almas que me habitam. Nenhuma sã

O dia frio escorre entre minha sobrevivência. O vento que força os galhos e faz as folhas mostrarem sua resistência do lado de fora é imensamente mais fraco que o vendaval que me quebra as articulações da alma.

Hoje eu me sentei em meu vazio e vi o tempo varrer as horas do dia pelo vidro sujo da minha janela. Hoje eu não resisti à dor, ao caos, ao medo. Minha paz caiu há anos e nenhum estilhaço foi capaz de me trazer calmaria. Hoje, o vento lá fora não seca minhas lágrimas.

Escrevo com uma mão pesada e uma dor latente. Escrevo o que não cabe em mim e não serve em parte alguma desse sujo mundo.

Escrevo pra traduzir um pouco desse vento que me ensurdecedor. Escrevo às almas velhas, aos olhos tristes. Escrevo nesse papel sujo para que, se num devaneio tolo, alguém insistir em invadir-me e persistir num eu que deus nenhum é capaz de crer, saiba que vivo por um sem fim de torpes almas que me habitam. Nenhuma sã. Nenhuma que valha a pena ser vivida. Todas mais reais do que eu.

Eu que sequer reflito nesse vidro sujo. Eu que sequer moveria os cabelos do lado de fora. Eu que fiquei preso entre as horas lentas e amargas desse dia. Dessa vida. Eu que senti o ponteiro dos segundos me furar feito uma lança cega e sangrar os últimos risos calmos. Meu dia contornou meus pulsos e tampou minha respiração. Há alguns anos eu prendi a respiração e o dia continuou o mesmo.

Ainda que mudo, todo meu eu berra-te amor

Hoje eu acordei mais tarde. O sono foi tenro, a noite foi longa, o levantar foi penoso. Mas acalme-se, não venho de lamúrias e derradeiras reclamações. Venho te dizer que hoje, apesar da noite péssima, foi um dia mais leve. Não, por deus, não que você não me tenha pesado os bolsos, os pulsos. Não que você não tenha estado presente na memória, e sequer por um segundo eu deixei de sentir o vazio em mim. Não. Mas hoje eu sofri diferente. Sofri sabendo que a dor é parte integral do processo, que sentir as ausências latentes são cicatrizações necessárias, assim como a gente sente a presença pungente no início de um amor.

Hoje, menina, quando tu me ligastes, eu não movi mundos pra te ver. Não que eu não quisesse ou não pudesse, como tantas vezes fiz. Sequer te digo que não passei horas ao lado do telefone à espera de sua ligação, me corroendo em abandonos ao perpetuar o silêncio do aparelho. Você demorou a ligar. Ainda não aprendi a caminhar leve como caminhara dias antes de te conhecer. Mas aos poucos fui me bordando esse sentimento de que, não sei ao certo, você não moverá mundos por mim.

Ah, minha pequena. Eu poderia continuar. Mas isso me fere tanto que tracejo lágrimas de amor às nossas páginas.

Eu fui evitando prender-me. E, mais do que isso, evitei querer-me presa. Mas te aceitei. E não te culpo. Você nega o amor porque aceitá-lo é abrir mão de uma solidão segura, de uma calmaria tácita. Aceitar a invasão alheia é, antes de mais nada, aceitar abandonar-se. Viver em um outro corpo que não o seu. E não ter absolutamente algum controle sobre isso.

Mas não te recebo mais porque sua presença me fere pelas chegadas suas que não ocorrem. Não te recebo porque abri mão dos meus medos e receios e decidi, por deus, eu decidi que me abandonaria por ti. Mas você ainda não. Talvez medo, talvez insegurança. Talvez seu tempo não esteja ao ritmo do meu, mas não posso, pequena, me permitir esse entrelaçar de mãos sem a garantia de que você vai se entrelaçar em mim.

Eu sei, e só eu sei o quanto corri e evitei esse sentimento de me doar, de me doer aos corações alheios. Mas alguma coisa em você refletiu e culminou uma vontade descomunal de me fazer rima em seus tilintares. Por isso, pequena, te digo não ser capaz mais de lidar com suas fugas, por mais que tente. E como tenho tentado!

Amanhã talvez volte a me ferir como antes. Amanhã, quem sabe, eu acorde morrendo um pouco mais, chorando pedaços meus e ausências tuas. Mas hoje eu me permiti entender que é parte do curativo se deixar sentir. Sentir e não cobrar-se pela dor. Pelo doer. Pelo amar. Pois ainda que mudo, todo meu eu berra-te amor.