O inferno é um afeto maldito me queimando as mãos.

Esse é um daqueles malditos dias em que nada te acalma, que nada te traz paz, que nada sucumbe ao silêncio afável de uma paz que, talvez, a gente sequer tenha tido. Hoje as músicas foram tristes, os filmes não ma atraíram e corpo nenhum me atiçou a euforia afetiva.

Milhares de almas vagando entre becos sujos e festas caóticas, sequer uma alma para te recolher em braços confortáveis abraços apertados. Alma também dói, minha pequena. A minha tem sido uma ferida exposta há dias e não há muito o que eu possa ou saiba, ou possa querer fazer. Deixo minha aura quase que fora de mim. Já olhou um corpo se decompor bem em frente aos olhos teus e, diante de uma ojeriza extrema, tudo que resta é uma paz por aquele que finalmente se libertara de si mesmo?

Mas que merda a gente tá fazendo com isso tudo? Desisti de meus dias e minhas noites, ancorei minha angústia nesse quarto escuro e, por deus, vivo num ambíguo desejo que não abram a porta, mas me resgatem daqui.

Os dias foram passando e eu me calei num silêncio sombrio dentro de mim mesma. Três saídas em minha frente e tudo que faço é sentar-me em minha inexistência e deixar que meus monstros comam as pontas de meus dedos, meus braços, pernas e, finalmente, me devorem. Assim, quase numa utopia escancarada, eu estarei enfim dentro de mim. Deixo o amargo de minhas flores desabrocharem na janela escura. Evito frestas de sol e espero que os dias morram junto comigo. Meus quartos tornam-se refúgio extenuantes que me servem de alimento e veneno. Sobrevivo pois me recuso a viver fora dele. Me mato porque toda vida se constitui fora daqui, fora de mim. Sou um abismo intransigente de fenecer. A vida passou e essa porra de nada mais persiste em mim feito um linha fina e inabalável. Respiro a última essência envenenada e só me arde o pulmão. Nada mata o que há tempo já morrera.

Então alguém chega, chega com risos falos e uma insegurança latente que te faz querer arriscar, mas atiça todo o estupor amedrontado em ti. Alguém vem com tudo que há tempo você se esforçou para se livrar. Ninguém tem, sequer deveria ter, paciência para lidar com quem não sabe caminhar à beira do abismo. Eu compreendo que o afeto é pulo cego. Mas, deus, jurei querer ser exatamente isso que me transformei. Ainda que a solidão me fira a sete estacas cegas, ainda que o ferro afunde meu peito e faça meu eu inteiro se contorcer, eu prefiro a solidão do que dividir quem sou, do que expor tudo que demorei tanto para introspectar em mim, sem linhas ostantáveis, sem falsas ilusões. Não quero alguém me roubando de mim e me deixando vulnerável ao meu próprio eu.

Arrumo minhas malas. Bobagem, sequer as fiz, se as fiz, sequer as trouxe. Vim duas ou três vezes e sua intensidade me trouxe uma temorosa lembrança de minha ausência. Me deparo com tudo que tu me és e que, um dia, alguém me fora. Olha, quanta sordidez. O ser humano é esse poço de mal amores, mal afetos, palavras mal ditas, malditas palavras. O ser humano é um acúmulo intenso de deveres e a gente cobra tanto que o outro tenha por a gente uma porra danada de responsabilidade afetiva. Eu me debruço nessa janela vazia, fumo meu cigarro amargo, eu trago o afeto que queria, mas sou humanamente incapaz de lidar. Eu sei dos meus conceitos e meus cigarros mal acabados, fotografo mentalmente minha própria cena forçada de desinteresse só para que você lembre que eu quis, porra, como eu quis ficar e ser doce, e ser alguém capaz de ser qualquer coisa boa para você. Mas eu não posso matar a última essência do que resta em mim. Por isso eu me vou.

Reviro as gavetas atrás de seus isqueiros, garrafas mal acabadas de vinho, talvez um pingente que me dera de presente. Reviro a gaveta atrás de um afeto que jurei ser capaz de querer e saber lidar e saber retribuir. Não há nada.

Pela última noite, me deito nessa cama grande demais e me cubro com as ausências, com suas palavras falaciosas de meu bem-me-quer, e sua repugnância almática me aquecendo a insegurança. Me cubro com o oco do meu eu e a certeza que sou nada mais do que alguém que te vê e te quer e te ama apenas, e tão somente apenas, ao longe. Seu corpo perto, sua alma perto, suas porra de expressão exaltada em minha frente me oprime, me encurrala, me retoma a tudo aquilo que um dia jurei nunca mais aceitar ser. Não aceito. Por deus, não quero mais aceitar ser quem luta contra a última essência de si. Tudo em mim morreu, senão um décimo fragmento que juntei de meu estilhaçar. É ele que manter mantém, ainda que intocável, sensível e vulnerável, me mentém obstinada.

Se for pra vir, deus, se for pra entrelaçar minh’alma a algo além, tem que que me dar chão seguro, tem que me olhar além desse frágil eu, tem que garantir a paz e o caos das palavras, mas nunca me tirar acalmaria. Meu corpo arfa a solidão. Ninguém entra. Ninguém há de entrar. Por deus, o inferno são almas sem copo e corpos sem alma. O Inferno é você que não me deixa partir, mas me prende a tudo que jurei esquecer. O inferno é um afeto maldito me queimando as mãos.

epiderme

Eu queria escrever alguma coisa bonita. Queria te deixar cem linhas de um poema rimado e de um história calêndula. Queria que minha letra soasse segura e que a porra do papel não evidenciasse que andei chorando. Quero limpar os cinzeiros antes de partir, esvaziar as garrafas, quero trocar o disco. Essa droga de música triste não melhora nada o timbre persistente dessa casa, desse meu eu.

Os dias correram até que amenos, menina. Passaram entre idas e vindas ao trabalho, sorrisos apagados e um certa tranquilidade nesse meu eu. Mas assim como o mar calmo precede ondas catastróficas, em mim a quase paz antecede a asfixia sem fim. É como olhar seus olhos e não saber mais o que ousou me encantar. É como precisar quebrar os espelhos de casa para que, porra, nada mais me lembre que eu continuo exatamente aqui, para que nada mais me quebre.

Andei fechando muitas portas nos últimos anos, e quando alguém decide, por fim, manter alguma aberta, eu sinto cada fragmento podre de mim esvaindo. Mas não é como se isso fosse um alívio, um desvincilhar-me de minhas feridas. É como se cada pedaço nefasto meu pingasse em gotas amargas nesse chão frio. É como ver meus dedos rasgando minhas cicatrizes e não faço ideia se há mais dor em olhar meu vazio interno ou sentir a pele se dilacerar em mil pecados sórdidos. Não ouso existir. Por deus, pedi a ele, à energias, ao universo ou qualquer porra que possa haver entre essa linha humana e sublime, me deixa existir. Ajoelhei em minha frágil e perene estadia em mim, pedi  a deus ou ao diabo para me deixar existir. Assim, só existindo de fato eu posso morrer e deixar a paz florescer como um girassol que percorre os raios. Talvez, com alguma sorte, sobrou espaço para algo a mais em mim.

Eu não faço ideia mais por onde andam suas falsas alegrias, seus timbres amenos. Jurei não deixar nada mais doer mim, jurei não terminar os dias com frases amargas e agonias intragáveis. Por isso me ludibrio em minhas palavras, por isso te lanço falsas promessas e sorrisos enganosos. Ainda minto e me dou conta que bordo um alegria que não sou capaz de praticar. Não me entenda mal, a alegria que te juro é o primeiro ponto a ser puxado nessa minha cicatriz. Como quem atira num pássaro recém liberto, você me fere sem sequer me matar. Agonizo em dias de frio.

Agora eu queimo a brasa do cigarro em minha pele só pra ter certeza que ainda resisto. Sentir dói pra caralho, mas não sentir perfura sete camadas e é um ardido fodido. Se meu peito fosse folha, ele estaria na décima flâmula, queimando de dentro para fora e espalhando cinzas. Se eu fosse qualquer merda além disso que sou, eu estaria debruçada à luz do sol de um terraço qualquer. Eu terminaria esse vinho barato e, antes de terminar essa carteira de cigarros, o sol me tocaria. Deus finalmente me traria a paz. Mas eu não acredito em deus e, entre uma cerveja quente e um antidepressivo, eu vivi três infernos diferentes. Deus também não acredita em meus suplícios, ele não me deu a benção da paz. Nem a coragem do fim. Eu só queimei a pele para lembrar que, mesmo não sentido, eu sinto muito.

essa frágil e fodida alma que nada é

Escrevo na ânsia para que não leia. Mas deixo esses bilhetes espalhados pela casa.

Escrevo para sobreviver à essa merda toda enquanto o rádio toca alguma melodia que me arde o peito. Acendo um cigarro só pra ter algo seguro entre as mãos, perdi o mundo e vi meus dias escorrerem entre essa minha pele fria.

Leio cartas antigas e a dor caligrafada me acompanha até hoje. Será, por deus, será que você leu alguma dessas porcarias? Escrevi para sobreviver e são minhas próprias palavras que me matam.

Já tentou, pequena, externalizar sua dor? É um processo medonho, um estigma, um prego perfurado três vezes em seus olhos.

Acendo um cigarro para que algo amargo me traga à vida, já que a vida amarga me dilacera o peito. Posso tomar um banho? Posso adentrar seu chuveiro, corpo e alma como quem se refugia de si mesmo? Não posso mais suportar meu reflexo distorcido no espelho do banheiro. Meu existir distorcido, se é que existo.

Algum bom escritor já deve ter dito isso em um belo poema: viver é uma dor insuportável. Ou talvez algum velho sujo entre bares e garrafas vazias. Não importa.  Minha vida é feito uma flecha mirada no centro do meu peito e se eu a arranco, toda minha alma se esvai.

Talvez eu devesse ver um filme, tomar um remédio – tenho feito terapia, yoga e bebido chá. Tenho tomado meus remédio, tenho sustentado essa porra de ausência em mim. Tenho sido tudo que não sou e só me restam minhas letras tortas e rabiscadas rapidamente. Só me restou um corpo vazio e ninguém mais pode salvar.

Escrevo para que fique registrado a dor e angústia. Não que eu ache digno registrar afetos mal entregues. Mas preciso pra caralho tirar de mim o peso da renúncia, da negação de mim mesma. Preciso escrever cem cartas tristes para que alguém veja minha dor. E porra, tá doendo pra cacete. Tá me dilacerando, matando, rasgando minha pele de cima à baixo. Tá expondo tudo que não quero ou não posso ser. Estou debruçada no chão da minha própria existência e não sei me levantar.

Mas que fique nos registros escritos dessa vida fodida: eu tentei. Por Deus, eu tentei ser alguém capaz e afável e simpático. Eu tentei ver a humanidade com olhos humanos e se me restou algo de bom, foram minhas letras sujas.

Eu escrevi sobre filmes e poemas e amores e ódio e sexo e prédios altos. Eu escrevi sobre folhas caindo, sobre a beleza do anoitecer e o inferno de um novo dia. Escrevi sobre corpos suados de amor e almas fodidas de desafeto. Eu escrevi sobre a porra do silêncio que me mata e a ausência de mim que me consome. Eu escrevi cem cartas e queimei cada uma delas. Eu inventei um eu todo novo só para não precisar me ser. Inventei você, mesmo que todo o amor que eu caligrafei tenha sido uma externalização que não sou. Escrevi a porra do mundo todo e queimei com a brasa do cigarro.

Escrevo para os mal amados, os loucos, inconscientes, inconsequentes, para os fodidos emocionalmente, para os bêbados e os solitários. Escrevo para os que morrem de ausência e os que matam pelo silêncio. Eu escrevo 30 linhas tortas para os velhos rotos, as moças doces, para os machucados estampados em minha pele, escrevo pra morte que não veio e pra vida que não vingou. Escrevo para a alegria estonteante de quem sabe um segredo amargo sobre estar vivo, para os que creem na finalização divina e, também, aos que entregam suas almas a deuses e suas promessas de vida pós morte. Eu não, acho que sequer tive alma. Se a tive, corroeu-se em três camadas de uma ardência fodida. Escrevo aos que amam demais e a quem, assim como eu, admite o amor feito uma foice decepando cada membro do meu corpo. Escrevo aos filhos rebeldes, aos pais abusivos, aos amores que morreram antes mesmo de serem amor. Por fim, escrevo para salvar em mim essa porra de vida que eu não soube, e não quis saber, viver. Escrevo para salvar de mim a culpa de passar por esses dias como alguém que sentiu demais e feneceu em sua própria ação de ser. Não fui. Não posso ser. Se posso, não ouso pois ser precisa ir além do papel.

Escrevo para que você leia e me perdoe por não ser nada mais do que essa frágil e fodida alma que nada é.

o inferno é no décimo sétimo andar

Então é isso. No fim dos dias nublados e cinzas e pálidos, no fim dos tempos, resta-me somente a mim. No fim das contas sou eu lidando com o amontoado do que restou desse caos, desse devaneio ilógico e inexorável que sou.

Acendo um cigarro e sinto meu corpo pesar docemente. Depois o alívio, a paz, a consciência podre de que ainda me pertenço e, por deus, assim será. Já caiu do décimo sétimo andar, menina? Seu corpo é uma lâmina pulverizada no ar. Ninguém se importa com uma alma sendo, dia após dia, arremessada dos mais árduos abismos, mas um corpo choca. Um corpo caindo é feito uma renúncia ilegal dessa porra toda que a gente não quer ou não sabe viver.

Já amou hoje, pequena? Cem dias de solidão e reclusão e uma alma cada vez mais insigne emudecida em si mesma. Depois a euforia. O afeto transbordando pelos cantos relapsos da derme. O amor – que besteira! Como pode acreditar no amor se bastaram três esquinas mal iluminadas para que seus olhos sejam substituídos por um corpo que encaixa seus quadris com tamanha maestria em quem nunca te jurou amor? Como pode crer em afeto se você doaria sua alma, acolheria outras centenas de almas e corpos e bocas e mãos torpes e sórdidas se as esquinas da vida lhe permitissem?

Já olhou seus olhos hoje, pequena? Nos meus queima uma incessante necessidade de gritar. Um som mudo que me corrói a espinha dorsal, assume uma dor física, asfixia minha alma, se instala em minhas entranhas. Em meus olhos refletem-se cem portas trancadas de quem eu me recuso ser. Mas daria a paz que não tenho para abrir todas elas. Um demônio perfurando meus timbres com estacas do meu próprio ser. Se é que sou.

Meu corpo caiu do mais alto espectro da minha dor. Estatelado no meio da sua sala, da sua alma. Doeu menos do que meus últimos três dias de consciência. Minha essência sôfrega está há meses estilhaçada ao chão e ninguém sequer notou. Te amei até o ardor do sentimento cessar, te amei até o fim dos dias só para saber que os dias, por fim, acabariam. Agora sinto nada. Uma prévia de caos e meu corpo ocupa a rua.

Se eu tivesse a capacidade enfadonha de viver, eu me sentava entre a opulenta luz amarelada de uma esquina suja e te tragava a alma. Seu soubesse viver essas porras de dias sujos, eu trocava de dor, eu te tocava e te comia, engolia em pedaços de um amor fodido que me matou e ninguém viu. Mas continuaria morrendo de amor por tantos outros olhos cheios de pudor.

Se eu soubesse viver, eu secava essas lágrimas e te deitava em meus braços. Mas eu caí da janela enquanto você juntava suas roupas manchadas de um afeto alheio. Acendo um cigarro que resta em meu bolso, pois você me é um gosto amargo que não mais acende em mim. Ninguém liga pr’alma ferida nessa vida fodida.

Oito pétalas mortas, mas a nona resiste em mim feito alma

O amor me protege dos ventos frios, me cobre os olhos dos dias nublados. O amor me dá cor ao cinza, ao breu, me dá luz em meio ao caminho solitário. Me aquece as pontas dos dedos, percorre as veias e envolve meu peito num misto de agonia e bem-querer. O amor me faz parecer seguro estar em pé à beira do precipício sem medo de olhar para baixo.

O amor quando chega é um vento ameno em dias quentes e um casaco impermeável para as inseguranças do mundo. Mas a vida ainda é um continuar caminhando. E eu que cheguei aqui com o receio e a dor e os passos trôpegos de quem mal caminha e, por deus, se caminho, percorro sem direção, titubeio entre os passos frouxos que suspeito me levarem à sua direção.

Ainda que as ruas sejam calmas, ainda que os afetos venham embrulhados nessas esperanças sorrateiras de calmaria, por toda uma vida a estrada foi um despetalar de mal-me-quer. Então protejo esse caule, esse pólen quase sem flor, quase seco. Deixo que o amor me roube o ar, as vísceras. Deixo que me tire as roupas, a fala, que me desabroche o riso de modo a me deixar vulnerável, despida das roupas do âmago. Mas protejo entre meus dedos fracos e ainda gelados essa flor quase morta. Como quem protege o que restou d’alma. Como quem morreu oito vezes, mas guarda um resquício tenro dessa nona vida na petulante e audaciosa vontade de fazê-la viver, fazê-la segura. São oito pétalas mortas, secas e estraçalhadas que caíram ao chão frio da indiferença, mas a nona resiste em mim feito alma.

Meu cerne se espalhou em cem estilhaços afiados e minhas vísceras sucumbem aos meus passos meio tortos, meio arrastados. Mas a porra da nona parte que ainda vive em mim eu guardo. E se puder, por deus, se souber entender que admito pular sem medo do vigésimo andar contanto que me permitas debruçar-me em proteção sobre minha flor quase morta, eu aceito qualquer pedaço dessa loucura que chamam de afeto. Pois em mim tudo é vulnerável, mutável, tudo dói pra caralho, e essa nona pétala quase morta resiste como uma quem flanou à beira do abismo e olhou de volta para si mesmo. Eu colhi a flor fenecida e deixei-a ser essa quase morte dentro de mim. Agora sou essa última tonalidade torpe de flor. Sou o que restou e protejo-me para que assim, e tão somente assim, um dia alguém saiba me fazer reflorescer.

feridas

Eu não queria mais olhar para as pétalas caídas, nem para os vidros estilhaçados, nem para os cacos caídos em mil pedaços ao chão. Eu não queria olhar mais para mim, nem para você. Eu não queria sentir o peso de continuar aqui dentro, onde tudo é um caos, nem sentir o desapreço de deitar mais uma noite sendo vencida pelo meu inexistir.

O velho rádio toca uma melodia ardida, um ritmo que penetra em cada canto dessa sala maldita. Mas ainda é melhor do que o silêncio. Ainda é melhor do que o barulho alto da falta de afeto. Ainda é melhor do que o descompasso dos meus pedaços caindo ao chão.

Eu não posso mais te escrever boas vindas. Eu não sei mais te dizer amenidades. Eu não sei mais calar e, por deus, eu não posso mais te machucar, porque suas feridas me matam. Suas dores meu atingem feito uma lança cega bem no meio de meu peito. Mas se não te arranco de mim, morro em cem gotejares podres e sórdidos de desamor a mim. Se não te deixo cartas escritas à sangue, me traio, me desespero, me sufoco. E suas dores me matam e ferem, ainda que sua presença me asfixie. Seus olhos piscam para me ver mais límpida e eu só sei fenecer entre três lágrimas secas em minha pele.

Deitei no meio da sala, no chão frio, no caos interno. Deitei em suas palavras doces e atitudes egoístas, deitei em seu desamor disfarçado de bem-me-quer. Me acolhi entre a porra da sua necessidade de me machucar, me acolhi em suas mãos duras e olhos reprobatórios. Entre seu cabelo macio e juras de quem me protege mesmo que sem nunca, de fato, me assegurar calmaria. Me deitei em cem brasas acesas em seu existir podre. Deixei você, sendo brasa, me marcar a pele e a alma. Deixei você, sendo fogo, me ferir cada camada da derme. Deixei você perfurar minhas entranhas e costurar a tristeza em meu peito. Agora quero arrancar as costelas para ver se consigo salvar alguma coisa em mim. Agora sinto que um buraco flamejante me comendo a pele seria menos dolorido do que continuar a existir assim – quase que não existindo.

Me aconcheguei no fim das minhas forças. Na inexpressão da minha vibração. Deixei seus cacos de vidro sujos me perfurarem as primeiras camadas da pele, uma dor prolongada e ardida, mas que me faz sentir. Me faz sentir. Me faz sentir. Logo eu que, inexoravelmente, sentia o ópio, o regozijo, sentia a penúria do estar aqui ou sentia nada. Sentir a ferida do corpo me recobre mais uma noite e eu me aninho nesse buraco fúnebre de acordar entre seus desafetos.

Seus olhos dançam com meu caos

Sinto meus olhos pesados e a tristeza começa a recair como um manto áspero em meus ombros. Seus olhos dançam sobre meu corpo e parece tão límpido e reluzente entrelaçar meus dedos aos teus.

Por deus, como eu gostaria que o tempo parasse agora, que esse instante fosse um cem fim de vezes replicado. Como eu queria que existir não me eximisse tanto para que eu pudesse reviver esse sopro de vida mais vezes. E seu corpo dança feito corpo que sente e se sente. Então eu me apego aos seus olhos vageantes só para me fazer crer que talvez, e apenas talvez, me seja permitido flanar despretensiosamente por ai. Seus olhos me despem a dúvida, o medo, as roupas. Me despem de mim e quase creio que minha alma está, enfim, visível. Sua presença come minha face amedrontada, come meus pés tortos, come meus hediondos medos insonsos. Sua presença come minha rebeldia e meu medo do existir. Meu medo de mim.

Os dias me ferem feito uma lança cega. As horas me cobram uma existência perene que há de me fazer fenecer sem nunca, de fato, me matar. Morrendo pétala por pétala que cai ao chão, mas nunca de fato enfraquece a raiz. A tristeza é uma camada cada dia mais grossa que arranha minha derme pálida.

É pra você, minha menina, que te escrevo esses versos tristes, ainda que eu não os queira lidos e sentidos por ti. Te escrevo porque ao lado teu meu eu vibrou e a vida correu um tanto a mais em minhas entranhas. Despertou o desejo insigne de arfar um pouco mais fundo. Doeu pra caralho.

Acontece às vezes. Digo, meus dias cinzas são rompidos por uma felicidade repentina que de feliz não tem nada. É uma euforia melancólica e desesperada. É uma dor aguda e chorosa que invade a ponta dos meus dedos, entra pelas narinas, recobre os poros meus. Uma melodia incessante e repetida à exaustão bem ao fundo de meus ouvidos. Sabe quando o barulho é de tamanha persistência que parece entranhado em nós? Acostumamos com a tristeza assim como acostumamos com o caos incômodo de uma rua movimentada às 3 da manhã. Mas, repare bem, nunca acostumamos com o silêncio absoluto. Isso nos enlouquece, nos deixa sonsos, nos desajuíza. A paz não nos é permitida.

E você tinha um jeito doce de dançar que me fez querer estar ali, querer te olhar e, por deus, viver. Ainda que não ao lado teu, pois não me caberia a pretensão de seus ritmos avulsos. Mas viver. E que, de um modo meu meio torto, meio errado, mas persistente, quisesse continuar mais um tempo habitando esse meu eu incômodo. Descabido eu.

Menina, seu sorriso de soslaio, outrossim, seu riso rompante. Sua estadia que enche a sala e meu eu, enche o mundo todo dessa essência que me torna mais egoísta por te desejar para que assim, quem saiba, eu me deseje aqui também.

Você é aquele sopro doce que range baixo a porta na madrugada. Você é um estandarte que me trouxe pra mim e isso me fere manchando o chão com um sangue frio e vermelho mais veludo do que o seu batom. O pior dos sentimentos é esse equilíbrio astuto que me ousa manter em vida, ainda que nunca de fato vivida. Uma necessidade muda de manter-me inerte e duas linhas acima da asfixia da tristeza mórbida. Uma flexão constante de evitar-me a felicidade pois quando me vem, das poucas vezes que me permito a ocorrência extenuante, isso – essa suposta felicidade – me toma a garganta, se enrola em minhas vias aéreas, se instala em meus pulmões. Os pequenos ensejos tornam-se euforias imensuráveis, ganham proporções intragáveis. As pequenas fugas da rotina fodida se tornam pesos insustentáveis para mim. Toda e qualquer alegria besta se transforma em um sufoco eufórico. Depois, o fenecer, a murchidão, o meu corpo frio se decompondo em sete camadas tenras de inexistência. A felicidade, por fim, reverbera uma crise julgando-me não merecedora de sentir qualquer coisa boa, coisa doce. Um equilíbrio constante entre a tristeza, apenas e tão somente uma linha acima do desespero,  e a desistência perene, pois tudo a mais do que isso torna-se eufórico, torna-se assombroso, torna-se uma praga me corroendo em carne viva.

E seus olhos continuam dançando entre o corpo meu, e meus dedos quase te tocam, e minha alma quase te deseja, e meu eu quase sente uma vontade de arriscar-me o tatear de sua tez. Mas depois da euforia vem um abismo denso demais para que eu possa suportar. Depois do toque teu, me afundo num híbrido obscuro do que sou. Não há necessidade ou habilidade de viver. E quando há olhos fugazes como os seus me atiçando à vida, eu me permito a vontade de arriscar meu abismo. Mesmo que depois da sua pele macia seja um fossa funda sugando meu corpo. Corpo que dança delineado no cerne apaixonante do seu ser tão próximo ao meu que juro, minha pequena, eu quase quero viver esta noite e acordar em meio ao caos do desiquilíbrio.

Aos teus (meus) fins

O afeto nasce num diálogo ameno. Nasce num olhar tímido e num desvio calmo. Nasce naquele cigarro entre os dedos e uma risada sorrateira. O amor nasce no fulgro de não saber bem o que falar ou que fazer com as mãos soltas.

O amor meu nasceu entre o cruzar dos braços e a vontade imensa de jogá-los nos ombros teus.

Os tempos correm, os tempos urgentes são gente, porra, e a gente mal soube o que fazer com os dias e com o medo e com o desconhecido. Mas eles estiveram lá.

E o afeto cresceu, ganhou corpo, ganhou um espaço imenso em mim. Mas não é sobre o tempo bom que correu que quero falar. Já escrevi notas sem fim sobre esse Você que me sustentou os dias que, acredite, não guardo mágoas. Ora, não pense isso de mim, mal parece que conviveu comigo. Até essas frias paredes sabem que jamais seria capaz de reverberar qualquer desafeto por ti. Ainda que o inferno tenha se posto em minha vista uma centena de vezes após seu abandono, ainda que o sentimento vazio ocupou-me feito um vendaval insuportável, jamais ousaria substituir qualquer bom afeto por ti por um pensamento atroz ou iníquo.

Agora, porra, agora abro notas suas, ouço comentários tecidos em timbres esquálidos e, por algum motivo, imagino que coisas nem tão boas andam lhe ocorrendo. O que posso, por deus, o que posso te desejar senão uma imensa paz, uma sorte danada? É tudo que me resta, é tudo que atrevo-me a restar. Porra, passei momentos de caos incalculáveis depois de ti. Sua partida me feriu setes camadas da paz, da alma. Aliás, sua partida ainda me é uma ferida aberta. Uma cicatriz latente que por vezes ainda sangra. Sangrou hoje quando ouvi que, talvez, sua paz não esteja tão em paz, seus dias não soem tão azuis e amenos quanto eu imaginava que devessem soar.

Ahh, pequena, o amor é um diabo disfarçado de uma flor de bem-me-quer quando já arrancou toda a raiz desse caule frágil e dasalmado. Eu que tanto te desejo ainda. ainda que sem flor, sem pétala, se raiz alguma.

Mentira. Menina pequena, te venero, te amo, mas não te desejo. Você me é aquele desejo que almejo só, é tão somente, por não ser mais meu. Mas o amor perdura e quem dirá, quem saberá me dizer por quanto tempo? Há meses, repito num sôfrego desepero por quanto tempo você há de me habitar ainda?

As notícias vagas e inconsistentes suas me fazem crer que eu parti, sai de ti como quem afunda num bolsos pouco usado. Caí entre seus papéis e moedas, caí entre um bolso fundo demais pra ser resgatado. Virei lembrança, virei passagem. Mas e você? Você habita meu bolso mais raso, habita meus dedos, se entrelaça entre meus pulsos, me contorna os pulsos, sobe os braços, se instala no lado esquerdo do meu peito. Você não passa mesmo que toda a admiração tenha passado. Você não parte mesmo que tudo que me lembre de ti me reparta. Me tira. Me atinja feito uma uma lança cega que estilhaça meu peito e corroí minha paz. Você afogou meus dias e minhas noites. Você me fez sangrar em seis tons amargos e ainda assim a merda de seus olhos me olham afetuosos em minhas memórias.

Hoje, sei que seus dias andam cinzas, que seus tempos andam duros e me doeu mais do que minhas próprias cicatrizes. Ainda que saber que não mais sabes de mim não me impede de querer ser tudo que reverbera em ti, e me dói. O amor é um laço cruel que faz doer em um o que pouco importa ao outro. Amo-te ainda que sabendo que outro corpo e outra alma e outra essência toda cuidam de suas feridas.

Se pudesse saber, chorei com o peito ardido a notícia de que seus dias talvez não andem doces e bons e calmos como desejaria. Te desejo paz. Dias bons. Dias doces. Ainda que tudo que me diga que em ti habita outra aura, outro corpo, ainda que eu nem mais exista em sua memória, te rememoro quem deseja a paz. A paz. A paz.

Três vezes, pois meu afeto garante que tu merece. E se não merece, preserva em mim teus olhos saudosos de quem me fez crer em amor. Se não me amas, amo te por dois. Três. Dez. Uma vida e te amo, mesmo que ao lado teu não seja eu. Mesmo que em sua história eu já nem seja uma lembrança boa. Te desejo a paz e me desejo o fim dos vãos que a ausência tua causa. E, porra, me causa.

Quando acordo o sol parece ameno. Parece límpido e calmo. Carregado de um sossego que quase, reverbero, quase me contempla a paz.

As horas correm e por dentro nasce, cresce e se instala aquele velho sentimento de não saber fazer, não saber lidar. Querer, mas por um motivo extenuante, não conseguir fazer nada além de continuar nessa imensidão sofrível e dilacerante.

As horas correm e meu relógio interno berra uma insensatez de permanecer inerte, permanecer sendo essa coisa vaga que eu sou.

A asfixia sobe o peito, mas não se expele pela boca. Ela se afaga, se instala bem no meio de minha gargante e parece que o mundo me exige uma força que não sou capaz de exercer. Sentir, porra, senti as necessidades todas de ser alguém e ter alguém e viver uma vida inteira me eximem, me fenecem, me jogam num canto escuro de mim mesma.

A Ansiedade maldita é um demônio maleável, frívolo, sagas, ele se enrola em meus pulsos e se adentra fundo em meus bolsos. Ele corrói minhas costuras seguras e me faz ter medo de movimentos bruscos. Ele come minhas entranhas e me deixa à beira de mim mesma. Eu choro escondidos entre as portas e corredores, entre os banhos e as noites frios, eu ligo as músicas altas porque o medo da exposição ainda ressoa vergonhoso em meus dias nebulosos.

Eu prefiro a solidão e a quietude, ainda que tudo isso me mate, porque essa ansiedade maldita me faz crer que as pessoas são boas. São boas e eu má. São boas e eu incompetente. São boas e eu o peso da insatisfação.

Eu fujo entre emus dedos e medos, em me escondo entre luzes semicerradas e vazios incompreendidos, eu me escoro em minha agressividade, porque explicar que isso tudo me fere à fogo, a lanças cegas de mim mesma ainda é uma dor que não sei ou não posso suportar.

E quando olho pelas janelas, e quando me fere ver a dor de quem amo, e quando me desvincilho de meus fantasmas obscuros, eu sofro pela dor alheia. Eu recaio no ambíguo sentimento de amar tudo aquelo que me dói em seis tons sujos e machados de amor. E tudo que vejo são vidas que, vezes boas vezes más, correm em alguma direção. E eu abraço essa maldita ansiedade que cresce devastadora em meu peito, sentadas atrás desse vidro sujo, observamos vidas e corpos e almas correndo. E nós, paradas. E nós morrendo. E ela me comendo. Mãos, pés e voz. Agora não sei pedir socorro. Espero que ela me devore de vez porque os dias claros e o sol refletindo próximo me faz doer ainda mais. Espero que ela me coma os olhos e a vontade viver. Espero que ela torne de vez meu eu um peso frio. Olhar minha dor consumir o que resta dos meus pedaços sujos parece um filme ruim que não tem tempo para o fim.

Teus filmes e falas secas

Eu gosto da delicadeza rígida dos franceses. Lembro-me como se bastasse estender o braço para te tocar do dia em que me contou sobre a rispidez dos filmes franceses. “Já notou como, nos diálogos, ‘fere-me os ouvidos’ significa mandar calarem-se?” Você me perguntou sussurrante, numa pretensão de quem vela um segredo. Um tesouro seu e imensuravelmente valoroso. Dividira-o comigo e hoje me debruço na nostalgia de uma película francesa só para me recordar das frases tuas. O silêncio é um espaço valioso em que deixamos habitar muita gente capaz de mal cuidá-lo. Mas em lugar nenhum do mundo encontra-se uma significação tão verídica quanto a paz que nos é tomada ao partilharmos e nos estilhaçarmos em corpos e almas e vidas por aí. Fere-me os ouvidos. Não é, porra, nunca é o barulho aleatório que incomoda, não é a desorganização da rotina, a bagunça dos lençóis que desvirtua o ritmo diário. São nossos silêncios afáveis e solidão deliberada que ficam susceptíveis, tornam-se finas camadas cada vez mais feridas e fragmentadas e machucadas e destroçadas pelo comportamento alheio. É especificamente o timbre de quem fora amor, fora paz, aconchego. São os toques, agora mal quistos, o dedos incômodos, a respiração em tons altos demais. São nossos ouvidos sensíveis captando os cruéis tamborilares estridentes. São meus ouvidos feridos do ácido de suas palavras. São os sons da amargura atribuída ao desafeto que ferem as paredes da alma. Nunca são as portas batidas, as frases mal terminadas, não são as merdas dos objetos caídos ao chão. São suas mãos estabanadas, são seus lábios que se movem em ritmos de ojeriza. É todo o desperdiçar de vida que se culmina numa relação que mal se sustenta mais. Era você me falando como os franceses são cruéis em dizer que odeiam o som da sua voz sem emitir sequer  um timbre alto ou carregado de raiva. Nada sustenta mais o desprezo do que o tom morno e desinteressado ao anunciar que a simples estadia alheia fere seu corpo e alma. Se a presença machuca, nenhum amor sobrara. Nenhuma película francesa encanta. E eu? Eu que me lembro de seus lábios frios me contando como é triste o estilhaçar do afeto, quase te tomo de volta. Quase te recobro. Mas isso é muito pouco, um tracejo menor que nada, um tom a menos da sua voz ao me dizer que minha fala lhe feria os ouvidos. Uma linha abaixo do não existir.