Patologias d’alma

Escuta, pequena. A vida tem dessas besteiras, dessas maneiras insonsas de apontar respostas para perguntas que nunca fizemos. A vida, na audácia de ser insuportável e intragável, joga-nos desesperos homeopáticos. Nada que mata, nada que salva.

Abri um livro de corpos estudados, células aumentadas, sangue microanalisado.

Entre páginas, descobri que há doenças incuráveis. Olha que humanidade fodida. Há doenças que nos matam, outras que nos afetam e são curadas, mas há aquelas infeções que são adormecidas. Explico-te: cura-se o sintoma, mas a doença passa a ser tão nossa, tão parte de nosso organismo que nunca se vai. Um outro corpo sendo corpo nosso.

Feito uma tristeza incurável. Um desassossego impertinente que, por vezes, adormece, nos dá calma, mas nunca se vai. Sempre pronto para romper-se e nos inundar.

A noite baixa e o breu invade minha alma. O nefasto eco solitário que sopra o mundo faz em mim um vendaval. Não há nenhuma cortina ou janela fechada que impeça essa sombra nostálgica de afetar-me.

Estilhaçando-me em uma lentidão sorrateira, hoje a aflição do passado me pesou os pulsos. Por deus, nunca há paz pra angústia humana.

Há tempos os dias eram bons, eram de calmaria e marés mansas. Há dias, os dias eram paz. Não, por deus, não que tivessem sido meses de plena melodia ritimica. Nunca é. Houve choro e ansiedade. Houve medo, agitação, caminhos tortos, passos incertos. Houve aquela ânsia sôfrega de fazer a curva brusca em uma esquina qualquer – um rumo novo e totalmente diferente.

Sempre há o desejo de dormir uma manhã inteira e abandonar as obrigações tolas e insonses dessa vida fodida. Sempre há o desejo de ser uma alma totalmente nova em uma rua desconhecida. Mas, nesses últimos tempos, aquele assombro mudo adormecera dentro de meu peito oco. Aquela velha agonia de me existir, de me ver bordada e bordando exatamente a torpe obrigação de poder ser a mim e tão somente a mim, recobrou o pulso.

Quase achei que estava permanentemente despida do receio de ter que existir. Porra, habitei-me por esses dias todos e, apesar de certo temor ofegante de ser-me, não havia mais a repulsa de estar presa nesse meu eu insonse.

Agora olho meus olhos pesados nesse espelho sujo. Minha face tem fragmentos de uma alma que tentou reconstruir-se mas foi, pouco a pouco, cedendo à pressão da dor.

Por deus, a dor. A dor ardida e fodida que pesa no meu eu. Vejo-a torcendo meu corpo, ainda que não haja uma ferida sequer, ainda que não haja nenhuma pele rasgada, eu sinto minha essência jorrar por dentro. Meus buracos mal curados não resistiram à insensatez de pertencerem exatamente a mim.

Eu, tão somente eu, designada a me habitar. Eu, tão eu, incapaz de curar-me de mim. Incapaz de abandonar.

Alguém já me dissera que, assim como as doenças que são tratadas, mas não curadas, não se pode curar-se nos ambientes que te adoeceram. Feito uma analogia.

Nós não podemos curar uma ferida presos no corpo que nos adoeceu.

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Os vinhos que me calam a alma

O café esfria na minha xícara velha. Meus dedos doem e nenhuma esperança adoça essa bebida amarga.

Você já se perguntou o que as pessoas falam? Por deus, eu ocupo espaços nas ruas, sento em bares e me debruço na inexistência de minha alma. Eu ouço vozes frias, vazias, de corpos murchos. As pessoas me roubam o silêncio e não me oferecem nada em troca.

Eu me derrubo em espaços caóticos, entre gente sórdida que fala incessantemente. Só eu sei o quanto já tentei ouvi-las, mas ensurdeço antes do vinho barato chegar ao meu estômago.

Eu tento, por deus, como tento pronunciar-me. Queria estar em meio à gente do mesmo modo que suas vozes ocas e sonsas estão em meio de minhas entranhas.

Mas sinto que não há mais nada a ser dito. Nenhuma grande ideia, nenhuma boa teoria. Toda essa merda já foi dita. E não sobrou sequer uma tola banalidade. Toda essa gente vã já repetiu exaustivamente o mais infame dos dizeres.

Calo-me. Sou uma pedra inerte em meio à massa decomposta de gente. Ainda que parte dela, sou-me estranha, deslocada. Por isso, afogo-me no café frio, no vinho seco.

Já ouvi uma centena de vezes tudo que a mesa ao lado diz. Ainda assim, dizem. Todos os corpos desalmados perto de mim dizem. Continuam a falar. Eu me pergunto sobre o que tagarelam.

Os copos esvaziam. Os ecos se misturam e, mais um vez, não ouço nada. Tudo em mim é silêncio, ainda que haja um estrondo abafando meus ouvidos.

Nepente

De repente a gente sente o mundo pesar. As costas doem e pulso enfraquece ligeiramente. Os olhos morreram consumidos por aquela ilusão de brilho, de doce, de encanto. Ah, minha pequena, passamos dias de penumbra e noites em claro. Passamos do inferno, do medo, do receio, do desatino. Desfalecemos, nos afogamos em nossa inércia amedrontada. Menina, nós sobrevivemos aos assovios do mundo, às risadas frias, ao barulho ensurdecedoramente mudo do pânico do dia seguinte, do futuro que está no próximo segundo e nunca chega.

Nos levantamos sem sentir os pés tocarem ao chão. Nós morremos por dentro. De dentro. De alma. Porra, nós engolimos a essência da não-vida, do não-viver. Nos encurralamos no crepúsculo da aura. Afundamos, chafurdamos no inferno que queimou nossos sonhos. Menina, essa noite nós morremos.

Morremos pelos nossos sonhos esquecidos, pelo medo de sermos, de não sermos. Morremos por tudo que pendia em nossos pulsos, por tudo que cicatrizava ou marcava nossa pele, ou nossa alma.

Morremos.- suspiro

E, num sopro, numa ânsia de tentar e querer e, quem sabe, poder sobreviver no marasmo caótico da nossa supra essência, aspiramos ar, aspiramos fé, aspiramos vida que tolamente nos ilude e nos veste e nos disfarça de um mal-morrer eterno. Mas respiramos, ainda que sem ar. Ainda que sem vida. Ainda que sem a essência que garante o re-viver.

Porque a gente morre todos os dias. O corpo que adormece é privilégio.

A mulher sem qualidades

Andei sufocando nestes últimos tempos. Dias de asfixia por estar presa nesse meu eu confuso. Por deus, sou um corpo e alma sem qualidades. Não digo no sentido prático, digo por ser maleável demais e, por isso, sofrível.

Sim, tudo que me veste é um tecido que me fere. As dúvidas bordadas são, continuamente, espinhos densos que me perfuram a pele. Eu sangro por dentro morrendo na minha incapacidade de escolher.

Pois te digo, pequena, queria a qualquer custo não precisar decidir. Pois se as coisas vêm, ocorrem, ainda que sofridas, eu sou capaz de lidar e me situar no meio do caos sem uma grande ferida. Mas, porra, se me cabe escolher, se tenho que arcar com minha insegurança de não saber o que quero, ou não saber o que devo querer, então os passos se tornam estacas cegas perfurando meu peito.

As decisões, ainda que indecisas, não me deixam dormir, não me deixam comer. Minha balança de avaliação suplica por alguém que escolha por mim. A dor é contornável, mas o livre arbítrio é o inferno queimando os dois pesos da minha escolha.