Re(trato)

A ponta de meus dedos dói. Acho que seguro a caneta mais forte do que deveria. Escrever é um modo sempre árduo de fazer externo o que consome a alma.

Escrevo-me feito um retrato. Uma forma meio torta de esboçar essa alma um tanto suja que já não diz mais nada. Um re-trato. Me bordo infinitas vezes e nenhuma chega perto do que almejei ser. Não posso ou não sei ser o que desejei. Por deus, que inabilidade minha em existir, pois se posso ser, não o sou.

Um retrato escrito para ver se me tinjo de uma cor mais tênue, mais neutra, mais afim. Não há retrato que capture minha insana inexistência de mim. Nem sequer a câmera é capaz de me registrar. Por isso escrevo. Assim, quem sabe, posso tentar um outro trato de mim, da parte que não sou e não sei ser. Mas me retrato comigo mesma, fingindo poder aceitar esse escárnio de ser tão somente isso que finjo ser e não sou. Finjo crer, ver e ir, mas nunca vou. Um retrato para minha alma cansada: me desculpe pela falta de trato.

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