Embebedar-me

Por dias sem fim, uma eternidade tenra, eu quis falar. Quis arrancar da minha garganta seca as palavras sufocantes de alguém que morre sem nunca ter existido.

Esquentei sete vezes o café velho esperando sua presença. Senti o amargo da bebida quente e, depois, fria. Senti a acidez de um café forte que teve tempo de amargurar a xícara esperando sua presença. Não pense que errei os sentidos. Houve uma ausência tão pereba e sórdida que tudo em mim amargurou, feneceu, desmanchou em cem fragmentos sujos. O amargor foi apenas a primeira instância de um ser que vive à margem de si mesmo.

Sou só um corpo requentado e que permanece de alma fria. Sou só um dasalmar eterno, preso nessa carne tensa. Uma não essência que persiste na inexistência de si, na ânsia por dizer o que não se pode lexicalizar. Me falta um dicionário todo para saber ordenar os sentimentos que me afogam.

Meu café amargado esfria, acidifica, entorpece a xícara branca. Mergulho meu dedo no líquido preto só para saber se sinto. Por deus, queria eu afogar-me inteira nesse emaranhado liquefeito. Habito em mim tudo que, por anos, tentei abandonar, reverter, reformar. Sobrei eu, ausente de mim, pregada no que não soube ou não pude reformar. Sobrei, sozinha comigo mesma. Sou uma ausência fodida.

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Nenhum sol me permitiu falar

A noite chega cedo do lado de fora, nas aqui dentro ela nunca se foi. Um breu constante fez moradia em mim.

Em silêncio, comeu minha voz. Em absoluta calmaria, corroeu minha existência. Fio por fio, o inebriante escurecer desfez meu bordado inacabado de mim. Não tive tempo de me ver pronta, me querer pronta.

É escuro, ainda que haja luz. Ainda que haja a porra de um holofote em minha cara, eu vago entre estar cega pela excesso ou carência de luz.

A tristeza sempre me fora uma blusa grande demais. Mangas longas que não me deixavam ver as próprias mãos. Um tecido pesado que recaia em meus Bros e me impedia de andar. Fora assim por anos e, por deus, achei que assim seria eternamente.

Há algum tempo, pareceu que finalmente o tecido se ajustara a mim. Me serviu melhor. Menos pesado, menos torto em meu corpo mirrado. Vezes desconfortável, mas sempre coerente com o mundo, que sempre nos obriga a alguma tristeza perene.

A vida é um pêndulo sentimental, em que os tecidos às vezes são inadequados ao nosso corpo frágil.

Mas eu andei servindo bem às minhas mazelas. Uma roupa que eu podia vestir.

Então tudo foi me engolindo. Parece que essa blusa, ora justa ora grande, voltou a ser imensa para minhas costas tortas. Parece que os pontos desse tricô voltaram a pesar mais do que minha alma ardida.

A tristeza caiu dos bolsos e me mordeu os pulsos. Agarrou-se em minha pele e destroçou meus dedos tortos. Minha pele fina e pálida está exposta ao frio do mundo e tudo que essa blusa fodida faz é enterrar um prego velho em cada ombro cansado. Estou sangrando por dentro e ninguém pode me ver por meu sangue escorrendo pra dentro desse tecido impermeável.

A tristeza engoliu minha existência e, de novo, sinto-me ocupando um espaço que não deveria ser meu. Nunca houvera espaço para mim – nem mesmo nessa vida que parece ser minha. E se tiro a blusa, morro de frio. Se a visto, morro engolida pelo tecido que me corrói a pele.

Pra viver um pouco mais, recosturo minhas feridas com a linha que sobrou dos dias bons.

Badalar

As horas se arrastaram nestes últimos dias. Pareciam tempos sem fim tiquetaquendo num relógio lento. O suplício de existir percorreu cada ponteiro pesado. As horas foram densas pinceladas de dor – eu puder ver minha aflição dançar entre o clique seco de cada badalar. Couberam horas sem fim nesse último minuto.

Mas a dor é uma flor despetalada que cai, rápida e intransigente, ao chão frio e duro. Meus mil espinhos ferem a mim mesma e eu morro antes de atingir o chão.

Agora, os dias são longos e caóticos. O medo fragmenta meu peito insonsos e resta em mim pouco mais do que a vontade de existir escorada num canto cheio de ecos. Cheio de nada.

Olhar esse reflexo sujo de meu corpo fodido me faz rebuliços na calmaria que nunca veio. Por deus, e como chegar uma hora antes em um compromisso que não é meu. É como morrer antes do fim, quando se nasceu apenas para ver o desfecho.

Sinto-me, agora, feito um resquício insonso de mim mesma. Sou tudo que não marcou hora.

O ponto da paz não se escreve depois do fim

Em meio meu caos derradeiro, em meio à fria estadia da alma minha, encontro o timbre oco do estar presente.

Às noites são sempre anoiteceres insonsos, escureceres inebriantes de uma amálgama que entristece meus olhos torpes. Minha escrita não faz sentido, pois as bebidas me amorteceram a ponta dos dedos. Minhas canetas borram a letra turva e meu peito se dilacera antes do ponto final.

Hoje encontrei meu caderno velho de textos tórridos. Há mais sentimentos destroçados em casa página manchada do que haveria em cem corpos mal amados dessa humanidade fodida.

Por deus, cada linha respinga um mal cuidar d’alma. São gotículas de álcool e café, brasas de cigarro e lágrimas marcando as folhas já amareladas desse corpo que sentiu até o último fôlego sôfrego de um morrer de amor – ainda que nunca se morra, nunca se desfaleça, ainda que depois de todo o fim haja a incapacidade de inexistir.

Página após página, em minhas insoses escritas por sobrevivência, eu morri em mil pedaços incoláveis, em um sem fim de estilhaços. Mas morrer não é o fim – por deus, nunca o é. Morre-se uma centena de vezes até dar-se conta que a crueza da vida nos tira o privilégio da paz.

Há muito venho escrevendo sobre a agonia de sentir a alma doer mesmo após toda a vivência foi exaurida. Há dores que persistem intrínsecas ao corpo. Há corpos que vagam, desalmados, mais repletos dessas terminações nervosas que a medicina aponta ser nosso foco de dor.

Eu nego. Porra, meu corpo doeu dias eternos e noites sem fim. Meu corpo sobreviveu à morte da alma, à falta de ar, à miséria da vida que me roubou de mim. Meu corpo, com seus receptores de dor, custou a doer mais do que o inferno que ardia por dentro. E é mera enganação achar que era minha alma em sofrimento. Minha dor ocupava o espaço vago da essência estilhaçada.

Não houve um só dia de paz. De amenidades. Não houve maresia quando a alma vibrava, quando o primeiro cigarro queimou a ponta de minha essência. Não houve paz sequer quando achei que o fim chegou.

Ninguém resiste à morte de si – seja corpo, alma ou vísceras. Ainda que ninguém veja o cadáver em decomposição. Ainda que ninguém veja a chama trêmula que reverbera em seu peito feito uma estaca cega perfurando-lhe o centro do peito. Ainda que ninguém a veja viva. Ainda que.

Nunca morrer é o que mais destroça a paz de um corpo que fenece.