almas que me habitam. Nenhuma sã

O dia frio escorre entre minha sobrevivência. O vento que força os galhos e faz as folhas mostrarem sua resistência do lado de fora é imensamente mais fraco que o vendaval que me quebra as articulações da alma.

Hoje eu me sentei em meu vazio e vi o tempo varrer as horas do dia pelo vidro sujo da minha janela. Hoje eu não resisti à dor, ao caos, ao medo. Minha paz caiu há anos e nenhum estilhaço foi capaz de me trazer calmaria. Hoje, o vento lá fora não seca minhas lágrimas.

Escrevo com uma mão pesada e uma dor latente. Escrevo o que não cabe em mim e não serve em parte alguma desse sujo mundo.

Escrevo pra traduzir um pouco desse vento que me ensurdecedor. Escrevo às almas velhas, aos olhos tristes. Escrevo nesse papel sujo para que, se num devaneio tolo, alguém insistir em invadir-me e persistir num eu que deus nenhum é capaz de crer, saiba que vivo por um sem fim de torpes almas que me habitam. Nenhuma sã. Nenhuma que valha a pena ser vivida. Todas mais reais do que eu.

Eu que sequer reflito nesse vidro sujo. Eu que sequer moveria os cabelos do lado de fora. Eu que fiquei preso entre as horas lentas e amargas desse dia. Dessa vida. Eu que senti o ponteiro dos segundos me furar feito uma lança cega e sangrar os últimos risos calmos. Meu dia contornou meus pulsos e tampou minha respiração. Há alguns anos eu prendi a respiração e o dia continuou o mesmo.

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Sua vinda espaçada entre o mau me quer e sua flor despetalada

Queria te escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Queria escrever uma carta, um bilhete amassado só pra te enunciar esse aperto que tenho sentido. Não é por você, não é pela culpa, sequer é pelo medo. É que me enclausuro, por vezes, nesses períodos patéticos de precisar mas não saber escrever. Uma necessidade aflitiva de borrar e rabiscar um pedaço qualquer de papel só pra que os sentimentos não me consumam por inteiro, não me dilacerem.

Mas olha pra mim. Olha e me diz se pode me ver. Porque agora me sinto destroçada pelo chão da sala. Me sinto em mil pedaços que nunca saberei juntar novamente. Mas tudo bem, depois da meia noite as luzes são forçadamente apagadas e a rua toda fica num breu silencioso. Eu fico também. Aqui dentro é um deserto sem fim. Meu medo percorre cem vezes meus pulsos e me ateiam penumbras do caos. Minha necessidade de ser voz, ser tom, ser cor morre engasgada nos meus silêncios. Então te peço perdão por quase nunca saber o que dizer. Porra, eu sei. Sei bem o que quero e o que devo dizer. E queria dizer pra ficar. Eu já te disse? Porque quando você suspira eu tenho uma vontade danada de te enlaçar. E tudo que posso fazer é continuar rabiscando esses pedaços sujos de papel amassado. Só posso escrever cem linhas tortas, em cem páginas velhas, sobre meu sem fim de amor amargo. A gente vai respirar afeto por cem dias e depois as luzes se apagam pra sempre.

Ah, pequena. Não é por maldade. Mas você que não me conhece entre meu caos e meu desassossego. Pois te escrevo e repouso meu papel na cabeceira, na mesa, no braço do sofá. Despretensiosamente esqueço meus bilhetes pelos cantos da casa para que assim, quem sabe, você descuidadamente leia-os. E nesses bilhetes torpes eu confesso um âmago em segredos e minha vida termina aqui. A gente morre um tanto todo dia. Mas tudo bem, eu ainda tô esperando seus cafés amargos me recobrarem a vontade viver. Ah, pequena, me cansa tanto despejar meus timbres de vida na vida alheia. Me cansa – ainda que não pareça – ser quem sou: uma alma meio suja buscando um socorro e salvação.

Mas, veja só!, passa de meia noite e as luzes se apagaram. O silêncio me rouba a atenção e você não bateu à porta.Você não tem batido ultimamente. Meus pulsos andam rodeados de sofridão. Mas eu continuo esperando suas visitas. Seu timbre pela casa. Sua vinda espaçada entre o mau me quer e sua flor despetalada. Mas tudo bem – Escuta! Faz-se silêncio lá fora, mas aqui é um caos eterno. Tá ouvindo o barulho? Tá ouvindo um corpo meio vago que emudece em respeito às luzes apagadas? Não quero assustar quem fenece de fora pra dentro.

Mas eu repito: tudo bem. Tudo bem, pequena. Meus bilhetes já estão longos pra quem não sabe o que dizer. Adormeço para que as horas passem depressa. Tomo cafés amargos e calmantes pesados. Tomo chá de camomila e confesso no espelho um amor que ninguém mais há de ouvir. Meu afeto me causa ojeriza. Pobres de nós, menina.

Mas me deito num quarto escuro esperando meus fantasmas me devorarem. Me comem a alma, o cerne e a carne. Espero sangrar, mas acho que só me restam lágrimas pesadas demais. Vou me deitar e esperar você não mais voltar. Porque ainda que tão somente te confesse amor no mais sórdido dos meus delírios, amo. E ainda que minha confissão seja rabiscada em bilhetes ilegíveis, morro nesse amor. Mas sei, por deus, sei que não te abandono nunca. Que por dias e meses e anos sem fim eu esperaria suas vindas. Esperaria suas visitas ainda que minha alma um tanto resignada já não espere mais. Mas é o que se repete sempre: eu adormeço pelo cansaço do aguardo. Ninguém vem por muito tempo. Você não há de vir também.

Mas te peço, calma e incondicionalmente, junta esses papéis velhos antes de sair e não mais voltar. Junta suas memórias caligrafadas em folhas sujas. Junta tudo que te és de direito e de relato. E leva embora para que nada disso me berre tua presença. Depois da meia noite tudo é silêncio, mas tuas memórias são copos de vidro arremessados contra meu peito.

às fotos e fumaças que te escondem de mim

A foto sua está embaçada, sem foco. Nunca aprendi a tirar boas fotos. Mas sua imagem borrada ainda é um esboço angustiante do meu bem querer. Você, tracejada e bordada nesse papel dobrado ao meio, que carrego por toda a vida em meu bolso, me é tão intimamente estranha todas as vezes que olho. Porra, ainda que a foto seja minha, ainda que eu mesma tenha feito esse retrato inebriante, ainda me parece um soco no estômago, uma surpresa incômoda perceber-te ali, me fitando com seus olhos calmos. Súplicas de segredo Te implorei, me conta. Não, porra, não, guarda seus segredos, todos os mistérios. Me resguarda com teus encantos, não me entrega as respostas. Porque, por deus, sei que se me conta tudo, tu vai embora. E eu morro. Eu juro que me dilacero, me desmancho num sem fim de pedaços. Então não conta. Não se entrega assim, ainda que eu me asfixie na incerteza de teu bem-me-quer. Me quer?

Me quer

Quer? Te pergunto e me findo na dúvida. Uma corda bamba. Um ritmo descompassado e a incerteza de te ter, mas ainda assim estou presa na absoluta e vulgar necessidade de ti. Vulgar pois me berra. Não sei afetuar-me em silêncio, em calmaria. Meus amores me comem os olhos, o corpo, a alma. Bem mais a alma. Me alimento, respiro e morro de frio abraçada em amor. Ainda que consumida pelas incertezas. E morro, por deus, morro todas as vezes que te vejo naquela fotografia um tanto amassada. Fui eu que tirei a foto? E seus olhos olhavam a mim ou a lente? Quem é que desvenda seus pecados, menina?

Passo horas absorvendo sua imagem. Te contaria cada detalhe meu, mas só teus olhos já me consumiram vinte vezes. E ainda tenho medo de te olhar. Nas últimas três noites todos os meus devaneios foram perdoados e eu entreguei meus segredos. Entreguei meus dias e minhas noites. Meus pequenos desejos e cada suspiro. Entreguei cada riso e agora eu me asseguro no medo de não saber mais me ser para continuar te sendo. Sendo o que mais você desejaria. Só deus sabe quantas vezes já morri e me reinventei apenas para ser a parte doce de quem amo.

Seus olhos, nessa foto escura. Você com seus olhos e dedos e alma inteira já me ocuparam os bolsos, contornaram meus pulsos, você adentrou a pele, me cobriu, vestiu, tirou a roupa. Você, em cem partes desiguais, me causou o desassossego de quem não tem pretensões de causar calmaria.

Mas, pequena, te peço, te imploro, se puder, se quiser ficar, ainda que sem me dar garantia alguma, fica. Ainda que me matando pela incerteza, mas fica. Pois o medo de te receber em segredos faz com que seus olhos de quem está prestes a partir me sejam bem vindos. Seus olhos, por deus, são seus olhos prestes a partir. Ou são olhos de quem nunca teve pretensões de chegar. Mas chegou?

Ainda que mudo, todo meu eu berra-te amor

Hoje eu acordei mais tarde. O sono foi tenro, a noite foi longa, o levantar foi penoso. Mas acalme-se, não venho de lamúrias e derradeiras reclamações. Venho te dizer que hoje, apesar da noite péssima, foi um dia mais leve. Não, por deus, não que você não me tenha pesado os bolsos, os pulsos. Não que você não tenha estado presente na memória, e sequer por um segundo eu deixei de sentir o vazio em mim. Não. Mas hoje eu sofri diferente. Sofri sabendo que a dor é parte integral do processo, que sentir as ausências latentes são cicatrizações necessárias, assim como a gente sente a presença pungente no início de um amor.

Hoje, menina, quando tu me ligastes, eu não movi mundos pra te ver. Não que eu não quisesse ou não pudesse, como tantas vezes fiz. Sequer te digo que não passei horas ao lado do telefone à espera de sua ligação, me corroendo em abandonos ao perpetuar o silêncio do aparelho. Você demorou a ligar. Ainda não aprendi a caminhar leve como caminhara dias antes de te conhecer. Mas aos poucos fui me bordando esse sentimento de que, não sei ao certo, você não moverá mundos por mim.

Ah, minha pequena. Eu poderia continuar. Mas isso me fere tanto que tracejo lágrimas de amor às nossas páginas.

Eu fui evitando prender-me. E, mais do que isso, evitei querer-me presa. Mas te aceitei. E não te culpo. Você nega o amor porque aceitá-lo é abrir mão de uma solidão segura, de uma calmaria tácita. Aceitar a invasão alheia é, antes de mais nada, aceitar abandonar-se. Viver em um outro corpo que não o seu. E não ter absolutamente algum controle sobre isso.

Mas não te recebo mais porque sua presença me fere pelas chegadas suas que não ocorrem. Não te recebo porque abri mão dos meus medos e receios e decidi, por deus, eu decidi que me abandonaria por ti. Mas você ainda não. Talvez medo, talvez insegurança. Talvez seu tempo não esteja ao ritmo do meu, mas não posso, pequena, me permitir esse entrelaçar de mãos sem a garantia de que você vai se entrelaçar em mim.

Eu sei, e só eu sei o quanto corri e evitei esse sentimento de me doar, de me doer aos corações alheios. Mas alguma coisa em você refletiu e culminou uma vontade descomunal de me fazer rima em seus tilintares. Por isso, pequena, te digo não ser capaz mais de lidar com suas fugas, por mais que tente. E como tenho tentado!

Amanhã talvez volte a me ferir como antes. Amanhã, quem sabe, eu acorde morrendo um pouco mais, chorando pedaços meus e ausências tuas. Mas hoje eu me permiti entender que é parte do curativo se deixar sentir. Sentir e não cobrar-se pela dor. Pelo doer. Pelo amar. Pois ainda que mudo, todo meu eu berra-te amor.