Escrevo fazendo memória com os tilintares teus que nunca ouvi. 

Estou escrevendo em linhas tortas, em papeis amassados. Estou fumando cigarros amargos e borrando a alma de palavras engasgadas. Estou sentada no breu de minha essência porque as luzes de casa queimaram. O afeto tocou o mais alto grau desse meu eu e se esvaiu. Se decompôs. Se despetalou no sem fim de um fenecer cântico. Mas você não viu. Porra, você não viu ou não quis ver. Entre seus olhos recônditos e seu desinteresse pelo eco desafetuoso, entre o tilintar eufórico do meu eu e o seu sobrepujante ressentimento, sobrou um abismo de flores murchas. Sobrou uma ausência excessiva. Sobrou tudo aquilo que falta em mim, falta em ti e, por deus, nunca ousou somar em nós. Escrevo o que não me coube e sequer sei se um dia me foi pronunciado. Escrevo entre o bem me quer e o estilhaçar do meu peito. Entre a letra borrada e a ausência do ardor sentimental. Porque o afeto é sempre uma lança em chamas, ardendo feito uma brasa vívida. O afeto que não reluta em permanecer em lume sufoca em sua própria temperatura gradualmente resfriada. Ainda que os olhos doces sejam um opulento acalanto, sua alma não mais reverbera a sordidez inefável. Seu mistério morreu em três tons calados e nenhum fulgor resultou de seus toques gélidos. Por deus, às vezes o estrambólico amor se debruça exausto na beira do precipício sem nunca cair, apenas para ainda ser amor, ainda que nunca de fato amado. É isso, esse nosso existir em dois nada mais é do que um amontoado de entranhas desalmadas debruçadas e debilitadas na incapacidade de amar. Ainda que querendo, sufocando, ensejando o amor. Ainda que exauridos pela necessidade de repousar num colo afável, duas matérias sem escopo vagando na linha fina e trepidante do não ser nada mais do que um não amar. Deito agora nesse chão frio, me debruço no meu vazio caótico, entrelaço meus dedos num malgrado de desarmonia costurada aos dias mornos. Nenhum afeto é uma linha resistente capaz de unir essa flor despetalada. Agora escrevo fazendo melodia com a melindrosa habilidade de abandonar as flores mal amadas. Escrevo fazendo memória com os tilintares teus que nunca ouvi.

Um espelho caído

A dor volta. Feito um flecha afiada atirada pro alto, ela volta. Num segundo você está bem, no outro a ponta atravessa seu peito penetrando suas entranhas com um ardor incômodo. Ainda que o caos seja sempre um suspiro interno pronto a explodir, por vezes a gente quase crê que ele cessou, que enfim calou os fantasmas internos.

É sorrateiro o modo como os demônios acordam e, num piscar de olhos, te consomem o corpo e alma, se agarrando aos seus pulsos, pernas e pés. Um segundo após o despertar, entrelaçam suas pernas, entram em seus bolsos, se aninham em seus ombros. Numa rapidez descomunal, o inferno queima diante seus olhos e arde a alma toda. Antes da primeira lágrima sua paz queimou feito uma folha seca. Antes da dor ser exposta, seu peito já se estilhaçou ao chão feito um espelho trincado. Meu corpo caiu ao chão e mal tive tempo de abrir os olhos. Meu eu nem reflete mais nos espelhos destroçados, se é que um dia refletiu.

Antes de escurecer o quarto, antes de recostar as janelas e baixar as cortinas eu queria suspirar palavras de paz. Eu queria pintar as parede de boas lembranças. Por deus, eu queria tamborilar qualquer porra de melodia que não me fira feito brasa. Mas meu peito arde e minha essência já morreu três vezes antes de ver a calma.

As paredes são tingidas com a cor de desafetos envenenados. O amor é um fósforo riscado que incendeia a casa ou apaga antes de se consumir totalmente.

Você, porra, você, com seus olhos perdidos, com a porra do seu afeto embrulhado no egoísmo de sua existência. Você sentada na beira da razão, me empurrando pro meu inexistir. Você que me despetala sem ressentimentos, talvez nem sinta que me rouba a paz, a calma, a alma. Talvez não ouça os gritos mudos de minha pele. Talvez não sinta os toques cegos de desespero de estar aqui sem nunca, de fato, ter existido. Sua voz me mata, me ensurdece, me atira no poço fundo da minha agonia. Seus dedos de jogadora, amarrando mais forte os meus nós, me prendem a circulação e então eu vou morrendo num arfar longo demais. Um suspiro teu me mata em sete tons que eu sequer posso enxergar. Sua presença debruçada em meu fenecer me aflige e nenhuma chave me abre as portas. Você roubou de mim a única coisa que eu haveria de ser: eu mesma.

Eu em minhas dores e medos. Eu em minhas falas tortas e olhos cansados. Sobrou isso, esse pedaço meu, corrompido de seus atos, ferido pelas suas palavras, estraçalhado pelo que não te dói, mas me come a carne e o cerne. Seus dedos me impregnam, sua voz rouca me atira do vigésimo sexto andar e eu continuo vivendo. Minhas dores não escorrem mais pelos pulsos, só as linhas ardidas de uma dor que você não sente. Nem eu, porra, nem eu sinto mais. A dor que me aflige não sai mais. Grudou nas paredes da alma, está tatuada na pele, cicatrizada em minhas falas. A porra da sua vida está incutida em mim e refletindo os demônios que não me deixam dormir. Meu corpo frio se decompõe de dentro pra fora, mas o sangue ainda corre nas veias e escorre no chão. Você é feito uma lâmina interna, me dilacerando os órgão, me fazendo doer por dentro, me matando de um sentir que só eu sei como me arde. Você repousa ao lado e, mesmo dormindo, atrapalha meu sono, rouba as músicas doces que eu poderia ouvir. Você me tampou os ouvidos, me vendou os olhos. Você cortou minha voz, mesmo que suas mãos sujas não me toquem. Você me matou e não me tirou a vida. Sugou minha essência e me revive todos os dias. A porra do seu afeto costura à minha pele um amor que não quero e não sei sentir. A porra das suas palavras me cospem a asfixia de ser parte de você e nunca parte do que era pra ser: eu.

Já sentiu sua vida riscar o fósforo na caixa da sua insegurança?

Hoje o frio foi mais frio e nenhuma luz se acendeu. Me debrucei no chão porque a crueza do cimento é tão reles que pouco me afeta. Em mim tudo corrompeu.

Há dias que o tempo não corria tão lentamente. Olhei seis vezes para o relógio e não passaram das sequer 5 minutos da minha agonia. Se a gente reparar bem, nossa angústia está respingando dos ponteiros lentos. Três gotas no papel amassado e eu não sei como te dizer que, por vezes, os redemoinhos caóticos emergem, numa surpresa maldita, rasgando as peles, os órgãos, até mesmo os ossos. Mas era paz, era a porra da paz que estava aqui. Nada de vibrações eufóricas, mas eram dias amenos, singelos, por vezes bons. De repente seu corpo é mergulhado num sem fim de extremos. Ah, pequena, como te explico o inferno sem te jogar seus pedaços numa flâmula fodida de desespero? É como relatar que há uma estaca ardente me perfurando o peito. As horas são longas e curtas, um paradoxo que rouba a vida sem, de fato, matar. Só hoje eu morri 18 vezes por segundo.

Acendo um cigarro agora e sequer faço ideia quando esta porra de dia irá terminar.  Há chance dele acabar comigo antes do fim. Esse noite, talvez, o corpo não vai vencer minha alma destroçada.

Já sentiu o corpo cair de um precipício de mil metros e nunca chegar ao chão? Já sentiu sua vida riscar o fósforo na caixa da sua insegurança? Os ponteiros circularam 4 vezes eu meus pulsos sangram uma dor que eu, tola, achei já não mais guardar.

Estava ali. Porra. Estava tudo ali, as dores, os medos, a raiva, a ojeriza desse meu eu sujo e surdo que mal sabe se ouvir. E se sabe, não quer, não pode, não ouve. Tanto silêncio entre minhas vísceras, tanto desafeto fulminando entre mágoas empalidecidas e disfarçadas com um sabor adocicado. Queimei minha insensatez na ponta desses cigarros mal tragados. Agora quem queimou fui eu.

Já reparou como as quedas são muito mais duras depois que a gente acredita ter reaprendido a caminhar? Tantos metros, tantos passos dados, um caminho trepidante, mas ainda assim percorrido. Tropecei em meus próprios pés e permaneci desfalecida em mim. Morri pra dentro, fui morrendo numa progressiva corrosão de mim mesma. Logo eu, que não creio nem no sossego nem numa força divina, naquele momento, pedi pra vida me deixar viver longe de mim. Não me caibo, não me sirvo mais. Sou uma blusa grande e desajeitada que veste o próprio corpo. Atrapalho meus dedos, minhas mangas se embolam entre minhas pernas tortas, sufoco meu existir. Permaneci deitada, por sorte deus eis de me afincar a paz nessas minhas feridas abertas.

A dor se derrama entre as parcas entranhas dessa casa

Você é um corpo delgado e curvado na sala ao lado. Um corpo frio, delineado em traços finos, estirado no chão da minha casa. Você habita cada metro quadrado desse meu torpe eu. Mesmo esguia e malgrada, junto a minha ânsia de te ter longe dos olhos meus, sua existência me pesa três tonalidade de cinza e obsolescência. Mesmo que intrépida, sua presença sufoca a fina e latente passagem de ar em meus pulmões.

Você é uma camada amarga de meu inexistir, uma macha sobre o chão que, dia após dia, se espalha pelos cômodos. Se adere às paredes, aos móveis e, por fim, irá me afogar em mim. Não sei bem de sua estadia aqui, é como se sempre houvesse uma ferrugem encrostada naquele canto amargo de minha alma. Um dia eu acordei e a mancha estava maior.

Por deus, como a gente se habitua com a dor, e seu esparramar é tão sombrio e gradual que a gente aceita e quase nem nota. Quando dei por mim, a sala se fora, as janelas abertas se foram, a cortina branca de renda virou um manto espesso e gotejante da árdua existência tua. A dor se derrama entre as parcas entranhas dessa casa. Um dia acordei e você subira na cama. Deixei. Sequer me mexi, porque minhas forças foram usadas para salvar o que me restou da vida. Nada mais restou em mim. Não existo mais.

Em pouco tempo, o que era um quarto vívido e afetuoso, virou um cerceamento de frustrações. Os tons de cinza mórbido se entrelaçaram em minhas pernas, cobriram meu corpo, se assentaram em minhas mãos como luvas perfeitas. Recostando em minha face, a escuridão me tampou os olhos. Mesmo me imobilizando o corpo, preenchendo a casa, mesmo sendo esse absurdo de regojizo e ojeriza, em mim a malgrada existência é eco. Um fenecer constante e interminável. Em mim soa essa tenra incapacidade de me mover.

frias camadas decompostas pelo não mais existir.

Minhas parcas e rotas palavras andam infinitamente ausentes. Nenhuma frase ou contexto tem culpa  desse vazio. Olho ao redor e tudo em mim parece um reflexo meio borrado, um espelho sujo desse meu torto eu, desse meu inexato e inexprimível ser. Andei dias sem ecoar uma palavra, sem permitir que qualquer assombrosa lamúria se reverberasse. Sacudi roupas e de meus bolsos caíram dores de alma. Caminhei e entre meus passos havia o peso da dor, o medo e a angústia entrelaçados em minhas pernas.

Os dias terminam e eu fico sempre com a extenuante sensação de que uma densa nuvem cinza pairou em minha alma. Mas que besteira. Se ainda houver alguma essência espiritual, almática ou enérgica nesse meu falecido e mórbido corpo, as vejo fragmentadas em mil finas e frias camadas decompostas pelo não mais existir.

Carrego pra dentro de mim o que me resta de segurança, mas o amor sucumbiu. Havia afeto, porra, havia um sem fim de cenas doces e os dedos tocavam a paz na alma alheia. Havia brilho nos olhos e um pulsar, ainda que insonso, muito mais vívido. O afeto emerge e ressalva. Mas por deus, sempre há um lado que ama mais, que morre mais e que se deixar ferir mais. Sempre há alguém que sente em excesso e alguém que se ressente. Por isso o amor é um abandono constante. Por isso não te entrego as chaves de casa, das entranhas da intimidade. Por isso mantenho as janelas fechadas e meus toques distantes. O amor exige um estar em ti que me exauri, me inflama e, por fim, destroça meu eu num chão cru do não-saber-sentir.

E, por todos os deuses ou por força alguma, nem pela falta nem pelo excesso. Abandono a casa antes de você chegar porque eu, caminhando em minha fina faixa à 300 metros do chão, sou derrubado pela menor brisa de desafeto. Me debruço em mim e suspeito querer estocar todo meu sentimento no mais fundo de mim para que eu posa, quem sabe, me amar também. Acumular potes de bons ecos pronunciados, sabendo que assim, e só assim, eu me ame. Não aceito gente em casa porque o corpo tá vazio e a alma queimou em brasa de solidão.

ofuscar

Eu olhava tantos corpos e almas vazias. Tantos amontoados de frias camadas de desafeto vagando em ruas escuras. O poste sem lâmpada esconde o demônio dessa gente rota e suja. A luz da lua faz transcender esse resquício de vida que se entrelaça em passos curtos e rápidos de quem não sabe para onde vai.

Eu me deito mais um dia e mais uma noite e mais uma semana inteira se passa antes que eu me dê conta que a vida continua. Minhas garrafas vazias, minhas bebidas amargas e os copos se amontoando ao lado meu. Meus cigarros queimando entre os dedos meus e seu batom marcado entre as brasas do cinzeiro sujo. Um amontoados de almas mal tragadas, palavras mal pronunciadas, malditas palavras.

Me debruço nas janelas para ver esse bando de gente vazia e elas sabem de alguma coisa que eu não sei. Elas correm em suas vias secretas e tropeçam no amargor de existir e negar a consciência de si. Eu me escoro no inexistir pleno e fugaz e intrépido de não querer estar aqui. Quanta besteira! Dias escassos e sombrios de uma flamejante necessidade de manter-me em pé, sem a capacidade de estar sobrevivendo. Morri sete vezes, entre sete almas, em um sem fim de corpos que me tocaram. Tolice, um bando de corpos sem alma se entrelaçando no meu vazio e nenhuma paz conquistada, nenhuma alma absolvida, nenhuma essência tragada.

Só seu último resquício nessa casa vazia que eu sequer habitei. Me alimento dos fragmentos extenuantes de você que nunca me deu comida. Me alimento do oxigênio torpe de você que nunca me foi ar. Só um cigarro mal tragado me queimando os lábios e nenhum beijo, nenhum afeto debruçado nessa gente toda e tola.

Silêncio

Não tem ninguém do lado de fora. Mas tudo bem, também não há ninguém aqui dentro. Essas paredes frias e finas deixam escapar o eco do silêncio. Essas rachaduras me deixam vislumbrar aquilo que evito encontrar nos espelhos da alma. Esse abismo entre a existência e o pertencimento. Ah, bobagem, nunca existiu nada além desse meu eu torpe e sujo e cansado.

Ah, tenho estado tão cansada nesses últimos tempos. Nada mais do que um corpo sem cerne, um amontoado de feridas que não sangram mais vagando em decomposição da alma. Os dias já foram doces, foram bons, já foram dias. Agora a paz é um caco reluzente no canto oposto da minha sala. A calmaria é um espelho estilhaçado que ocupa a parede inversa dessa casa. Tudo que posso, por deus, tudo que me é cabível de ser feito é me sentar num canto mal iluminado desse cômodo e observar o que restou dos dias bons. Quase chego a tocar o esplendor de reviver. Mas o que me tece os dedos é tão somente o fenecer em três tons abaixo de um sussurro.

Seis flores debruçadas nesse chão frio e todas elas morrem sem cor. Se despetalando em um fulgor flamejante. Não há fogo que queime tanto quanto a solidão. Não há chama que encurte mais a essência doce de uma pétala do que a inexpressividade de ser sufocada pela queda. Seis flores caindo em um continum, um ciclo efêmero e constante, curto e inevitável. Antes mesmo da morte tocar o caule, essas malditas flores retornam a cair. O abismo não cessa, pois o medo o alimenta, o rega, o faz florescer. A solidão é um barulho surdo de uma flor morta tocando o chão.

Fui me dilacerando e você nem estava no terceiro andar ainda

Passei três dias tentado tirar de mim essa agonia extenuante, essas palavras um tanto quanto duras, um tanto quanto sujas. Passei dias de penúria, dias de escuridão tenra. Passei dias em que o corpo frio do fenecer se debruçou ao meu lado, me tocou as costas da mão. Fechei os olhos e morri antes de você chegar.

A gente vai escrevendo pra salvar o que restou da alma. Se é que ainda resta. Mas alguma coisa aqui dentro ainda agoniza, ainda reverbera, então a gente enche centenas de linhas sem sentido só pra fazer valer esse eco mudo, esse eco repetido à exaustão de um socorro que não vem e que, por deus, não cessa também.

Eu não queria escrever sobre cafés frios, cigarros mal tragados, sobre essa porra de quarto mal iluminado. Eu não queria alimentar a quimera exaurida de sentir. Mas eu já nem sinto mais e se, por um fragmento dos ponteiros lentos desse relógio, eu sentir, sinto demais. Caminho numa linha fina demais para meus pés cansados e meus joelhos frouxos. Caminho numa corda bamba à mil metros do chão e as paredes do abismo gritam em timbres dos meus medos. O vazio sou eu morrendo de fome de mim. O chão duro é feito da minha alma estirada e decomposta de aflição. Meu cerne está corroendo meu eu de solidão e nem mesmo me levantei da cama.

Há três dias deixei meu afeto recostado no trigésimo andar e ninguém veio buscar. Deixei meus bilhetes pelas ruas vazias, pelas esquinas úmidas, pelos cafés abafados. Deixei meus pedidos de socorro pelos corpos mal amados que me visitaram. No fim das contas, não deixei ninguém vir. Ninguém me ver. Tudo bem. Morri pouco antes de você chegar só para não morrer bem diante dos seus olhos. Fui me dilacerando e você nem estava no terceiro andar ainda. Mas tudo bem, eu deixei bilhetes bonitos pela casa. Deixei cafés novos e cigarros intactos. Deixei minha alma ressonando em sete tons doces do seu timbre. Eu fechei os olhos antes de você chegar só para não te ver entrar.

tudo de ti que não me cabe

Você é o canto da sala que eu não consigo atravessar. Você é o perfume concentrado entre o caule e a pétala vívida da flor que eu não alcanço. Talvez você seja aquela sombra esguia que me atiça e suscita curiosidade na sala ao lado. Não, não. Você é a paz que me chegou em uma tarde de caos. E a merda do ser humano é estar preso sempre em um filme ruim em que ninguém pode te salvar. Te juro, menina, como tentei me manter em pé, equilibrada sobre meus pés tortos, sapatilhas sujas, sobre minhas insustentável inexistência sôfrega.

Eu queria te deixar um café e um boa carta. Queria dizer como o sol parecia tão afável quando frestas tocavam-lhe a pele branca. Queria que os ponteiros longos do relógio se arrastassem só para que eu permanecesse sentada aqui, ainda que longe, apenas para admirar tudo de ti que não me cabe: seu sorriso e inquietude. Sua paz e ousadia. Sua mania de tremer o lábio e de desviar os olhos. Parece bobagem, uma porra mal escrita, mas eu queria que a última coisa minha soasse bonita. Então escrevi sobre você.

Com algum asinino divino, meus planos falhem miseravelmente e amanha seja um novo dia. Mas esses tempo andaram matando os resquícios de amor em mim, de vida, de esperança. Os dias comeram minha carne, dedos e braços. Engoliram minhas lágrimas e me fizeram chorar para dentro. Eu não queria mesmo ser alguém se atirando das janelas, nem caminhando à esmo em ruas de morte. Eu não queria mais ler sobre a solidão de projetar-separa dentro evitando as dores externas. Mas também não ouso crer que alguém haveria de me salvar. O inferno me cercou em um espiral infinito de memórias remoídas. Me sentei no centro do meu melindro e deixei que o fogo fosse, aos poucos, me tronando uma brasa que mal queima.

Te escrevo essas últimas palavras para que tudo que foi chorado fique na folha virada. Por deus, eu olharia por cem dias seu riso e ainda assim os dias seriam poucos para lhe caber a felicidade. Agora eu caminho feito equilibrista no alto da corda banda, em escorrego entre um arfar denso de quem abandona metade dos dias e pede socorro num titubear duvidoso de salvação. Se eu pudesse ser qualquer coisa, por deus, eu seria uma paz danada, eu seria um livro entreaberto no seu poema predileto. Se eu pudesse ser o encanto que nasce de deus olhos cansados, eu seria. Mas se eu pudesse me ser em qualquer outra coisa além de mim, eu correria vinte quadras escuras só para deixar meu passado perdido e, quem sabe, a dor de me habitar fosso derrubada numa esquina suja.

Se eu pudesse, menina, eu me sentava numa esquina mal iluminada e me desmontava para ver se sobra algo a ser salvo. Se sobrar, queria te entregar. Mas agora a esquina parece gelada, o fim é um chuva fina caindo em minha cabeça e ninguém vai notar se em me escorar nessas paredes sujas de desafeto.

Antes de você chegar em decidira quebrar os espelhos, limpara casa, varrer as calçadas, desmanchar os laços. Deixei que a dor fosse maior do que a vontade ou a capacidade de sentir qualquer coisa. E se deixo qualquer coisa mal acabada ou mal escrita foi porque seus olhos dispendiosos me atrapalham os planos. Não queria esquecer nada na cama ou na mesa, mas acho que deixei minha alma e meu afeto todinhos lá. Cuida do que foi teu, cuida da melhor parte final dos dias maus.

as janelas altas também choram

Eu acho que tudo bem ser invadida pela angústia, tudo bem a dor e o medo nos tomar pelas mãos. Acontece. Olha pra você, menina. Nenhum dos seus dias mais doces e leves – mesmo que sempre abrangentes -, seriam capazes de secar suas dores hoje. Suas lágrimas pesadas são riscos de sangue em sua pele branca.

Olha para esse gente toda.. Hoje nem meus cigarros me assossegariam o peito e minha alma se retorce dentro de mim. A multidão virou uma massa branca e homogênea e eu não faço ideia para onde eu tô correndo. Tudo em mim dói, ainda que não haja mais o que se sentir. Eu poderia brincar de morrer dez vezes e nenhuma me daria medo pois o inferno consumiu meu peito, minha alma e minha esperança. Que tipo de ser humano sujo persiste sem esperança alguma? Nem as cervejas geladas, os cigarros fortes, as bebidas baratas que queimam meu estômago me tiram essa aflição e furor de flertar com o fim. Por deus, minha pequena, como eu tenho tentado viver nesse caos que sou. Tenho me escorado nas paredes de minha alma e, por garantia ou covardia, fechei as janelas do apartamento. Rabisco pedidos de socorro e atiro em pequenos papéis rasgados. Ninguém nunca sobe. Ninguém nunca olha para cima. Bando de filhos da puta do caralho. Todos vendados por suas vidas repetidas e suas lascividades cheias de pudor. Que tragédia somos nós.

Esses dias bebi até quase sentir a alegria de estar fora de mim me tocar as costas da mão. Esses dias – lembra-se do vinho que você deixou aqui?- pois bem, dias desses, eu, vinho, umas músicas tristes e senti minha dor diminuir um tiquinho a cada gole. Mas foi bem pouco, te juro. Sorri de leve pensando que talvez haja gente por ai que passe bem pelos dias, ao menos a maioria deles. Me escorei na janela e o chão era um resquício de vida. Morrer não tem glamour. Não ouse achar que falo isso como quem ressoa Bukowski e seus poemas solitários. Morrer é podre, é sujo, é desesperador. É passar os dias tentando arrancar de si algo que, no fundo, é inteiramente você. Você é a dor, o medo e a ansiedade. É a raiva, o receio e a queda do décimo andar. Você é a brasa quente queimando a pele só para sentir de novo qualquer coisa que te garante que, cedo ou tarde, para de doer. O sangue para, as cicatrizes fecham, a dor cessa. O inferno de dentro não. Você se senta no vão das portas e se permite verbalizar um quase socorro, uma quase oração “deus, universo ou o diabo que seja, me leva de mim, anda insuportável existir”. Mas nada acontece. Nada nunca acontece além da dor continuar e corroer sua essência. Um fogo que te tranca a garganta e afasta você dos olhos audaciosos de quem, insolitamente, vive.

Aqui do décimo andar não dá pra ver direito, mas as janelas altas também choram, o céu muda um pouco de cor quando alguém extremamente bêbado e quase feliz se debruça no parapeito e pede, por deus, se há vida depois de fenecer de dentro para fora, me deixa viver. Acho que era só porque lembrei que precisaria comprar outro vinho para você, outro cigarro. Te liguei, mas não atendeu. Chamou três, quatro, dez vezes, já nem sei. Tudo bem, joguei alguns papéis de socorro, mas não havia ninguém na rua. Pensei em pedir ajuda, mas só consegui me deitar no chão da sala e pedir pra vida, enfim, me deixar viver, me deixar morrer. Sem beleza ou glamour, sem poesia barata embalando essa porra de cena mal contada, mal narrada. Por dentro invejei aquela flor que acordou seca e despetalada. Joguei o resto de vinho nela e fechei os olhos. Me deixa ser flor, me deixa ser flor, me deixa derrubar uma pétala do décimo andar.