Ser Qualquer ser

Há dias a garrafa derramada da geladeira está manchando o chão numa poça à cor de sangue. Tudo bem. Eu a olho daqui num vislumbre quase artístico. Há dias não ouço mais a janela ranger baixinho como costumava fazer, os ventos lá de fora perderam a encantadora força ou o barulho aqui de dentro ficou cansativamente mais ensurdecedor? Por deus, queria me encolher num cantinho ameno dessa casa. Hoje queria um dia de paz se é que ainda há paz nesse mundo.

Você que me rouba a segurança com a insensatez de uma frase mal acabada, me desfalece em mil pedaços de mim ao ameaçar agir e nunca completar a ação. Você que não é ninguém e mesmo assim insiste em ser plenamente tudo e todos e absolutamente o mundo todo em mim, me faz morrer cada vez que insisto mais um pouco que não será, não pode ser, mais nada em mim. Porque essa minha ausência de mim, esse eu faltante em mim faz com que qualquer um, qualquer corpo e alma sejam capazes de bastar. Qualquer ser possa caber aqui já que eu, em minha incapacidade de me ser, não sou. Não posso ser. Então aceito essa eterna tábula rasa de seres mal amados e mal amáveis, só para que me sejam qualquer coisa preenchível, ocupável, tangível, permeável. Só para que ocupem isso que chamo, erroneamente, de eu. Pois não sou, há muito não me sou.

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Penumbra

A noite derruba seu manto escuro em meus olhos e não há vestígio que a luz voltará no outro dia. Ela não volta há tempos. Agora sou uma migalha entre vãos que nada são. Sou um pedaço pequeno demais de mim que se perde entre meus medos e receio de ser exatamente o que sou. Porra, fui me escondendo, me dilacerando, me forjando tanto, por tanto tempo que me tornei o pior tipo de essência funesta que não sou. Ou sou, já não sei mais. Por deus, não sei se sou exatamente isso que carrego em cicatrizes e dores mal sentidas. Não sei se sou tudo aquilo que acho que deveria ser.

Um dia eu fora alguém passível de ser amado. Porra, eu era doce e os dias eram bons e eu fui amor ao lado teu, menina. Hoje sou esse emaranhado árduo de não saber o que sou, por isso eu abandonei o barco e a alma. Abandonei os dias e as noites, os quartos, a casa e os encantos. Não sobrou muito entre as cortinas. Ao anoitecer a noite recobre de escuridão o que há tempos já é breu em mim.

Pecados

Há tempos eu fora embora. Não de casa, pois ainda habito esses cômodos vazios, esses quartos escuros e melancólicos, essa sala incomodamente solitária. Fui embora de minha essência, minha paz, meu bom grado. Fui embora dos dias bons, do acalanto, da paz de Helena. Nenhum entardecer sussurra melodias doces em meus ouvidos. Nunca mais um toque me enseja qualquer futuro, meu presente queima feito um quimera fodida e nenhuma esperança recompõe essa alma destroçada e funesta que se despende do meu eu.

Se eu pudesse, eu terminava de ir embora. Se eu pudesse, me escorava no muro mais escuro só para minha dor passar e não me ver. Se eu ousasse, correria de olhos fechados até o fôlego me obrigar a parar, apenas para enxergar um local irreconhecível e ser incapaz de retornar ao que me mata. Se a vida me permitisse, eu me largava na primeira esquina mal iluminada e rumava de volta pra mim. Se eu soubesse me ser ainda, por deus, se eu lembrasse como existir num não amontoado desalmado de feridas e dores costuradas, eu me entrelaçava aos dedos meus, caminhava os passos meus, me vestia de mim, me sufocava de quem eu de fato sou, se é que sou. Queria eu rever o mundo com os olhos que um dia o olhei.

Agora meus dedos sangram, meus ossos doem, minhas vísceras rasgam cicatrizes de dores que não cessam. Hoje meus demônios submergiram e, aos poucos, me impediram de respirar. Hoje meus demônios se penduraram em meus pulsos, braços e pescoço, sentaram em meus ombros, adornaram meu colo, repousaram em minha barriga. Hoje eu quis correr de mim pois tudo que me sobrou foi a vergonha de não ter mais vergonha de mim. Me acostumei tanto com meus monstros internos que, hoje, quando eles saíram de mim, eu os reconheci como meus. Como eu. E apenas tive vergonha de ser esse eu tão desumano perto dos outros humanos tão salvos de seus demônios internos. Seus pecados perdoados, como num aval social, seus corpos todos vagam pelas ruas e passam bem. Nenhuma cicatriz exposta, nenhum demônio afincado feito uma lança cega ao peito, nenhum estilhaçar da alma corroendo a existência humana. Vou me decompondo em meu próprio ato de existir. Por deus, orei três vezes para que alguma de minhas dores finalmente me matasse, me eximisse de mim. Deus não me ouve, não me ouvirá nem em uma centena de pedidos mudos. Eu sou meu próprio anjo decapitado. Eu sou quem afiou a estaca, quem alimentou o demônio, eu sou quem apagou a luz da rua. Eu e tão somente eu sou responsável por marcar à pele minha morte sem nunca, de fato, morrer. Deus não acredita em mim, mas tudo bem, eu também não acreditaria.

Sou só um corpo curvado do constrangimento de ser exatamente o que se é: o demônio interno que criei e agora me comeu.

Matamos o amor 3 vezes

Matamos o amor 3 vezes.

Entre nossos dedos frios e toda a ânsia por sermos amados, entregamos um coração vazio.

A primeira vez ninguém dirá que foi mentira. Menina, os sonhos eram latentes e sua presença me era tão pulsante. Você me era desejo em chama e, por deus, quem negará que nosso amor não sobreviveu ao ápice do mais puro querermos-nos?

Eu era a mais alva essência de te desejar, e fui, minha pequena, fui o chão frio do desconcerto, fui a flâmula que envolve e dilacera todo o tipo de ser amante. E você me foi todo o eco, toda a calmaria, toda a mais casta e sórdida vontade de ser em alguém além de si mesmo. E foi. Foi em mim e em ti. Foi em nós o que nós nunca mais voltaríamos a ser. E eu sei, só eu sei como nunca voltamos. O amor caiu despetalado num chão cru, duro e mal-amado do nosso primeiro não-suportar sermos de mais alguém além de nós mesmos.

E depois fomos torpe. Num ser sujo, eu te amei. Mentira. Porque minhas falas mudas de te amar foram cada vez mais ecos de te precisar. Nada expressou o quão te quis e o pouco que repeti amar-te mais que a mim me matou. Te matou no sufoco de saber que não fui capaz de aceitar que você não me era em corpo, alma e cerne. E o pouco que te tive me matou. Pouco porque te devorar não me bastaria, nem te faria entender como te amei. E almejei despir-te do mundo e, mais do que isso, despir o mundo de você para que, enfim, houvesse rastro do quão precisante eu era. Mesmo sendo numa dor oca, mesmo sendo num vazio extremo, mesmo matando todo o meu eu, fui me costurando em suas entranhas de modo que me deixei ferir satisfeita, pois a dor que me doía vinha de você. Com seu cheiro, olhos e corpo. Com sua alma sangrando em mim, com meu corpo tilintando carências sufocantes que te esmagariam, mas ainda assim, seria pouco pra ser em você. O amor desceu entre minhas pernas e escorreu pelo chão. Como numa lágrima dolorida, matamos o amor no silêncio do exagero.

Por fim, meu medo de me ser pouco, fez com que eu me sufocasse em você. E o medo de me ser muito me afastou para evitar que você fugisse. Como se houvesse saída. Eu tentei me ser presente nas ausências e não me deixar perder de vista. Bem como tentei ser um espaço maior nas faltas, de modo que não te roubasse o ar, mas ainda assim morri sufocada no meu próprio ato. E não sabendo mais o que ser, nem como ser, eu tive um medo danado de te deixar. Sabendo que eu fui ficando tão você, me precisando tanto de sua pele quente, seus olhos doces e todos os passos seguros que sabia dar ao seu lado, eu me fui privação. Entende, pequena, entende que precisei ser tudo o que nos corroeu, precisei ser o que escapou por entre os dedos e olhos, ser os mais dilacerantes elos para, enfim, saber se era mesmo alguma coisa.

E nós matamos o amor mais três vezes.

Matamos ao negarmos, aceitarmos e vivermos. Matamos por querermos ter sido mais palavra, mais toque, mais chegada. Matamos quando fomos partidas, ecos, medos e fugas. E ao não sermos mais nada. Ao sermos exatamente isso de amarmos um ao outro. De querer ser esse ser amante que, por deus, ama mais do que a si mesmo. E eu fui quem sentiu até a última medida, se é que se pode haver medida para o amor. Mas, me diz, se eu pude me ser tão você, e você tão eu, sordidamente eu, por que o amor corroeu nossos laços? E não que o amor acabou, nada disso! Mas, diz minha pequena, como a gente aceita que ele dorme num chão duro e frio, apenas pelo desconforto de nos berrarmos que ama-se mais do que vive-se, e que te amo mais do que suporto, e que te distancio mais do que aceito, e que, por fim, me agonizo mais do que sobrevivo contigo? Me diz como deito nesse chão frio da indiferença, ainda que eu morra junto, entre pedaços seus que não me cobrem, não me servem. Ainda que seus buracos já não sejam preenchidos com minhas agonias, ainda que a paz que me rouba não te seja repleta. Ainda que o amor arda nos nossos dedos, me diz como me livro desse ser amante que corrompe o que não sou capaz de acreditar: o que te sinto é um necessitante querer-te mais que a mim, mais que suporto, mais que sei lidar. Então, de mim, te digo: me dou.

Escrevo fazendo memória com os tilintares teus que nunca ouvi. 

Estou escrevendo em linhas tortas, em papeis amassados. Estou fumando cigarros amargos e borrando a alma de palavras engasgadas. Estou sentada no breu de minha essência porque as luzes de casa queimaram. O afeto tocou o mais alto grau desse meu eu e se esvaiu. Se decompôs. Se despetalou no sem fim de um fenecer cântico. Mas você não viu. Porra, você não viu ou não quis ver. Entre seus olhos recônditos e seu desinteresse pelo eco desafetuoso, entre o tilintar eufórico do meu eu e o seu sobrepujante ressentimento, sobrou um abismo de flores murchas. Sobrou uma ausência excessiva. Sobrou tudo aquilo que falta em mim, falta em ti e, por deus, nunca ousou somar em nós. Escrevo o que não me coube e sequer sei se um dia me foi pronunciado. Escrevo entre o bem me quer e o estilhaçar do meu peito. Entre a letra borrada e a ausência do ardor sentimental. Porque o afeto é sempre uma lança em chamas, ardendo feito uma brasa vívida. O afeto que não reluta em permanecer em lume sufoca em sua própria temperatura gradualmente resfriada. Ainda que os olhos doces sejam um opulento acalanto, sua alma não mais reverbera a sordidez inefável. Seu mistério morreu em três tons calados e nenhum fulgor resultou de seus toques gélidos. Por deus, às vezes o estrambólico amor se debruça exausto na beira do precipício sem nunca cair, apenas para ainda ser amor, ainda que nunca de fato amado. É isso, esse nosso existir em dois nada mais é do que um amontoado de entranhas desalmadas debruçadas e debilitadas na incapacidade de amar. Ainda que querendo, sufocando, ensejando o amor. Ainda que exauridos pela necessidade de repousar num colo afável, duas matérias sem escopo vagando na linha fina e trepidante do não ser nada mais do que um não amar. Deito agora nesse chão frio, me debruço no meu vazio caótico, entrelaço meus dedos num malgrado de desarmonia costurada aos dias mornos. Nenhum afeto é uma linha resistente capaz de unir essa flor despetalada. Agora escrevo fazendo melodia com a melindrosa habilidade de abandonar as flores mal amadas. Escrevo fazendo memória com os tilintares teus que nunca ouvi.

Um espelho caído

A dor volta. Feito um flecha afiada atirada pro alto, ela volta. Num segundo você está bem, no outro a ponta atravessa seu peito penetrando suas entranhas com um ardor incômodo. Ainda que o caos seja sempre um suspiro interno pronto a explodir, por vezes a gente quase crê que ele cessou, que enfim calou os fantasmas internos.

É sorrateiro o modo como os demônios acordam e, num piscar de olhos, te consomem o corpo e alma, se agarrando aos seus pulsos, pernas e pés. Um segundo após o despertar, entrelaçam suas pernas, entram em seus bolsos, se aninham em seus ombros. Numa rapidez descomunal, o inferno queima diante seus olhos e arde a alma toda. Antes da primeira lágrima sua paz queimou feito uma folha seca. Antes da dor ser exposta, seu peito já se estilhaçou ao chão feito um espelho trincado. Meu corpo caiu ao chão e mal tive tempo de abrir os olhos. Meu eu nem reflete mais nos espelhos destroçados, se é que um dia refletiu.

Antes de escurecer o quarto, antes de recostar as janelas e baixar as cortinas eu queria suspirar palavras de paz. Eu queria pintar as parede de boas lembranças. Por deus, eu queria tamborilar qualquer porra de melodia que não me fira feito brasa. Mas meu peito arde e minha essência já morreu três vezes antes de ver a calma.

As paredes são tingidas com a cor de desafetos envenenados. O amor é um fósforo riscado que incendeia a casa ou apaga antes de se consumir totalmente.

Você, porra, você, com seus olhos perdidos, com a porra do seu afeto embrulhado no egoísmo de sua existência. Você sentada na beira da razão, me empurrando pro meu inexistir. Você que me despetala sem ressentimentos, talvez nem sinta que me rouba a paz, a calma, a alma. Talvez não ouça os gritos mudos de minha pele. Talvez não sinta os toques cegos de desespero de estar aqui sem nunca, de fato, ter existido. Sua voz me mata, me ensurdece, me atira no poço fundo da minha agonia. Seus dedos de jogadora, amarrando mais forte os meus nós, me prendem a circulação e então eu vou morrendo num arfar longo demais. Um suspiro teu me mata em sete tons que eu sequer posso enxergar. Sua presença debruçada em meu fenecer me aflige e nenhuma chave me abre as portas. Você roubou de mim a única coisa que eu haveria de ser: eu mesma.

Eu em minhas dores e medos. Eu em minhas falas tortas e olhos cansados. Sobrou isso, esse pedaço meu, corrompido de seus atos, ferido pelas suas palavras, estraçalhado pelo que não te dói, mas me come a carne e o cerne. Seus dedos me impregnam, sua voz rouca me atira do vigésimo sexto andar e eu continuo vivendo. Minhas dores não escorrem mais pelos pulsos, só as linhas ardidas de uma dor que você não sente. Nem eu, porra, nem eu sinto mais. A dor que me aflige não sai mais. Grudou nas paredes da alma, está tatuada na pele, cicatrizada em minhas falas. A porra da sua vida está incutida em mim e refletindo os demônios que não me deixam dormir. Meu corpo frio se decompõe de dentro pra fora, mas o sangue ainda corre nas veias e escorre no chão. Você é feito uma lâmina interna, me dilacerando os órgão, me fazendo doer por dentro, me matando de um sentir que só eu sei como me arde. Você repousa ao lado e, mesmo dormindo, atrapalha meu sono, rouba as músicas doces que eu poderia ouvir. Você me tampou os ouvidos, me vendou os olhos. Você cortou minha voz, mesmo que suas mãos sujas não me toquem. Você me matou e não me tirou a vida. Sugou minha essência e me revive todos os dias. A porra do seu afeto costura à minha pele um amor que não quero e não sei sentir. A porra das suas palavras me cospem a asfixia de ser parte de você e nunca parte do que era pra ser: eu.

Já sentiu sua vida riscar o fósforo na caixa da sua insegurança?

Hoje o frio foi mais frio e nenhuma luz se acendeu. Me debrucei no chão porque a crueza do cimento é tão reles que pouco me afeta. Em mim tudo corrompeu.

Há dias que o tempo não corria tão lentamente. Olhei seis vezes para o relógio e não passaram das sequer 5 minutos da minha agonia. Se a gente reparar bem, nossa angústia está respingando dos ponteiros lentos. Três gotas no papel amassado e eu não sei como te dizer que, por vezes, os redemoinhos caóticos emergem, numa surpresa maldita, rasgando as peles, os órgãos, até mesmo os ossos. Mas era paz, era a porra da paz que estava aqui. Nada de vibrações eufóricas, mas eram dias amenos, singelos, por vezes bons. De repente seu corpo é mergulhado num sem fim de extremos. Ah, pequena, como te explico o inferno sem te jogar seus pedaços numa flâmula fodida de desespero? É como relatar que há uma estaca ardente me perfurando o peito. As horas são longas e curtas, um paradoxo que rouba a vida sem, de fato, matar. Só hoje eu morri 18 vezes por segundo.

Acendo um cigarro agora e sequer faço ideia quando esta porra de dia irá terminar.  Há chance dele acabar comigo antes do fim. Esse noite, talvez, o corpo não vai vencer minha alma destroçada.

Já sentiu o corpo cair de um precipício de mil metros e nunca chegar ao chão? Já sentiu sua vida riscar o fósforo na caixa da sua insegurança? Os ponteiros circularam 4 vezes eu meus pulsos sangram uma dor que eu, tola, achei já não mais guardar.

Estava ali. Porra. Estava tudo ali, as dores, os medos, a raiva, a ojeriza desse meu eu sujo e surdo que mal sabe se ouvir. E se sabe, não quer, não pode, não ouve. Tanto silêncio entre minhas vísceras, tanto desafeto fulminando entre mágoas empalidecidas e disfarçadas com um sabor adocicado. Queimei minha insensatez na ponta desses cigarros mal tragados. Agora quem queimou fui eu.

Já reparou como as quedas são muito mais duras depois que a gente acredita ter reaprendido a caminhar? Tantos metros, tantos passos dados, um caminho trepidante, mas ainda assim percorrido. Tropecei em meus próprios pés e permaneci desfalecida em mim. Morri pra dentro, fui morrendo numa progressiva corrosão de mim mesma. Logo eu, que não creio nem no sossego nem numa força divina, naquele momento, pedi pra vida me deixar viver longe de mim. Não me caibo, não me sirvo mais. Sou uma blusa grande e desajeitada que veste o próprio corpo. Atrapalho meus dedos, minhas mangas se embolam entre minhas pernas tortas, sufoco meu existir. Permaneci deitada, por sorte deus eis de me afincar a paz nessas minhas feridas abertas.

A dor se derrama entre as parcas entranhas dessa casa

Você é um corpo delgado e curvado na sala ao lado. Um corpo frio, delineado em traços finos, estirado no chão da minha casa. Você habita cada metro quadrado desse meu torpe eu. Mesmo esguia e malgrada, junto a minha ânsia de te ter longe dos olhos meus, sua existência me pesa três tonalidade de cinza e obsolescência. Mesmo que intrépida, sua presença sufoca a fina e latente passagem de ar em meus pulmões.

Você é uma camada amarga de meu inexistir, uma macha sobre o chão que, dia após dia, se espalha pelos cômodos. Se adere às paredes, aos móveis e, por fim, irá me afogar em mim. Não sei bem de sua estadia aqui, é como se sempre houvesse uma ferrugem encrostada naquele canto amargo de minha alma. Um dia eu acordei e a mancha estava maior.

Por deus, como a gente se habitua com a dor, e seu esparramar é tão sombrio e gradual que a gente aceita e quase nem nota. Quando dei por mim, a sala se fora, as janelas abertas se foram, a cortina branca de renda virou um manto espesso e gotejante da árdua existência tua. A dor se derrama entre as parcas entranhas dessa casa. Um dia acordei e você subira na cama. Deixei. Sequer me mexi, porque minhas forças foram usadas para salvar o que me restou da vida. Nada mais restou em mim. Não existo mais.

Em pouco tempo, o que era um quarto vívido e afetuoso, virou um cerceamento de frustrações. Os tons de cinza mórbido se entrelaçaram em minhas pernas, cobriram meu corpo, se assentaram em minhas mãos como luvas perfeitas. Recostando em minha face, a escuridão me tampou os olhos. Mesmo me imobilizando o corpo, preenchendo a casa, mesmo sendo esse absurdo de regojizo e ojeriza, em mim a malgrada existência é eco. Um fenecer constante e interminável. Em mim soa essa tenra incapacidade de me mover.

frias camadas decompostas pelo não mais existir.

Minhas parcas e rotas palavras andam infinitamente ausentes. Nenhuma frase ou contexto tem culpa  desse vazio. Olho ao redor e tudo em mim parece um reflexo meio borrado, um espelho sujo desse meu torto eu, desse meu inexato e inexprimível ser. Andei dias sem ecoar uma palavra, sem permitir que qualquer assombrosa lamúria se reverberasse. Sacudi roupas e de meus bolsos caíram dores de alma. Caminhei e entre meus passos havia o peso da dor, o medo e a angústia entrelaçados em minhas pernas.

Os dias terminam e eu fico sempre com a extenuante sensação de que uma densa nuvem cinza pairou em minha alma. Mas que besteira. Se ainda houver alguma essência espiritual, almática ou enérgica nesse meu falecido e mórbido corpo, as vejo fragmentadas em mil finas e frias camadas decompostas pelo não mais existir.

Carrego pra dentro de mim o que me resta de segurança, mas o amor sucumbiu. Havia afeto, porra, havia um sem fim de cenas doces e os dedos tocavam a paz na alma alheia. Havia brilho nos olhos e um pulsar, ainda que insonso, muito mais vívido. O afeto emerge e ressalva. Mas por deus, sempre há um lado que ama mais, que morre mais e que se deixar ferir mais. Sempre há alguém que sente em excesso e alguém que se ressente. Por isso o amor é um abandono constante. Por isso não te entrego as chaves de casa, das entranhas da intimidade. Por isso mantenho as janelas fechadas e meus toques distantes. O amor exige um estar em ti que me exauri, me inflama e, por fim, destroça meu eu num chão cru do não-saber-sentir.

E, por todos os deuses ou por força alguma, nem pela falta nem pelo excesso. Abandono a casa antes de você chegar porque eu, caminhando em minha fina faixa à 300 metros do chão, sou derrubado pela menor brisa de desafeto. Me debruço em mim e suspeito querer estocar todo meu sentimento no mais fundo de mim para que eu posa, quem sabe, me amar também. Acumular potes de bons ecos pronunciados, sabendo que assim, e só assim, eu me ame. Não aceito gente em casa porque o corpo tá vazio e a alma queimou em brasa de solidão.

ofuscar

Eu olhava tantos corpos e almas vazias. Tantos amontoados de frias camadas de desafeto vagando em ruas escuras. O poste sem lâmpada esconde o demônio dessa gente rota e suja. A luz da lua faz transcender esse resquício de vida que se entrelaça em passos curtos e rápidos de quem não sabe para onde vai.

Eu me deito mais um dia e mais uma noite e mais uma semana inteira se passa antes que eu me dê conta que a vida continua. Minhas garrafas vazias, minhas bebidas amargas e os copos se amontoando ao lado meu. Meus cigarros queimando entre os dedos meus e seu batom marcado entre as brasas do cinzeiro sujo. Um amontoados de almas mal tragadas, palavras mal pronunciadas, malditas palavras.

Me debruço nas janelas para ver esse bando de gente vazia e elas sabem de alguma coisa que eu não sei. Elas correm em suas vias secretas e tropeçam no amargor de existir e negar a consciência de si. Eu me escoro no inexistir pleno e fugaz e intrépido de não querer estar aqui. Quanta besteira! Dias escassos e sombrios de uma flamejante necessidade de manter-me em pé, sem a capacidade de estar sobrevivendo. Morri sete vezes, entre sete almas, em um sem fim de corpos que me tocaram. Tolice, um bando de corpos sem alma se entrelaçando no meu vazio e nenhuma paz conquistada, nenhuma alma absolvida, nenhuma essência tragada.

Só seu último resquício nessa casa vazia que eu sequer habitei. Me alimento dos fragmentos extenuantes de você que nunca me deu comida. Me alimento do oxigênio torpe de você que nunca me foi ar. Só um cigarro mal tragado me queimando os lábios e nenhum beijo, nenhum afeto debruçado nessa gente toda e tola.