Aos dias de morrer em vida

Houve um tempo, que agora parece estranhamente distante, que os dias eram de uma penumbra sufocante. Um cinza aflitivo, um silêncio lamurioso.

Hoje, depois de meses quase bons, recai nesse breu insonso de um tarde solitária. Por deus, como os lugares adoecem nossa alma mesmo depois de medicada.

Em meio ao silêncio, ao incômodo vazio dos dias frios e abandonados, em meio às faces de amor e afeto e bem-querer que jorram nas datas festivas, deparei-me com a angústia alheia. Li poucas linhas com a apreensão de quem não sabe como reagir, mas agradece o soco no estômago.

Procurei entre as centenas de cartas que já escrevi, revirei montes de papel, mas não achei aquele que confessei, pela primeira e última vez, a dor que me cercou por um sem fim de vidas. Procurei as linhas que pude, enfim, detestar tudo que você me fora antes mesmo de eu entender sobre o que você é. Por deus, se houver pecado terreno, achava eu, seria tudo aquilo que te confessei. Mas hoje, finalmente, li algo tão sórdido quanto minha caligrafia foi naquele papel branco.

O peso da tinta borrada ainda é capaz de ferir-me os dedos. Morro a cada reviver de palavras, pois meu afeto por ti sucumbiu em meio ao caos que me habita e te habita e nos rodeia. Meu existir morreu uma centena de vezes antes de eu saber que sua presença era minha mais tenra zona de confronto. Continuei morrendo em dias cinzas pela incapacidade de resistir, de existir longe de você, longe de mim.

Por deus, não sei eximir-te da culpa, mas não sei culpá-la também. Abraço-me nesse sentimento e deixo as estacas cegas durarem meu peito. Essa dor é sempre ínfima se comparada à do meu existir.

Mas se não te culpo, carrego sempre a incapacidade de largar o sofrimento. Deixo-o comer minha carne até não ter forças para respirar. Meu arfar denuncia minha quase morte, feito esse dia que escurece sem nunca, de fato, acabar.

Mas a culpa é minha também. Só eu sei o quão minha, o quão detentora dessa responsabilidade eu sou. Por mais que tente, e como eu tentei, largar o peso de ser exatamente o que sou em relação a você, não pude. Fugi cada vez pra mais fundo de mim e me deixei isolar. Morri em mim e continuei inteira.

Mas olhe que besteira. Ninguém entende as linhas que escrevo porque ainda sou incapaz de ser clara. Hoje, só hoje, li algo que me atravessou a alma feito o afeto que não te tenho.

Lembro-me que naquela carta meio suja eu disse que só posso deitar e chorar em silêncio encoberta por tuas.lagrimas barulhentas. Cada uma, ainda hoje, me soa feito pedra afundando no chão. Tudo que posso é manter-me longe para não ver a tristeza da vida te pesar. Tudo que posso é emudecer pois não sei dizer mais nada. Tudo que posso, se é que posso, é viver longe para afastar de mim todo o abismo que nos cerca.

Mas quando os dias ficam com esse aspecto sujo de uma memória que me abre as feridas todas, lembro-me que estar ausente também me mata. Puxa de mim um fio de vida que, apesar de fino, desmancha-me aos poucos, sem nunca cessar.

Deito em silêncio por cima do ácido do caos. Vou fenecendo enquanto você estilhaça o que sobrou de mim. Ainda assim, a vida cruel como é, torna-me presa aos seus contextos.

Queria dizer que não sobrou muito em mim, além da certeza que sou incapaz de te pronunciar afeto, ainda que longe de ti ele pareça existir.

Queria dizer que não sobrou muito de mim, somente um medo insano de ser o que sou. Mais medo ainda tenha de ser o que tu me és. Sou um abismo amedrontado.

Queria agradecer, mas em mim há apenas memórias de um período que eu eu era vazia. Como algo absolutamente ferido e apodrecido por dentro.

Por fim, queria odiar-te em tempo integral, apenas para não morrer por essa mancha de afeto que persiste em meu chão. Pode ser só um café derramado ou uma poça de lágrimas de algum dia ruim. Mas parece que eu me firo com sua existência e não sei o que fazer para esconder meu sangue quando você pergunta se estou bem.

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