Meu silêncio são meus olhos sobre o afeto

Olho de longe seus corpos franzinos e almas rompantes. Toda essa gente parece guardar no fundo do bolso uma certeza que me escapa. Um saber para onde ir que nunca me foi revelado.

Olho essa gente tão perdida quanto eu, mas tão confortável em seus rumos tortos que me pergunto se deixei algo escapar, se ensurdeci em algum comunicado urgente, se pisquei demoradamente e não vi o que deveria fazer.

Mas é tudo uma besteira sem fim. Então afundo na minha poltrona marrom manchada e acendo mais um cigarro. Ou dois. O fogo quase apaga com o vento fraco e eu quase te perco de vista. Trago mais fundo para ver se te aspiro junto. Mas o vento sopra suave e só posso ouvir a brasa estalar suave, transformando, aos poucos, esse cigarro em uma única ponta acesa. Se eu pudesse, arderia à temperatura dessa ponta antes de cair feito cinza.

Ao longe, toda a gente parece compartilhar este segredo torpe que me escapa. Por deus, nunca soube muito bem o que querer. E se quero, não sei o que fazer. Como um ciclo incapaz de romper-se, sou um corpo a esmo, beirando afundar no canto da vida.

De longe, admiro cem corpos trafegando tontos. Seus passos rotos me ecoam risos, mas eu não rio. Restaram-me apenas suplícios risonhos e medo da solidão. Agora, sinto uma alma triste sentada em meus ombros. Acendo mais um cigarro enquanto aqueles corpos mirrados e seus cabelos curiosos bebem, e riem, e falam, e amam e piscam rápido demais.

Olho para os lados e, agora, o sofá marrom manchado parece grande demais para minha solidão. Encosto a brasa quente no braço frio desse móvel velho. Furo-o para ver se alguma coisa acontece, mas ninguém parece notar que estou afundando para dentro de mim. Trago mais uma vez e deixo a ponta acesa queimar-me os dedos. Sinto que alguém me olha, mas acho que feneci há tempos e ninguém ousaria puxar-me de volta. Meu cigarro amargo não alivia o gosto ácido de sua ausência, então enfio a mão nos bolsos para ver se há lembranças suas. Mas não há nenhuma memória ou segredo ou amor ou.

Levanto-me e parto sem rumo. Se eu chegar em casa, juro, deixo as portas abertas. É preciso buscar um sopro de vida em cada janela trincada, em cada copo vazio esquecido sobre a mesa. É preciso sujar as toalhas e acordar antes do sol. De tempos em tempos, é preciso abrir as gavetas e polir o amor. É preciso segurar o afeto sabendo que ele é o segredo que ninguém ousou pronunciar num timbre mais alto.

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Um tecido bordado rente ao chão

A cortina balança receosa feito os olhos tímidos de quem não quer ser notado em meio à multidão. Por entre uma fresta quase imperceptível o vento sopra forte, entrando neste quarto escuro e frio.

Sou feito esse tecido denso que, incólume, deixa-se mover ainda que muito pouco, só para saber que algo ainda pode tocar.

Meus vendavais varrem meu chão sujo e escondem de mim todo o ardor que cai de meus ombros e pulsos. Se eu pudesse saber de todos os meus pedaços perdidos, juro, tomaria consciência de que há muito mais de mim perdendo-se entre meus pés tortos. Se eu pudesse sentir o que se perde desse meu sujo e torpe eu, quem sabe, poderia me ver muito mais inteira ainda que perdida de mim.

Mas sou essa cortina pesada que, com esforço, move-se. Ou, quem sabe, sou exatamente o oposto, pois, com esforço, resiste ao movimento. Sou um tecido abarrotado de bordados desconexos e poucas frestas têm podido fazer-me sentir.

Mas agora ouço o vento forte do lado de fora, vejo a noite abraçar-me com a sordidez de quem se despede sem avisar que não volta nunca mais. Sou alguém sem alma sentada na beira de si mesma, derrubando a paz que, há tempos, afundou em meus bolsos. Sou alguém que deixou os cigarros caírem ao chão, inteiros e acesos, pois a brasa quente pareceu queimar a pele. Sou um par de olhos cansados que acompanham o sutil movimento lento das cortinas, porque ainda que a angústia de desejar um vendaval seja um laço apertado em minha garganta, do lado de fora o ar é intragável para que eu abra um pouco mais essa janela.