, juro que me perderia todo dia em seus olhos doces.

Porque o amor sempre me fora um peso intocável, uma ferida viva. Sempre fora uma flor grande demais que me sugou o afeto e me matou em solidão. Sempre que morri de amores, foi insípido. Eternamente, num caminhar solitário, tropeçava numa flor gigante e me sentava diante do que julgara ser meu objeto de amor. Sem nunca tocar, sem nunca sentir o toque aspero do que achei ser afeto, morri de fome.

Mentira. Passava dias mirrando lentamente diante dos meus amores até o sentimento fragilizar. Meu afeto morria sufocado quando a flor despetalava. Quando as cores intensas caiam sobre mim, pesadas demais para meu corpo pequeno. Morria eu e meu amor, desgastados pelo inexistir do que eu julgava (me) dar amor.

Mas você, pequena, com seu existir tão tocável, me fez plantar o afeto. Fez-me  ver o crescer da flor, sentir o exalar do perfume, tocar o quase veludo de uma pétala de afeto. A flor cresceu e eu cresci junto. Dessa vez meu amor não ficou maior e mais denso que eu. Não me foi um fardo árduo ter afeto pois eu escrevi amor em meu peito sem precisar apagar as marcas de mim. Eu existo e caibo aninhada entre as pétalas dessa flor, desse afeto.

Mas por deus, queria eu que a calmaria me deixasse morar em teus braços. Que o exalar do amor não curve ao chão. Queria que as pétalas de afeto nos fossem repouso e ecos por sem fim de dias – ainda que eu saiba que o tempo corrói o caule denso do amor. Ainda que eu saiba que amar é preparar-se para o fim.

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Flores ao chão

Eu poderia percorrer as quadras todas desta cidade vazia, as ruas escuras desta maldita e inebriante estadia minha. Eu poderia vagar um sem fim de dias e noites e nenhum entardecer me daria a chance de acalmar meu peito aflito. Escrevi sobre amores em mil cadernos manchados de vinho e agora que meu afeto repousa num cômodo ao lado, adormecido ou entretido num livro qualquer, sinto meu vazio insuflar, minha caneta falhar, nenhum rascunho poder ser rabiscado. Agora que meu peito achou um sossego em teu braço, sinto meu amor poético esvaecer. Em vez de espalhar-se pelas paredes brancas, minha agonia mancha minha pele fria, espalha-se pelas mãos e pinga de meus dedos, sem nunca se esgotar.

Eu falava de amor como um modo sórdido de não me deixar morrer. Agora que me envolvo nesse caos de afeto que me berra melodias, eu morro por não saber dizer tudo que ensaiei em infinitas linhas tortas. Mesmo que eu corresse esta porra de cidade suja, eu jamais encontraria a paz de ser um todo amor. Se, por deus, eu fechasse os olhos e vagasse na chuva, no escuro, no breu de quem não sabe fugir de si, eu tropeçaria no meu inexistir e cairia cem vezes pra dentro de mim. Poderia te olhar nos olhos e nunca esboçar o amor que emerge de mim e me dilata as pupilas, mas amordaça a alma. Teço-te de meu afeto até não sobrar nenhum pigmento em meus linhos.

Minha última carta sem destinatário suplicava para que este mundo fodido permita que deixem sentir um amor qualquer, um caos em meio a céu aberto, deixem viver o delírio de ser afeto, mesmo que seja efêmero – e quase sempre é. Mas ninguém – nem eu mesma – nunca falou sobre a necessidade de poder enterrar os amores mortos. Há muito peso em querer viver uma flor que só se deixa tocar depois que despetalou-se em desafetos. Há amores que só se tocam quando todo o caule repousou no chão.  Se eu pudesse correr com os olhos vendados, nesse exato momento, em qualquer direção desta porra de cidade, eu tropeçaria em minhas construções de afeto que tento reviver, e das minhas feridas sairia o seu sangue vívido que me arde em calmaria.

Anoi(te)cer

Olhei um sem fim de vezes forçando a vista ao que achei ser amor. Me enganei. Olhei, com os olhos semicerrados, o mais distante que minha’lma aflita e fatigada me deixou supor. Não havia resquício de humanidade nos arredores.

Mas acho que é isso, pequena. Essa merda toda que a gente habita é só uma casa de fazer vazios. É somente um quarto alugado, com paredes um tanto sujas, que fazem as noites parecerem um tanto mais sórdidas, mais cruéis.

Visto-me de minha melhor tenacidade para enfrentar o lúgubre desfigurar humano nos olhos alheios. Por deus, por isso prefiro as noites, os lugares vazios, os corpos virados nas sarjetas, as almas que passam feito borrões por mim. Prefiro-os pois me evitam o cruzar de olhos, impedem que eu possa, ainda que despretensiosa e descuidadamente, pousar minha atenção em suas banalidades sem alma, em seus dentes sujos, em seus sorrisos falsos. Os dias – ah, esses malditos dias claros que vociferam e ecoam e cospem em minha cara lavada a vida que não vivo -, esses são ciclos completos dos ponteiros do relógio, mais um circular e mais um e mais outro. Infinitos tiquetaques até que as sombras do entardecer me finquem a pele fria.

Eu tenho a cor desse quarto vazio, fodido, abandonado. Eu me misturei às paredes, bordei-me à tinta descascada, eu fiquei fina feito pó. Virei um peso que ninguém além de mim mesma é capaz de sentir. Mas, por deus, como me peso. Uma tonelada capaz de afundar o chão, se houvesse qualquer base capaz de me sustentar. Não há. Por isso eu afundo por dentro, faço um buraco em mim e vou caindo em meus abismos cavados. Cada vez mais fundo, cada vez denso, cada vez mais.

Mas não me dói. Não me fere. Não me assusta. Pelo menos não mais – esses meus cafés amargos não me deixam mentir – já me doeu. Porra, cair numa imensidão de mim mesma já me estraçalhou em um sem fim de pedaços fodidos e incoláveis e incosturáveis e inamáveis – desculpe a liberdade linguística, mas a minha falta de existir me obriga a recorrer às palavras inexistentes também -, mas agora não me dói mais. Fui caindo sem fim e morrendo pela falta de sentir. Mentira! Senti demais. Demasiadamente. Exauridamente, senti até derramar de mim tudo que pensei ser. Não restou muito.

Depois que suas construções fodidas se esgotam, os corpos viram massas dispersas. E as almas, antes inúmeras, são apenas licenças poéticas. Prefiro as noites pois me desobrigam a olhar a esperança ilusória de que há um algo a mais. Tanta gente cruzando-me as esquinas e nenhum peito ameno para repousar minha mente exausta. Esqueço de apagar os cigarros pois é tão somente a brasa que me queima os dedos capaz de me fazer sentir.

Mais uma hora e o som lá de fora começa a vibrar mais calmo. Este inferno humano vai existir longe de minha alma cansada. Se ainda há alma.

Olho as paredes sujas e minha agonia atônita está presa no cambalear do ponteiro do relógio. Sinto que há sete noites entre cada arfar meu, mas esse tiquetaque insiste em mostrar-me que faltam 2 ciclos solitários para que a tristeza seja misturada ao breu da noite.