Re(trato)

A ponta de meus dedos dói. Acho que seguro a caneta mais forte do que deveria. Escrever é um modo sempre árduo de fazer externo o que consome a alma.

Escrevo-me feito um retrato. Uma forma meio torta de esboçar essa alma um tanto suja que já não diz mais nada. Um re-trato. Me bordo infinitas vezes e nenhuma chega perto do que almejei ser. Não posso ou não sei ser o que desejei. Por deus, que inabilidade minha em existir, pois se posso ser, não o sou.

Um retrato escrito para ver se me tinjo de uma cor mais tênue, mais neutra, mais afim. Não há retrato que capture minha insana inexistência de mim. Nem sequer a câmera é capaz de me registrar. Por isso escrevo. Assim, quem sabe, posso tentar um outro trato de mim, da parte que não sou e não sei ser. Mas me retrato comigo mesma, fingindo poder aceitar esse escárnio de ser tão somente isso que finjo ser e não sou. Finjo crer, ver e ir, mas nunca vou. Um retrato para minha alma cansada: me desculpe pela falta de trato.

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Aqui de cima tudo é silêncio

Vejo seus olhos dispersos e a angústia me corrói a alma. Acho que a gente morre três vezes antes do fim e nem se dá conta. Eu morri.

Por deus, menina. Eu morri três dias e três noites inteiras. Depois me levantei e fui trabalhar. Nada que um café amargo e um cigarro forte não sejam capazes de resolver a agonia dos dias fúnebres.

Depois, escrevi melodia, poesia, li romance, ouvi Bach, troquei de roupa, parei de fumar, fui correr, pensei em suicídio, odiei essa vida hipócrita e fodida, amei-te incondicionalmente, apaguei as luzes. Depois, acordei fodida, com asco da vida, dessa rotina insonsa, amargurada com minhas conquistas mirradas de alguém que fenece na própria existência de não existir.

Chorei sentada na beirada da sua janela e pensei em jogar-me, atirar-me leve de corpo e pesada de alma desse andar mais alto do que posso saber contar. Fumei um cigarro até que a brasa ardente me queimasse os dedos. Minha pele não faz a alma arder. Bebi café gelado para que minha essência acordasse, mas lá embaixo as pessoas ziguezagueiam e não me dão sossego. Daqui de cima, finjo queimar cada uma com a ponta acesa de meu cigarro barato. Queria acender meu coração feito essa brasa que queima vívida quando aspiro mil venenos doces.

Adormeço e morro uma centena de vezes. Culpo-me, choro, debruço-me em minha torpe e fútil permanência em mim. Depois acordo feito uma resignada alma suja. Decido correr, comer salada, ouvir mantra, alongar- me 2 vezes ao dia. Afasto pensamentos ruins, alinho os cháckras, durmo cedo e jogo no lixo esse cigarro amargo. Depois, passo duas semanas ou mais inerte na existência inventada, neurótica com a saúde, sedenta pelo editorial do dia. Depois, sou parte da parte que queimei com a brasa da minha alma.

Eu morri em todas as camadas, mas só descansa quem teve sorte. Viver me exige uma encenação fodida e uma carteira nova.

O abismo alheio

Sento-me neste sofá meio duro, meio velho, meio desbotado. Observo, em silêncio, o tiquetaquear insonso do relógio e nenhuma hora que chega me assossega a alma.

Por deus, eu queria a paz de quem passa sorrindo em meio às multidões. Ainda que haja um inferno nestes corpos caminhantes, parece que seus abismos são tão mais rasos do que o meu.

Quanto egoísmo. Sou um corpo desalmado morrendo em angústias. Já não sei mais sentir.

Sempre que olho as almas todas me pergunto as artimanhas do viver a vida. Não quero que pense que sou uma curiosa com a vida alheia, mas tenho uma ânsia em saber como sobreviver nesse marasmo. Eu morri há tanto tempo que me custa crer que tanta gente sobreviver com facilidade nesse inferno tenro.

Gosto destas histórias irremediáveis, dessas almas vivas que de fato vivem. Que largam os empregos, os amores, os pratos intocados. Quase invejo almas que se deixam levar quando a vontade surge, quando o tédio aparece, quando o vento sopra e se ouve “vai”.

Eu me afundo no sofá. Até o último respingo de comida neste mesmo prato que almoço todo dia. Eu me afundo no sofá quando o caos me consome, mas não me obriga a mudar. Eu me afundo, cada vez mais fundo, nesse sofá quando quero ir e o medo me pesa o pulso. Querer me faz desistir tão mais rápido que me sinto acostumada à dor. Como alguém que cai em seu abismo e nunca chega ao chão, numa queda tão prolongada que o medo assossegou.

Sou o abismo de mim mesma. Não arisco minhas idas e não me conformo com minhas estadias. Feneço na minha existência e ninguém me contou o segredo de existir antes de sentir-me morta.