deuses humanos

Somos de fato uma fraude. Um amontoado de gente a um sopro de decompor-se. Somos falências múltiplas de um sistema fodido, um corpo faminto, uma alma ferida.

Falo isso do alto de minha soberba, mas me incluo nessa merda toda, nesse fim que nunca acaba. Falo na certeza de que sou um corpo sem cerne, sem âmago, pois em mim tudo já morrera antes de meu terceiro suspiro.

Hoje não tem cigarro amargo ou bebidas quentes. Não tem paz. Porra, nunca teve, nunca houve, um segundo que fosse, de conforto neste meu peito destroçado.

Mas olhe, não é isso que eu dizia. Não é sobre mim – não hoje, ainda que tudo sempre seja sobre nós, sobre este nosso egoísmo, este nosso anseio por proteger sentimentos e não se deixar ferir, ainda que sejamos nossas próprias lanças cegas atravessadas no peito.

Quero dizer que hoje, justo hoje, dei-me conta desta banalidade torpe. Somos uma fraude imensa e fingimos acreditar em nós para que algo faça sentido. Basta olhar para o lado, para cima. Almas humanas e corpos divinos são um infrutífera medusa sem cabeças. Entende? Entende o que digo – é uma súplica!

Essa gente toda ao meu redor, com seus amores superados, suas dores malditas e suas certezas insignificantes. São humanos tão sórdidos. Basta conviver dois ou três dias, basta passar 8 horas trancada em uma sala de trabalho – estes empregos malditos -, nenhuma palavra além das canetas perdidas e das janelas fechadas. Nenhuma palavra, mas você pode sentir que os olhos todos emanam a podridão, a fraudulência humana. Corpos humanos e almas divinas são uma quimera quase insustentável, senão pela nossa tola crença de que, de fato, somos o que queremos forjar.

Hoje adormeço mais exaurida do que de costume. Somos tantas almas ludibriadas pela inexistência de si, somos quase um sopro sem fôlego fenecendo em corpos humanos sem deus.

somos uma parede densa de utopia

E vou acostumar meus olhos à imensidão do mundo

vagarosamente, em um ritmo todo novo.

Com uma valsa jamais tocada, tocarei meus pés, firmes, no chão.

Quero falar de ontem como um passado distante

e de hoje

como um novo viver, como uma

poesia pós-tudo.

Eu vou ocupar meus espaços na certeza

de que somos muitas e

firmes e,

agora,

formamos uma parede de utopia.

Hoje, ainda seremos possíveis.

entre o afeto e todo o resto

Aquele momento rompante e absurdamente seco em que você é tomada pela ausência de alguém que há tempos já não estava. Como posso descrever essa banalidade, esse ato comum de notar-se esvaziada do ato humano e social?

Por deus, tenho a plena certeza de que você entende – não há de ter um ser vivo nesta terra maldita que não tenha vivido esse sentimento de, em meio a uma banalidade qualquer do dia, lembrar- se de alguém que esteve entre dedos e corpos, entre sorrisos e almas, entre o afeto e todo o resto.

E, assim, nesses desatinos da vida que vão deixando os dias pesados e as almas cansadas, a gente vai perdendo a fala, afrouxando o laço. Aquelas almas tão presentes, de repente, são uma incerteza.

E digo que neste exato momento, em que observava a ponta faiscante do cigarro quase finalizado, lembrei que me falta sua palavra ressoante. E deu um aperto danado de contar as banalidades do dia que viraram poesia, e as amarguras do mundo que se resolvem com um pouco de niilismo.

Revirei os cadernos velhos em busca de um telefone ou algo assim. Não tinha. Por deus, não haveria de ter, pois era exatamente a incerteza de ter qualquer coisa e de estar que nos mantinha.

Foi minha certeza que criou um desafeto sobre o sentimento que você não soube me dar. Então tudo foi virando ausência, de forma que o seu não estar, remediado pela minha certeza de que você estava logo ali, foi suficiente para criar essa ilusão de que havia presença.

E agora, nesse cigarro quase queimando-me os dedos, notei que seu afeto e meu desamor viraram ausência e incerteza novamente. Sem nenhuma pista, deixo esse susto de notar-me ausente ressoar em mim. Duas. Três vezes. O cigarro queima e tenho quase certeza de que você ainda fuma.

A ausência extravasa pelos meus poros e enche a sala. Me desfiz por notar que não sobrou nada de ti – levante e te escrevo um carta sobre as banalidades da vida que viram poema. É tudo que me resta.

Autorretrato

Aproximei a câmera de meu rosto, não como alguém que busca um ângulo favorável, mas sim como quem ressalta suas estranhezas. Sou um escombro de mim mesma.

Olhei fixamente as penúrias que estão expostas na minha face cansada e dei foco em cicatrizes que nada têm de relutância ou sobrevivência. Só algumas marcas de mal cuidar.

Olhei pra mim e, porra, cansei de me ser. Mas quem não se cansa, não é mesmo? Temos vividos tempos sórdidos e caos escabrosos. Temos vividos medos insanos e a certeza de que a insanidade é a única materialidade que ainda nos cerca.

Tenho vivido um reflexo pouco nítido de mim, cada vez mais fragmentada pela minha aptidão em habitar esse abismo que, dizem, é a vida. Tenho me assustado, confesso, pela resignação que me tomou de uns dias pra cá. Acho que é exaustão. Esse vida fodida me decepou a alma e pouco sobrou além da permanência mundana nesse ser e estar.

Olho-me e só vejo tudo aquilo que me reprovo, mas não me sinto mal. Olho-me e repito que sou o que sempre quis esconder. Agora, com a pele limpa e a roupa de três dias, pego mais vinho. Abandonei as taças e, agora, aceito aqueles copos de material duvidoso, feitos plástico, torcendo para que não soltem substâncias nocivas – não à saúde, mas ao vinho. Acharia o fim do mundo esse amontoado de plástico alterar o sabor das poucas coisas que me alteram esse estado frenético e exacerbado de consciência, e me permitem respirar sem sentir o peito apertado, o choro engasgado, o nó na garganta com um sem fim de coisas que não posso resolver.

Porra, por que ninguém desconfiou que olhar a vida era essa merda toda? Uma dor atrás da outra, essa merda acumulada por onde quer que olhemos? Quando é que vamos voltar a sofrer por amores perdidos e aquelas merdas todas que davam sentido à efêmera existência humana?

Eu nunca mais escrevi um poema sobre a dor do amor. Nunca amei também, mas a paixão já me fora uma brasa acesa entre os dedos. Já queimei. Fim. Agora, não há mais tempo para afetos, desencontros, cigarros no bar, solidão, corpos emaranhados e.

Por onde anda a necessidade poética senão sucumbida pelo nosso receio de desviar os olhos da materialidade do caos e não sabermos voltar? Olho-me no espelho, fitando meus olhos, num ato sôfrego de não perder a referência de mim nesse mundo fodido.

Olho-me e tento gravar minhas olheiras escuras, meus olhos cansados, minhas rugas mais fundas do que me lembrava. Olho-me registrando os contornos de uma face que o mundo tem decomposto, dia após dia, num tique-taque lento de horror.

Não tem sobrado muito de mim, nem de ti e de ninguém mais nestes tempos sombrios. Mas sinto que ainda sou capaz de recitar, em alto e bom som, uma poesia que há tempos fez doer o peito amante. Posso ouvir estrondosamente uma música que se fincou na juventude passada. Sinto que posso, ainda que sem a pretensão de ser entendida, escrever um verso de amor – mesmo sem amar, sem ter a capacidade ou a vontade de ter afeto. E só por isso, por esse esforço ignóbil e desumano, eu me faço mais nítida nesse espelho sujo.

poesia pós tudo

Assim como os velhos bons tempos se encerraram, obrigando-nos a uma rotina desconhecida, esta finalizou também.

É preciso começar de novo e construir um novo mundo. Pois te digo, não restara muito, e todo o meu eu toca receosamente, ouve atentamente, olha minuciosamente para todas as formas, e sons, e frios, e cores e.

Deixo-me sentir para construir também um novo eu. Pois já não somos as mesmas pessoas, as velhas e encarceradas almas naqueles dias de longos anos.

Precisamos ressignificar, ser e estar. Precisamos dar alma ao mundo e à fragilidade de ser. O estar é tão breve.

Suspiro.

Quero a pele fria destes outros corpos amedrontados me tocando. Para essas almas de revolução, eu ensejo um riso tímido. Precisamos redescobrir o mundo com essa gente aqui.

Eu grito por dentro: ocupem a rua, ocupem-se da rua.

É preciso resistir. E eu desejo qualquer sussurro que me faça ficar um segundo a mais e ter uma chama mais densa para transformar esse asfalto asséptico em poesia pós tudo.

Eu, por fim.

Com meus dedos sujos de sangue, de ódio e de culpa pelo regozijo, faço um ponto bem no meio do chão da sala vazia. Este enorme inexistir que envolve a mancha tímida sou eu. Sou todo esse habitar que se desmancha entre dedos e toques.

O telefone não toca.

A campainha não toca.

Teu toque distante é uma vaga lembrança que se desfaz. Minha alma fenece enquanto o pingo vermelho no chão seca. Estes dias se repetem e se perdem na volta que o ponteiro dá, mas tudo permanece exatamente igual.

Aliás, eu não. Eu escrevo e me inscrevo aqui e agora. Depois do fim, que nunca chega, eu vou olhar para a mancha e para mim. Serei absoluta, exorbitante e sordidamente mais diferente deste torpe eu de agora. Serei indiferente também.

Serei muito mais a mancha do que o eu que enuncia. A mancha pode ser mais minha, mas eu nunca dela.

Sou um vazio tão denso que todo tiquetaquear é um abalo sísmico interno. Mas essa mancha que me inscreve com sangue ou suor, com ódio ou amor, no chão sujo é toda a minha capacidade de ser e estar.

Esses dias morrem em mim e nunca acabam. Eu, por fim.

Feito uma memória intrínseca, feito um amargor que não me deixa, não me deixará nunca mais viver em paz

Talvez eu devesse levar para a terapia isto. Me imagino retorcendo as mãos, procurando qualquer coisa para segurar diante um imenso vazio que me separa daquela pessoa completamente estranha e igualmente frustrada com sua vida. Mas eu nem faço terapia – já tentei, você sabe quantas vezes já. Já gastei o que não tinha com umas sessões amargas de psicanálise e outras linhas. Acabou meu dinheiro ou eu nunca estive pronta de fato para lidar com meus demônios.

Talvez eu tenha largado porque sempre achei bonito demais aquelas cenas de filme em que a terapia é feita com um cigarro na mão e um divã. Nunca me deixariam fumar em ambiente fechado. Eu nem fumo.

Queira contar agora que eu morri e você nem viu. Eu também demorei para notar e, mais ainda, para aceitar-me morta neste caos que não para.

O fato é que você sempre deixou o arroz queimar. Parece besteira, eu sei! Mas, por favor, preste atenção. Porra, todo almoço ou janta, incontáveis vezes, você deixou a porra do arroz queimar.

Tudo bem, no começo foi um tanto divertido. Acho que até rimos algumas vezes sobre sua memória vaga logo após colocar a panela no fogo.

Mesmo sabendo que não iríamos comer, mesmo sabendo que eu não queria almoço, mesmo sabendo que eu esperava um lanche – desses que chegam à casa, cheios de gordura e trabalho explorado -, você insistia em fazer uma porção de comida.

Digo porção pois, muitas vezes, sequer havia um complemento. Era só arroz mesmo, feito aquela época em que o dinheiro era escasso e não havia nenhum outro pacote no armário. Tempos difíceis, bem me lembro. Também recordo suas mãos inseguras colocando os grãos brancos na panela. Não havia nada mais, mas fora o bastante para fazer passar os dias ruins.

Hoje tem, mas você insiste no arroz. Talvez uma memória internalizada. Ou preguiça de fugir dos velhos hábitos. Pouco importa.

O que me ecoa incansável é o fato de que, mesmo sem haver uma única necessidade ou vontade de arroz, você o faz. O faz e o queima. Se não o queima propositalmente, deixa-o queimar, como se não houvesse nada a ser feito a não ser esperar pelo cheiro impregnante que somente uma comida esquecida há horas no fogo pode exalar.

Então, quando a fumaça e o odor transitam pela casa, você corre apressada rumando à cozinha. Desliga o fogo e volta tranquila às suas tarefas, como se o propósito fosse o arroz queimado.

Quem me ouve pode cogitar que é coisa da idade. Sabe, envelhecer tem dessas mazelas e, nesse caso, eu poderia compreender. Mas preciso que o mundo saiba que eu tenho plena certeza que não há razão lógica para os grãos grudados e incomestíveis e pretos e tostados no fundo da penela.

Houve um tempo que passei a ignorar, deixando a panela lá. Por vezes, dava pra comer a camada mais superficial do arroz. Quase não parecia estar queimado no fundo. Porém, tinha vezes que todo ele virava uma massa queimada.

Depois de muito tempo, passei a achar que o arroz era uma metáfora, consciente ou não, para você expressar suas dores. Achei que tentava me dizer que mesmo quando eu não queria almoço, ou berrava que detestava que me preparassem a janta, você persistiria fazendo. Então pensei que era uma forma sua de me machucar, pois seu arroz ocupava minha lacuna de não querer comer, não querer seus cuidados.

Não obstante, você borrava minha fala de não querer suas comida e seu afeto e seu gesto solidário, ignorando tudo isso, com uma comida que não poderia me alimentar, logo que estava queimada. Porra, que loucura.

Era quase como alguém que, pelo simples ato de soar inconveniente, oferece-me algo que não quero e, mesmo que me desse por vencida, não poderia querer.

Lembro que eu estava levemente alterada neste dia e, então, bebi um pouco mais para fazer descer essa conclusão mirabolante. Você não poderia ser tão má, mas era. Má pessoa ou má cozinheira, restava-me descobrir qual.

Talvez fosse apenas para me incomodar com o cheiro de queimado. Talvez você quisesse fazer ecoar o fato de que eu nunca mais almoçara sua comida. Ou talvez eu fosse uma pessoa sórdida e estivesse achando um pretexto com base em meus traumas infantis para sua falta de memória.

Aos poucos, novamente, parei de procurar um motivo pra aquela maldita panela de arroz queimado. Por vezes, comia-o, ou jogava fora, ou fazia outra porção. Parei de me deixar afetar pelo cheiro, pelo aspecto triste de uma comida que vai pro lixo. Parei de me deixar afetar pelo sentimento insonso e sem sentido de que você usava o pretexto de um almoço para mim para ferir-me.

Mas eu nunca te perguntei se havia algum sentido nisso tudo. Você também nunca me falara. E nós fomos acumulando um banquete de desafetos e amarguras. Nós fomos bordando uma toalha de palavras mal ditas, de malditas vontades.

Eu não podia mais ser alguém perto de ti e minha vontade de ser qualquer coisa se perdeu há um sem fim de anos. Mas isso não tem a ver com o arroz.

Faço essa brecha na história só para dar um contexto de alguém que falha em sua inóspita existência. Eu não existo mais, nem pra mim e nem para ti. Talvez foi exatamente pelo ato de morrer nos outros que morri, por fim, em mim.

Porque você continua fazendo um arroz que eu não quero, e nem você, julgando ser o que preciso comer, mas deixando-o queimar de modo que nada mais sobra como alimento. Você, sabendo que irá queimá-lo, repete diariamente o ato de ligar o fogo e nunca percebe que eu não o como, nem você.

Então paira nessa rotina a impressão de que você me mantém alimentada, protegida e cuidada, ainda que eu, todos os dias, jogue fora e morra um pouco mais por inexistir em ti. Você queimou o que sou e insiste em uma memória que só te deixa ver parte da história.

E eu ainda não sei o que fazer com seu egoísmo. Hoje eu tentei cortar o gás ou aspirar todo ele, mas eu só consegui fechar o porta da cozinha de deitar-me no escuro. Com sorte, o cheiro vai te incomodar também.

Três toques mudos

Eu tiro o telefone do gancho e prendo a respiração ao encostá-lo na orelha. Não falo nada, mas espero alguns segundos para ver se algum barulho ressoa do outro lado. Nada. Então te telefono. Deixo tocar algumas vezes até dar-me por vencida.

Talvez amanhã você me atenda. Acorde ou chegue em casa, atendo-se às chamadas perdidas. Eu provavelmente vou perguntar se está bem. Está. Sei que está. Talvez triste, mas a tristeza é uma manta necessária em meio ao fogo da vida. Mesmo que pareça sufocar, é ela que evita que a chama queime irrecuperavelmente a pele.

Insisto em saber de você. Seus estados, frios e ventanias. Não quero falar de mim. Aqui, por deus, é tudo um breu. Afundo no sofá e deixo uma fresta de sol me arder a pele.

Não estou. Se me perguntas, não estou. Nunca estive. Sou o fim.

Morro por não ser capaz de suportar um pouco mais, relevar um pouco mais, morrer um pouco menos. Forneço a cada entristecer seu, a cada ponto falho meu. Morro porque eu morri há cem anos e continuei aqui, prendendo dores em meus botões.

Sou o fim que nunca acaba. Uma dor fodida atrás da porta, um janela mal fechada que faz transbordar meu vazio. Sim, pois vazio também pode ocupar os cômodos.

Não me pergunte de mim. Nunca mais fui nada, nem nunca serei.

A rotina do caos

Então eu me sento em um café qualquer e olho as pessoas caminharem tontas, ofegantes pela pressa da rotina. Eu que caminho assim tantos dias, presa nesta existência insana, de tempo em tempos me canso.

Mentira, canso não. Eu surto, enlouqueço, desbaratino. Vou acumulando um cansaço sem fim, umas exaustão imensa, até que meu corpo mirrado sucumbe. Então isso acontece, sabe, de tempos em tempos.

Eu, que me prendo aos horários e metas e agenda e 11 horas de trabalho por dia. Eu que acordo cedo, durmo tarde, como mal, bebo demais e respiro fundo para não deixar que essa vida fodida me roube o pouco de paz que posso ter. Eu, que acordo segunda esperando a sexta, passo a semana capengando pelos cantos, bebo mais café e energético que meu corpo aguenta, eu que sinto meu coração já meio fora do ritmo saudável.

Mas então o tempo chega. Entre o horário do almoço e a ida ao banco, eu saio de mim. Sento na rua e choro miúda nesse mundo imenso demais para mim. Deito na mesa do restaurante ou sequer chego até ele. Eu saio do eixo como forma de deixar essa porra toda pesar menos em mim.

Então sento em um café enquanto sei que deveria estar batendo o ponto. Mas tudo bem, eu surtei. Exausta, é o que dizem. O mal do século. Talvez o século seja o mal. Todo mundo tão ocupado, apressado.

Ninguém me vê. Meu café amargo e forte e frio me abraça mais do que qualquer alma podre sentada ao meu lado. Tudo bem.

Talvez acenda um cigarro. Ainda há tempo. Hoje eu surtei, mas só amanhã começo a ser saudável.

Isso. Amanhã eu faço dieta, como alface no almoço, caminho 30 minutos por dia – porque a academia ainda é cara demais para meu salário injusto -, tomo meus remédios que me tiram desse fundo de poço. Porra de vida.

Amanhã eu faço meditação, finjo acreditar no bem que yoga faz, finjo acreditar que não acho essa merda toda ridícula. Vamos morrer. De que me serve ser saudável e ocultar meu asco pungente por essa deturpação do sentido de paz e bem-estar? De que me adianta adotar mindfulness, Pilates, aromaterapia só para dar conta de minha rotina de 11 horas de planilhas, e reuniões que poderiam ser um email, e gente mal educada, e falta de amor, e excesso de ódio mal empregado? Porque eu odeio tanto tudo isso, mas de que me adianta?

Engulo agora meus comprimidos com o café quase frio e fico triste de achar que seria na consulta psiquiátrica, com o médico de aparência questionável, que meus conflitos poderiam enfim cair de meus bolsos e aliviar meu peso árduo de estar aqui. Que besteira.

Mas amanhã o remédio fez efeito e eu volto a gotejar meu ódio interno. E a bater o ponto depois de 1 hora de almoço.

Minhas ruas vazias habitadas por mim

Há tempos que sinto meu corpo inerte em meio aos dias. Como se o caos da vida, a rotina insana e sem sentido, corresse entre mim por todas as direções, revirando-me o estômago. Eu, parada, incólume, maltrapilha pelas feridas da vida, estou ali, sem a capacidade ou a vontade de me mover.

Sinto que há dias estou prostrada na mesma rua escura, e clara, e quente, e fria, e dias e noites sem fins correm em meus lados, passam diante meus olhos. Vou sentindo um vazio tão fundo, tão mais denso e mais tenro, que não tenho coragem de olhar para dentro desse meu torpe eu. Tenho o receio de verter-me, por um minuto que seja, para o meu abismo e cair sem fim no caos sombrio que habita entre minhas vísceras.

Acendo um cigarro para ver se a brasa gera um foco de luz diante meus olhos. Acendo um cigarro para ver se, entre meus dedos, toca alguma coisa além do medo de existir. Trago um maço todo de solidão nos bolsos, trago mais uma vez para ver se a brasa me queima a derme fria.

Hoje, o dia ainda não teve fim. Há semanas não está tendo. E, por deus, sinto que as noites sussurram o medo de descobrir-me eternamente presa nesse meu eu, sinto um sem fim caótico enquanto sinto nada.

Então me sento no chão frio e duro e cru e sujo, pois meus pés doem, minha alma dói, meu cerne arde em chamas de uma alma que, perene, fenece atravessada pela angústia de não poder andar para longe de si mesma.