Conta-gotas

Mando outra carta sem remetente. Há tempos perdi seu endereço. Mas as folhas rabiscadas ainda se acumulam na mesa, na gaveta, na alma minha.

Escrevo um sem fim de cartas numa ânsia de contar-te sobre os dias longos e minha angústia de viver. Por deus, nunca fui boa em ter bons sentimentos. Quando os tive, você partiu levando minha paz amassada dentro da uma caixa que ainda me parece pequena demais.

Você me foi um tempo bom, um dia claro, um riso que ecoou mais vezes do que ousei imaginar. Depois houve silêncio.

Mentira. Antes houvera um estilhaçar ensurdecedor. Houvera um armário de copos caindo ao chão. Um eu frágil sendo repartido em incontáveis fragmentos de mim.

Então veio o silêncio. Um maldito repetir insonso de uma falsa paz. Porra, era tudo menos paz. Era caos, asfixia, incapacidade de sugar o ar para dentro de mim. Era uma boca aberta e sôfrega passando na tela da TV muda. Silêncios consomem a alma.

Em alguma destas cartas eu te contei sobre o dia que tive voz. Mas de certo você não a leu. Pergunto-me se andou notando o silêncio. Digo, será que assim como uma carta, você recebera os emudeceres? E, caso os tenha recebido, os interpretou? Soube quem silenciou a rua? Desconfiou que fui eu? Desconfiou que morri calada, fenecendo nas mal ditas palavras ardidas? E se te conto que essas mesmas palavras não ditas me queimaram a garganta? Pois te digo que me fizeram cuspir sangue antes de quase me perfurarem a garganta. Desisti.

Por isso as escrevo. Agora, essas insanas e lúgubres palavras não ditas ardem meu estômago, queimam minha alma, incendeiam meus ossos, ainda que não possam me matar. Escrevo porque assim, e tão somente assim, elas não percebem que são duplicadas no mundo fora de mim. Por deus, se ouso-me à pronúncia, elas entram em reboliço e me ferem a existência. Deixo-as quietas, fingindo que há uma vizinhança cômoda entre nós.

E como um recurso de esvaziar-me a conta-gotas Aos poucos, transfiro ao papel tudo que é efervescente em mim, sem morrer, sem me salvar, prolongo o que não me mata e não me deixa viver.

Busca tuas cartas. Tenho tanto a te contar.

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