Pega essas asas quebradas e dança, menina. Ou sonha.

Paredes dançam e se desmancham sob meus pés e olhos e toques. Nada permanece. Estático.

Tudo fica mudo e sem cor, mas meus dedos tamborilam em desespero. O chão se desfez uma centena de vezes e eu continuo caindo.

Ah, menina. Tentei, por deus, como tentei sorrir e me fazer à feição alheia. Tentei manter o tom cordial, a voz carnal, a frívola essência de manter-me sã, coerente. Morri doze vezes entre cada suspiro. E as portas já não se abriam mais. E os risos já não me significavam mais. E os choros há muito não me comoviam. Me consumi, me alimentei de mim, fui me devorando de dentro pra fora e morri de fome.

Sentei num espaço vago, num canto escuro de mim. Fechei os olhos e fiquei. Fiquei. Fiquei.

Pois os fins são assim, menina. A gente vai ficando até não ter mais nada que não a gente mesmo. Mas e se eu não existo mais, afinal o que restou? Pega essas asas quebradas e dança, menina. Ou sonha. Entre minhas paredes demolidas e meu caos vago, um abismo de fim me suspende. Assim como uma mariposa, vivi 24 horas. Morri ao cair num sem fim de mim. Minhas asas quebradas já não batem mais, então me sustento na ilusão de flanar, dançar, dormir no meu escambro de pesadas asas quebradas.

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