almas que me habitam. Nenhuma sã

O dia frio escorre entre minha sobrevivência. O vento que força os galhos e faz as folhas mostrarem sua resistência do lado de fora é imensamente mais fraco que o vendaval que me quebra as articulações da alma.

Hoje eu me sentei em meu vazio e vi o tempo varrer as horas do dia pelo vidro sujo da minha janela. Hoje eu não resisti à dor, ao caos, ao medo. Minha paz caiu há anos e nenhum estilhaço foi capaz de me trazer calmaria. Hoje, o vento lá fora não seca minhas lágrimas.

Escrevo com uma mão pesada e uma dor latente. Escrevo o que não cabe em mim e não serve em parte alguma desse sujo mundo.

Escrevo pra traduzir um pouco desse vento que me ensurdecedor. Escrevo às almas velhas, aos olhos tristes. Escrevo nesse papel sujo para que, se num devaneio tolo, alguém insistir em invadir-me e persistir num eu que deus nenhum é capaz de crer, saiba que vivo por um sem fim de torpes almas que me habitam. Nenhuma sã. Nenhuma que valha a pena ser vivida. Todas mais reais do que eu.

Eu que sequer reflito nesse vidro sujo. Eu que sequer moveria os cabelos do lado de fora. Eu que fiquei preso entre as horas lentas e amargas desse dia. Dessa vida. Eu que senti o ponteiro dos segundos me furar feito uma lança cega e sangrar os últimos risos calmos. Meu dia contornou meus pulsos e tampou minha respiração. Há alguns anos eu prendi a respiração e o dia continuou o mesmo.

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Pega essas asas quebradas e dança, menina. Ou sonha.

Paredes dançam e se desmancham sob meus pés e olhos e toques. Nada permanece. Estático.

Tudo fica mudo e sem cor, mas meus dedos tamborilam em desespero. O chão se desfez uma centena de vezes e eu continuo caindo.

Ah, menina. Tentei, por deus, como tentei sorrir e me fazer à feição alheia. Tentei manter o tom cordial, a voz carnal, a frívola essência de manter-me sã, coerente. Morri doze vezes entre cada suspiro. E as portas já não se abriam mais. E os risos já não me significavam mais. E os choros há muito não me comoviam. Me consumi, me alimentei de mim, fui me devorando de dentro pra fora e morri de fome.

Sentei num espaço vago, num canto escuro de mim. Fechei os olhos e fiquei. Fiquei. Fiquei.

Pois os fins são assim, menina. A gente vai ficando até não ter mais nada que não a gente mesmo. Mas e se eu não existo mais, afinal o que restou? Pega essas asas quebradas e dança, menina. Ou sonha. Entre minhas paredes demolidas e meu caos vago, um abismo de fim me suspende. Assim como uma mariposa, vivi 24 horas. Morri ao cair num sem fim de mim. Minhas asas quebradas já não batem mais, então me sustento na ilusão de flanar, dançar, dormir no meu escambro de pesadas asas quebradas.