Uma xícara vazia

Enquanto a colher afunda e causa um redemoinho em meu café um tanto frio, lembro-me do caos que há em meu peito. Agora sossegado pelo silêncio que envolve meu corpo, há pouco meu coração se estilhaçava num sem fim de pedaços por não saber o que fazer.

Ah, que besteira. Pareço um filme juvenil sem um bom enredo. Meu coração bate acelerado, causa-me angústias incontáveis. Meu eu derrete em cada decisão que me obrigo a tomar. Sou um emaranhado de não saber o rumo certo.

Mas te digo, entre cada folha amassada de meu caderno, entre cada carta não entregue, entre cada jantar não servido, que tu me és a flor mais árdua de ser regada.

Não quero que meu timbre soe assustado ou conflitante. Disso, já basta minha perene existência. Mas assim como qualquer ação me desassossega, assim como viver me causa náuseas incontroláveis, sua presença me acalma e me asfixia. Sua estadia me faz querer teu corpo meio uma blusa pesada e como um lenço esquecido ao pé da cama. Seu afeto me dá calor e acelera minha aflição de ser algo mais.

Sua face pálida é uma flor que, pétala por pétala, cantarola o melhor e o pior de mim. E por não saber ou não poder ser tudo que acho justo a ti, morro de desencantos de mim.

Vou morrendo soterrada pelas pétalas de teu bem-me-quer. Pois te digo, sei lidar com a rejeição, sei suportar o peso árduo que não ser nada além de alguém vagando por aí. Mas ocupar o espaço de alguém que é um corpo e alma amados e amáveis e dignos de receber amor, por deus, me soa inconquistável. Sou alguém que tece vem pontos de afeto e me desmanchou antes do nó. Morro por ser sempre um bordado torto demais para seu tecido fino. Isso, por fim, mata-me. Joga-me desenrolada de meus fios, expõe-me nua em frente a mim mesma. Obrigada a olhar-me de frente, repudio tudo que sou a ti pois não sei se posso ser tudo o que creio dever ser.

Sou um tecido cômodo pelas traças. Sou um ceda furada pelo desacreditar nisso tudo, nesses olhos todos, nesses toques todos. Mas não ache que suspeito de seus afetos ou palavras doces. Sou só alguém que sentiu o café esfriar repetidas vezes antes de alguém permitir-me beber. Fui só alguém que tem um medo fodido de não saber mais existir depois que teus cafés não me forem servidos mais, sou só alguém que teme deixar esse café doce e quente derramar a xícara e escorrer ao chão.

Por um sem fim de vezes levantei da mesa antes da hora. Antes da chuva. Antes do dia anoitecer. Um cem fim de vezes engoli em seco. Assoprei as velas. Apaguei as luzes. Incontáveis vezes eu me obriguei a ouvir o silêncio de vinha de fora e de dentro. Obriguei a vestir a malha gelada de alguém que não sabe existir, que não sabe murmurar. Acabou o café mais vezes do que pude contar e minha xícara vazia pairou em minha frente enquanto eu fingia beber alguma coisa que não existia. Não estava ali. Porra, eu nunca estive sentada à mesa.

Agora, sua chaleira chia estrondosa. Agora sua presença me cobra uma reinvenção de mim. Sou um silêncio inventado. Sou uma xícara quebrada que se esforça para manter seu café quente.

Mas te peço tempo para saber existir em meio ao caos que, as vezes, emerge de meu peito aflito. Peço o silêncio de alguém que me aninhou sem precisar entender sobre as estruturas internas que desmoronam de tempos em tempos. Te faço um café se souber ficar em meio às mesas viradas.

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