Casa

Hoje eu não volto. Juro pra você que depois que eu passar esta porta entreaberta, não volto mais. Deixo minhas roupas todas, meus lenços e meus anseios. Não levo nada porque não vou saber abandonar está casa se ela ainda habitar-me.

Mas juro, não volto. Depois desse café, que agora é frio e amargo, eu vou sem olhar pra trás. A roupa do corpo me aquece e meu peito frio já não carrega ardor ou esperança. Mas não volto.

Por isso, não te olho agora. Nem depois olharei. Pois não retorno para essa casa que tem nas paredes o bordado de minha alma. Não volto mais para esta cama que repousou minhas lágrimas e minha fúria. Nem para esta sala um tanto vaga, um tanto oca. Mentira, ocupo-a tanto que nenhum móvel faz-se necessário. Sou uma imensidão capaz de perder-me em seus fios de cabelo. Por deus, não volto.

Na cozinha há memórias suas. Há palavras não ouvidas, olhares não cruzados, vinhos não bebidos. No quarto, há noites não dormidas pela sua inexistência lado meu. Na cama, há lençóis que ouviram um sem fim de lamúrias de alguém que mal se cobriu ao anoitecer.

Por isso, não volto. Depois do café da tarde. Depois que eu ouvir sua última resposta sobre a bebida fria, não volto. Talvez depois, quando disser-me que seus dedos longos doem.

Ou amanhã. Depois que eu fizer as malas, pois talvez tenha frio longe de ti. Penso, quem sabe, que venho só mais amanhã para olhar uma última vez para ti e para mim, como um nós. Venho, sim, venho apenas mais uma vez, para aquecer a água. Para juntar as roupas largadas, para limpar o amor que derramou no quarto ao lado.

Mas depois não volto. Só para que não haja dúvida de que preciso ir. Essa minha insensatez almeja um acalanto que não tenho aqui. Um vestido denso que me vista da cabeça ao pés de afeto. Almejo um olhar doce e somente minha alma insonsa parece ter sabor nesse eco de afeto. Mas não volto, mesmo que haja porta aberta e bebidas doces. Mesmo que seja olhos me ofereçam paz e que seu corpo seja meu convite de afeto, não volto.

Juro, depois que eu passar a porta, não volto. Mas até lá, aqueço meus dedos entre seu cabelo emaranhado. E não volto.

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Uma xícara vazia

Enquanto a colher afunda e causa um redemoinho em meu café um tanto frio, lembro-me do caos que há em meu peito. Agora sossegado pelo silêncio que envolve meu corpo, há pouco meu coração se estilhaçava num sem fim de pedaços por não saber o que fazer.

Ah, que besteira. Pareço um filme juvenil sem um bom enredo. Meu coração bate acelerado, causa-me angústias incontáveis. Meu eu derrete em cada decisão que me obrigo a tomar. Sou um emaranhado de não saber o rumo certo.

Mas te digo, entre cada folha amassada de meu caderno, entre cada carta não entregue, entre cada jantar não servido, que tu me és a flor mais árdua de ser regada.

Não quero que meu timbre soe assustado ou conflitante. Disso, já basta minha perene existência. Mas assim como qualquer ação me desassossega, assim como viver me causa náuseas incontroláveis, sua presença me acalma e me asfixia. Sua estadia me faz querer teu corpo meio uma blusa pesada e como um lenço esquecido ao pé da cama. Seu afeto me dá calor e acelera minha aflição de ser algo mais.

Sua face pálida é uma flor que, pétala por pétala, cantarola o melhor e o pior de mim. E por não saber ou não poder ser tudo que acho justo a ti, morro de desencantos de mim.

Vou morrendo soterrada pelas pétalas de teu bem-me-quer. Pois te digo, sei lidar com a rejeição, sei suportar o peso árduo que não ser nada além de alguém vagando por aí. Mas ocupar o espaço de alguém que é um corpo e alma amados e amáveis e dignos de receber amor, por deus, me soa inconquistável. Sou alguém que tece vem pontos de afeto e me desmanchou antes do nó. Morro por ser sempre um bordado torto demais para seu tecido fino. Isso, por fim, mata-me. Joga-me desenrolada de meus fios, expõe-me nua em frente a mim mesma. Obrigada a olhar-me de frente, repudio tudo que sou a ti pois não sei se posso ser tudo o que creio dever ser.

Sou um tecido cômodo pelas traças. Sou um ceda furada pelo desacreditar nisso tudo, nesses olhos todos, nesses toques todos. Mas não ache que suspeito de seus afetos ou palavras doces. Sou só alguém que sentiu o café esfriar repetidas vezes antes de alguém permitir-me beber. Fui só alguém que tem um medo fodido de não saber mais existir depois que teus cafés não me forem servidos mais, sou só alguém que teme deixar esse café doce e quente derramar a xícara e escorrer ao chão.

Por um sem fim de vezes levantei da mesa antes da hora. Antes da chuva. Antes do dia anoitecer. Um cem fim de vezes engoli em seco. Assoprei as velas. Apaguei as luzes. Incontáveis vezes eu me obriguei a ouvir o silêncio de vinha de fora e de dentro. Obriguei a vestir a malha gelada de alguém que não sabe existir, que não sabe murmurar. Acabou o café mais vezes do que pude contar e minha xícara vazia pairou em minha frente enquanto eu fingia beber alguma coisa que não existia. Não estava ali. Porra, eu nunca estive sentada à mesa.

Agora, sua chaleira chia estrondosa. Agora sua presença me cobra uma reinvenção de mim. Sou um silêncio inventado. Sou uma xícara quebrada que se esforça para manter seu café quente.

Mas te peço tempo para saber existir em meio ao caos que, as vezes, emerge de meu peito aflito. Peço o silêncio de alguém que me aninhou sem precisar entender sobre as estruturas internas que desmoronam de tempos em tempos. Te faço um café se souber ficar em meio às mesas viradas.

Hoje

Estou recostada numa parede gigante e atrás de mim há um letreiro que reverbera meu vazio. Há mais ladrilhos nesse saguão do que esperança em minha alma.

Hoje seria um dia trivial. Nenhum peso árduo, nenhuma alegria eufórica. Hoje seria hoje e nada mais.

Mas em meio às bagunças da vida, em meio à pilha de cartas que se esparramou na mesa, aquela que te escrevi há meses se exaltou aos olhos meus.

Há cerca de 3 anos meu viver era uma única penumbra esmiuçante. Eu era um bloco denso de mim mesma e sua existência bastava para ferir-me. Ainda é, porém, de um modo estranhamente vivenciável.

Por deus, não sei dizer se a dor é a mesma, mas sinto meu peito estilhaçar a cada arfar meu. Sua voz me fere o tímpano e tenho um súbito retorno àqueles dias de um inferno sobressalente.

Há alguns meses a vida tem sido menos algoz.

Mentira. Tudo ainda me é um caos dançante. Um ritmo que não sou capaz de entender. Um passo que meu corpo não pode sequer sonhar em reproduzir.

Mas parece que a ausência de mim me trouxe pra mais perto. Porra, como explicar que precisei deixar matar toda minha ânsia de viver e sentir para, insanamente, sentir mais? Como explico, em meio ao café quase frio, que quis tanto sentir menos vazio, ser menos um eco sem fim, para poder ser algo mais?

Faz sentido? Faz sentido dizer que precisei ocupar- me todos os segundos, à exaustão da mente e do corpo, para que você não coubesse mais em mim? Somente assim eu poderia ser um vazio calmo. Um vazio, ainda que meio morto, menos sofrido.

Deus, só eu sei como sua imagem diária me feriu a paz. Repeti um sem fim de vezes a incerteza de temer a sua dor e, sentindo-a, quis saber fazer parar. E quando tu choras, em mim se abre o abismo que me consome. Ainda que o desafeto me atravesse feito uma estaca cega. Ainda que sua presença me divida a alma rasgando o corpo. Ainda assim, não sou capaz de fugir pra longe, nem que eu feche os olhos e corra sem direção. Você me é um sombra na parede que não sei identificar o objeto.

Tudo me é um fenecer dolorido. Morro por não saber abandonar-te e por ser incapaz de dar-te afeto. Meu egoísmo me dilacera. Mas o muro denso entre nós me impede de chegar um pouco mais perto, então para minha alma pesar menos, eu te olho do vão da porta e não sei me aproximar. Respiro baixo, em meio ao meu morrer, só para não fazer-te doer mais.

Se eu acreditasse em deus, pediria para que ele tirasse a dor que te arde o peito. Mas eu não acredito. Dia desses, desejei poder eu mesma curar-te, remover com minhas mãos tortas e frágeis a dor que te impede o riso. Talvez curando a ti eu pudesse me libertar também.

Hoje não soube agradecer. Acho que sou incapaz de dizer qualquer coisa, mesmo quando sua existência distante não me fere a alma. Ainda que eu carregue o ardor de sentir-me responsável pela sua lágrima, não sei dizer nada que te traga paz. Minha voz também me soa como o inferno que nunca me consome. Prefiro o silêncio.

Não acredito no céu, mas acho que você o merece. Isso é o melhor que posso fazer: esperar que a paz te tome nos braços, como eu nunca fora capaz de fazer ou sentir.

 

Aos dias de morrer em vida

Houve um tempo, que agora parece estranhamente distante, que os dias eram de uma penumbra sufocante. Um cinza aflitivo, um silêncio lamurioso.

Hoje, depois de meses quase bons, recai nesse breu insonso de um tarde solitária. Por deus, como os lugares adoecem nossa alma mesmo depois de medicada.

Em meio ao silêncio, ao incômodo vazio dos dias frios e abandonados, em meio às faces de amor e afeto e bem-querer que jorram nas datas festivas, deparei-me com a angústia alheia. Li poucas linhas com a apreensão de quem não sabe como reagir, mas agradece o soco no estômago.

Procurei entre as centenas de cartas que já escrevi, revirei montes de papel, mas não achei aquele que confessei, pela primeira e última vez, a dor que me cercou por um sem fim de vidas. Procurei as linhas que pude, enfim, detestar tudo que você me fora antes mesmo de eu entender sobre o que você é. Por deus, se houver pecado terreno, achava eu, seria tudo aquilo que te confessei. Mas hoje, finalmente, li algo tão sórdido quanto minha caligrafia foi naquele papel branco.

O peso da tinta borrada ainda é capaz de ferir-me os dedos. Morro a cada reviver de palavras, pois meu afeto por ti sucumbiu em meio ao caos que me habita e te habita e nos rodeia. Meu existir morreu uma centena de vezes antes de eu saber que sua presença era minha mais tenra zona de confronto. Continuei morrendo em dias cinzas pela incapacidade de resistir, de existir longe de você, longe de mim.

Por deus, não sei eximir-te da culpa, mas não sei culpá-la também. Abraço-me nesse sentimento e deixo as estacas cegas durarem meu peito. Essa dor é sempre ínfima se comparada à do meu existir.

Mas se não te culpo, carrego sempre a incapacidade de largar o sofrimento. Deixo-o comer minha carne até não ter forças para respirar. Meu arfar denuncia minha quase morte, feito esse dia que escurece sem nunca, de fato, acabar.

Mas a culpa é minha também. Só eu sei o quão minha, o quão detentora dessa responsabilidade eu sou. Por mais que tente, e como eu tentei, largar o peso de ser exatamente o que sou em relação a você, não pude. Fugi cada vez pra mais fundo de mim e me deixei isolar. Morri em mim e continuei inteira.

Mas olhe que besteira. Ninguém entende as linhas que escrevo porque ainda sou incapaz de ser clara. Hoje, só hoje, li algo que me atravessou a alma feito o afeto que não te tenho.

Lembro-me que naquela carta meio suja eu disse que só posso deitar e chorar em silêncio encoberta por tuas.lagrimas barulhentas. Cada uma, ainda hoje, me soa feito pedra afundando no chão. Tudo que posso é manter-me longe para não ver a tristeza da vida te pesar. Tudo que posso é emudecer pois não sei dizer mais nada. Tudo que posso, se é que posso, é viver longe para afastar de mim todo o abismo que nos cerca.

Mas quando os dias ficam com esse aspecto sujo de uma memória que me abre as feridas todas, lembro-me que estar ausente também me mata. Puxa de mim um fio de vida que, apesar de fino, desmancha-me aos poucos, sem nunca cessar.

Deito em silêncio por cima do ácido do caos. Vou fenecendo enquanto você estilhaça o que sobrou de mim. Ainda assim, a vida cruel como é, torna-me presa aos seus contextos.

Queria dizer que não sobrou muito em mim, além da certeza que sou incapaz de te pronunciar afeto, ainda que longe de ti ele pareça existir.

Queria dizer que não sobrou muito de mim, somente um medo insano de ser o que sou. Mais medo ainda tenha de ser o que tu me és. Sou um abismo amedrontado.

Queria agradecer, mas em mim há apenas memórias de um período que eu eu era vazia. Como algo absolutamente ferido e apodrecido por dentro.

Por fim, queria odiar-te em tempo integral, apenas para não morrer por essa mancha de afeto que persiste em meu chão. Pode ser só um café derramado ou uma poça de lágrimas de algum dia ruim. Mas parece que eu me firo com sua existência e não sei o que fazer para esconder meu sangue quando você pergunta se estou bem.

Conta-gotas

Mando outra carta sem remetente. Há tempos perdi seu endereço. Mas as folhas rabiscadas ainda se acumulam na mesa, na gaveta, na alma minha.

Escrevo um sem fim de cartas numa ânsia de contar-te sobre os dias longos e minha angústia de viver. Por deus, nunca fui boa em ter bons sentimentos. Quando os tive, você partiu levando minha paz amassada dentro da uma caixa que ainda me parece pequena demais.

Você me foi um tempo bom, um dia claro, um riso que ecoou mais vezes do que ousei imaginar. Depois houve silêncio.

Mentira. Antes houvera um estilhaçar ensurdecedor. Houvera um armário de copos caindo ao chão. Um eu frágil sendo repartido em incontáveis fragmentos de mim.

Então veio o silêncio. Um maldito repetir insonso de uma falsa paz. Porra, era tudo menos paz. Era caos, asfixia, incapacidade de sugar o ar para dentro de mim. Era uma boca aberta e sôfrega passando na tela da TV muda. Silêncios consomem a alma.

Em alguma destas cartas eu te contei sobre o dia que tive voz. Mas de certo você não a leu. Pergunto-me se andou notando o silêncio. Digo, será que assim como uma carta, você recebera os emudeceres? E, caso os tenha recebido, os interpretou? Soube quem silenciou a rua? Desconfiou que fui eu? Desconfiou que morri calada, fenecendo nas mal ditas palavras ardidas? E se te conto que essas mesmas palavras não ditas me queimaram a garganta? Pois te digo que me fizeram cuspir sangue antes de quase me perfurarem a garganta. Desisti.

Por isso as escrevo. Agora, essas insanas e lúgubres palavras não ditas ardem meu estômago, queimam minha alma, incendeiam meus ossos, ainda que não possam me matar. Escrevo porque assim, e tão somente assim, elas não percebem que são duplicadas no mundo fora de mim. Por deus, se ouso-me à pronúncia, elas entram em reboliço e me ferem a existência. Deixo-as quietas, fingindo que há uma vizinhança cômoda entre nós.

E como um recurso de esvaziar-me a conta-gotas Aos poucos, transfiro ao papel tudo que é efervescente em mim, sem morrer, sem me salvar, prolongo o que não me mata e não me deixa viver.

Busca tuas cartas. Tenho tanto a te contar.

Re(trato)

A ponta de meus dedos dói. Acho que seguro a caneta mais forte do que deveria. Escrever é um modo sempre árduo de fazer externo o que consome a alma.

Escrevo-me feito um retrato. Uma forma meio torta de esboçar essa alma um tanto suja que já não diz mais nada. Um re-trato. Me bordo infinitas vezes e nenhuma chega perto do que almejei ser. Não posso ou não sei ser o que desejei. Por deus, que inabilidade minha em existir, pois se posso ser, não o sou.

Um retrato escrito para ver se me tinjo de uma cor mais tênue, mais neutra, mais afim. Não há retrato que capture minha insana inexistência de mim. Nem sequer a câmera é capaz de me registrar. Por isso escrevo. Assim, quem sabe, posso tentar um outro trato de mim, da parte que não sou e não sei ser. Mas me retrato comigo mesma, fingindo poder aceitar esse escárnio de ser tão somente isso que finjo ser e não sou. Finjo crer, ver e ir, mas nunca vou. Um retrato para minha alma cansada: me desculpe pela falta de trato.

Aqui de cima tudo é silêncio

Vejo seus olhos dispersos e a angústia me corrói a alma. Acho que a gente morre três vezes antes do fim e nem se dá conta. Eu morri.

Por deus, menina. Eu morri três dias e três noites inteiras. Depois me levantei e fui trabalhar. Nada que um café amargo e um cigarro forte não sejam capazes de resolver a agonia dos dias fúnebres.

Depois, escrevi melodia, poesia, li romance, ouvi Bach, troquei de roupa, parei de fumar, fui correr, pensei em suicídio, odiei essa vida hipócrita e fodida, amei-te incondicionalmente, apaguei as luzes. Depois, acordei fodida, com asco da vida, dessa rotina insonsa, amargurada com minhas conquistas mirradas de alguém que fenece na própria existência de não existir.

Chorei sentada na beirada da sua janela e pensei em jogar-me, atirar-me leve de corpo e pesada de alma desse andar mais alto do que posso saber contar. Fumei um cigarro até que a brasa ardente me queimasse os dedos. Minha pele não faz a alma arder. Bebi café gelado para que minha essência acordasse, mas lá embaixo as pessoas ziguezagueiam e não me dão sossego. Daqui de cima, finjo queimar cada uma com a ponta acesa de meu cigarro barato. Queria acender meu coração feito essa brasa que queima vívida quando aspiro mil venenos doces.

Adormeço e morro uma centena de vezes. Culpo-me, choro, debruço-me em minha torpe e fútil permanência em mim. Depois acordo feito uma resignada alma suja. Decido correr, comer salada, ouvir mantra, alongar- me 2 vezes ao dia. Afasto pensamentos ruins, alinho os cháckras, durmo cedo e jogo no lixo esse cigarro amargo. Depois, passo duas semanas ou mais inerte na existência inventada, neurótica com a saúde, sedenta pelo editorial do dia. Depois, sou parte da parte que queimei com a brasa da minha alma.

Eu morri em todas as camadas, mas só descansa quem teve sorte. Viver me exige uma encenação fodida e uma carteira nova.

O abismo alheio

Sento-me neste sofá meio duro, meio velho, meio desbotado. Observo, em silêncio, o tiquetaquear insonso do relógio e nenhuma hora que chega me assossega a alma.

Por deus, eu queria a paz de quem passa sorrindo em meio às multidões. Ainda que haja um inferno nestes corpos caminhantes, parece que seus abismos são tão mais rasos do que o meu.

Quanto egoísmo. Sou um corpo desalmado morrendo em angústias. Já não sei mais sentir.

Sempre que olho as almas todas me pergunto as artimanhas do viver a vida. Não quero que pense que sou uma curiosa com a vida alheia, mas tenho uma ânsia em saber como sobreviver nesse marasmo. Eu morri há tanto tempo que me custa crer que tanta gente sobreviver com facilidade nesse inferno tenro.

Gosto destas histórias irremediáveis, dessas almas vivas que de fato vivem. Que largam os empregos, os amores, os pratos intocados. Quase invejo almas que se deixam levar quando a vontade surge, quando o tédio aparece, quando o vento sopra e se ouve “vai”.

Eu me afundo no sofá. Até o último respingo de comida neste mesmo prato que almoço todo dia. Eu me afundo no sofá quando o caos me consome, mas não me obriga a mudar. Eu me afundo, cada vez mais fundo, nesse sofá quando quero ir e o medo me pesa o pulso. Querer me faz desistir tão mais rápido que me sinto acostumada à dor. Como alguém que cai em seu abismo e nunca chega ao chão, numa queda tão prolongada que o medo assossegou.

Sou o abismo de mim mesma. Não arisco minhas idas e não me conformo com minhas estadias. Feneço na minha existência e ninguém me contou o segredo de existir antes de sentir-me morta.

Embebedar-me

Por dias sem fim, uma eternidade tenra, eu quis falar. Quis arrancar da minha garganta seca as palavras sufocantes de alguém que morre sem nunca ter existido.

Esquentei sete vezes o café velho esperando sua presença. Senti o amargo da bebida quente e, depois, fria. Senti a acidez de um café forte que teve tempo de amargurar a xícara esperando sua presença. Não pense que errei os sentidos. Houve uma ausência tão pereba e sórdida que tudo em mim amargurou, feneceu, desmanchou em cem fragmentos sujos. O amargor foi apenas a primeira instância de um ser que vive à margem de si mesmo.

Sou só um corpo requentado e que permanece de alma fria. Sou só um dasalmar eterno, preso nessa carne tensa. Uma não essência que persiste na inexistência de si, na ânsia por dizer o que não se pode lexicalizar. Me falta um dicionário todo para saber ordenar os sentimentos que me afogam.

Meu café amargado esfria, acidifica, entorpece a xícara branca. Mergulho meu dedo no líquido preto só para saber se sinto. Por deus, queria eu afogar-me inteira nesse emaranhado liquefeito. Habito em mim tudo que, por anos, tentei abandonar, reverter, reformar. Sobrei eu, ausente de mim, pregada no que não soube ou não pude reformar. Sobrei, sozinha comigo mesma. Sou uma ausência fodida.

Nenhum sol me permitiu falar

A noite chega cedo do lado de fora, nas aqui dentro ela nunca se foi. Um breu constante fez moradia em mim.

Em silêncio, comeu minha voz. Em absoluta calmaria, corroeu minha existência. Fio por fio, o inebriante escurecer desfez meu bordado inacabado de mim. Não tive tempo de me ver pronta, me querer pronta.

É escuro, ainda que haja luz. Ainda que haja a porra de um holofote em minha cara, eu vago entre estar cega pela excesso ou carência de luz.

A tristeza sempre me fora uma blusa grande demais. Mangas longas que não me deixavam ver as próprias mãos. Um tecido pesado que recaia em meus Bros e me impedia de andar. Fora assim por anos e, por deus, achei que assim seria eternamente.

Há algum tempo, pareceu que finalmente o tecido se ajustara a mim. Me serviu melhor. Menos pesado, menos torto em meu corpo mirrado. Vezes desconfortável, mas sempre coerente com o mundo, que sempre nos obriga a alguma tristeza perene.

A vida é um pêndulo sentimental, em que os tecidos às vezes são inadequados ao nosso corpo frágil.

Mas eu andei servindo bem às minhas mazelas. Uma roupa que eu podia vestir.

Então tudo foi me engolindo. Parece que essa blusa, ora justa ora grande, voltou a ser imensa para minhas costas tortas. Parece que os pontos desse tricô voltaram a pesar mais do que minha alma ardida.

A tristeza caiu dos bolsos e me mordeu os pulsos. Agarrou-se em minha pele e destroçou meus dedos tortos. Minha pele fina e pálida está exposta ao frio do mundo e tudo que essa blusa fodida faz é enterrar um prego velho em cada ombro cansado. Estou sangrando por dentro e ninguém pode me ver por meu sangue escorrendo pra dentro desse tecido impermeável.

A tristeza engoliu minha existência e, de novo, sinto-me ocupando um espaço que não deveria ser meu. Nunca houvera espaço para mim – nem mesmo nessa vida que parece ser minha. E se tiro a blusa, morro de frio. Se a visto, morro engolida pelo tecido que me corrói a pele.

Pra viver um pouco mais, recosturo minhas feridas com a linha que sobrou dos dias bons.