almas que me habitam. Nenhuma sã

O dia frio escorre entre minha sobrevivência. O vento que força os galhos e faz as folhas mostrarem sua resistência do lado de fora é imensamente mais fraco que o vendaval que me quebra as articulações da alma.

Hoje eu me sentei em meu vazio e vi o tempo varrer as horas do dia pelo vidro sujo da minha janela. Hoje eu não resisti à dor, ao caos, ao medo. Minha paz caiu há anos e nenhum estilhaço foi capaz de me trazer calmaria. Hoje, o vento lá fora não seca minhas lágrimas.

Escrevo com uma mão pesada e uma dor latente. Escrevo o que não cabe em mim e não serve em parte alguma desse sujo mundo.

Escrevo pra traduzir um pouco desse vento que me ensurdecedor. Escrevo às almas velhas, aos olhos tristes. Escrevo nesse papel sujo para que, se num devaneio tolo, alguém insistir em invadir-me e persistir num eu que deus nenhum é capaz de crer, saiba que vivo por um sem fim de torpes almas que me habitam. Nenhuma sã. Nenhuma que valha a pena ser vivida. Todas mais reais do que eu.

Eu que sequer reflito nesse vidro sujo. Eu que sequer moveria os cabelos do lado de fora. Eu que fiquei preso entre as horas lentas e amargas desse dia. Dessa vida. Eu que senti o ponteiro dos segundos me furar feito uma lança cega e sangrar os últimos risos calmos. Meu dia contornou meus pulsos e tampou minha respiração. Há alguns anos eu prendi a respiração e o dia continuou o mesmo.

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às fotos e fumaças que te escondem de mim

A foto sua está embaçada, sem foco. Nunca aprendi a tirar boas fotos. Mas sua imagem borrada ainda é um esboço angustiante do meu bem querer. Você, tracejada e bordada nesse papel dobrado ao meio, que carrego por toda a vida em meu bolso, me é tão intimamente estranha todas as vezes que olho. Porra, ainda que a foto seja minha, ainda que eu mesma tenha feito esse retrato inebriante, ainda me parece um soco no estômago, uma surpresa incômoda perceber-te ali, me fitando com seus olhos calmos. Súplicas de segredo Te implorei, me conta. Não, porra, não, guarda seus segredos, todos os mistérios. Me resguarda com teus encantos, não me entrega as respostas. Porque, por deus, sei que se me conta tudo, tu vai embora. E eu morro. Eu juro que me dilacero, me desmancho num sem fim de pedaços. Então não conta. Não se entrega assim, ainda que eu me asfixie na incerteza de teu bem-me-quer. Me quer?

Me quer

Quer? Te pergunto e me findo na dúvida. Uma corda bamba. Um ritmo descompassado e a incerteza de te ter, mas ainda assim estou presa na absoluta e vulgar necessidade de ti. Vulgar pois me berra. Não sei afetuar-me em silêncio, em calmaria. Meus amores me comem os olhos, o corpo, a alma. Bem mais a alma. Me alimento, respiro e morro de frio abraçada em amor. Ainda que consumida pelas incertezas. E morro, por deus, morro todas as vezes que te vejo naquela fotografia um tanto amassada. Fui eu que tirei a foto? E seus olhos olhavam a mim ou a lente? Quem é que desvenda seus pecados, menina?

Passo horas absorvendo sua imagem. Te contaria cada detalhe meu, mas só teus olhos já me consumiram vinte vezes. E ainda tenho medo de te olhar. Nas últimas três noites todos os meus devaneios foram perdoados e eu entreguei meus segredos. Entreguei meus dias e minhas noites. Meus pequenos desejos e cada suspiro. Entreguei cada riso e agora eu me asseguro no medo de não saber mais me ser para continuar te sendo. Sendo o que mais você desejaria. Só deus sabe quantas vezes já morri e me reinventei apenas para ser a parte doce de quem amo.

Seus olhos, nessa foto escura. Você com seus olhos e dedos e alma inteira já me ocuparam os bolsos, contornaram meus pulsos, você adentrou a pele, me cobriu, vestiu, tirou a roupa. Você, em cem partes desiguais, me causou o desassossego de quem não tem pretensões de causar calmaria.

Mas, pequena, te peço, te imploro, se puder, se quiser ficar, ainda que sem me dar garantia alguma, fica. Ainda que me matando pela incerteza, mas fica. Pois o medo de te receber em segredos faz com que seus olhos de quem está prestes a partir me sejam bem vindos. Seus olhos, por deus, são seus olhos prestes a partir. Ou são olhos de quem nunca teve pretensões de chegar. Mas chegou?

Pega essas asas quebradas e dança, menina. Ou sonha.

Paredes dançam e se desmancham sob meus pés e olhos e toques. Nada permanece. Estático.

Tudo fica mudo e sem cor, mas meus dedos tamborilam em desespero. O chão se desfez uma centena de vezes e eu continuo caindo.

Ah, menina. Tentei, por deus, como tentei sorrir e me fazer à feição alheia. Tentei manter o tom cordial, a voz carnal, a frívola essência de manter-me sã, coerente. Morri doze vezes entre cada suspiro. E as portas já não se abriam mais. E os risos já não me significavam mais. E os choros há muito não me comoviam. Me consumi, me alimentei de mim, fui me devorando de dentro pra fora e morri de fome.

Sentei num espaço vago, num canto escuro de mim. Fechei os olhos e fiquei. Fiquei. Fiquei.

Pois os fins são assim, menina. A gente vai ficando até não ter mais nada que não a gente mesmo. Mas e se eu não existo mais, afinal o que restou? Pega essas asas quebradas e dança, menina. Ou sonha. Entre minhas paredes demolidas e meu caos vago, um abismo de fim me suspende. Assim como uma mariposa, vivi 24 horas. Morri ao cair num sem fim de mim. Minhas asas quebradas já não batem mais, então me sustento na ilusão de flanar, dançar, dormir no meu escambro de pesadas asas quebradas.