Seus olhos dançam com meu caos

Sinto meus olhos pesados e a tristeza começa a recair como um manto áspero em meus ombros. Seus olhos dançam sobre meu corpo e parece tão límpido e reluzente entrelaçar meus dedos aos teus.

Por deus, como eu gostaria que o tempo parasse agora, que esse instante fosse um cem fim de vezes replicado. Como eu queria que existir não me eximisse tanto para que eu pudesse reviver esse sopro de vida mais vezes. E seu corpo dança feito corpo que sente e se sente. Então eu me apego aos seus olhos vageantes só para me fazer crer que talvez, e apenas talvez, me seja permitido flanar despretensiosamente por ai. Seus olhos me despem a dúvida, o medo, as roupas. Me despem de mim e quase creio que minha alma está, enfim, visível. Sua presença come minha face amedrontada, come meus pés tortos, come meus hediondos medos insonsos. Sua presença come minha rebeldia e meu medo do existir. Meu medo de mim.

Os dias me ferem feito uma lança cega. As horas me cobram uma existência perene que há de me fazer fenecer sem nunca, de fato, me matar. Morrendo pétala por pétala que cai ao chão, mas nunca de fato enfraquece a raiz. A tristeza é uma camada cada dia mais grossa que arranha minha derme pálida.

É pra você, minha menina, que te escrevo esses versos tristes, ainda que eu não os queira lidos e sentidos por ti. Te escrevo porque ao lado teu meu eu vibrou e a vida correu um tanto a mais em minhas entranhas. Despertou o desejo insigne de arfar um pouco mais fundo. Doeu pra caralho.

Acontece às vezes. Digo, meus dias cinzas são rompidos por uma felicidade repentina que de feliz não tem nada. É uma euforia melancólica e desesperada. É uma dor aguda e chorosa que invade a ponta dos meus dedos, entra pelas narinas, recobre os poros meus. Uma melodia incessante e repetida à exaustão bem ao fundo de meus ouvidos. Sabe quando o barulho é de tamanha persistência que parece entranhado em nós? Acostumamos com a tristeza assim como acostumamos com o caos incômodo de uma rua movimentada às 3 da manhã. Mas, repare bem, nunca acostumamos com o silêncio absoluto. Isso nos enlouquece, nos deixa sonsos, nos desajuíza. A paz não nos é permitida.

E você tinha um jeito doce de dançar que me fez querer estar ali, querer te olhar e, por deus, viver. Ainda que não ao lado teu, pois não me caberia a pretensão de seus ritmos avulsos. Mas viver. E que, de um modo meu meio torto, meio errado, mas persistente, quisesse continuar mais um tempo habitando esse meu eu incômodo. Descabido eu.

Menina, seu sorriso de soslaio, outrossim, seu riso rompante. Sua estadia que enche a sala e meu eu, enche o mundo todo dessa essência que me torna mais egoísta por te desejar para que assim, quem saiba, eu me deseje aqui também.

Você é aquele sopro doce que range baixo a porta na madrugada. Você é um estandarte que me trouxe pra mim e isso me fere manchando o chão com um sangue frio e vermelho mais veludo do que o seu batom. O pior dos sentimentos é esse equilíbrio astuto que me ousa manter em vida, ainda que nunca de fato vivida. Uma necessidade muda de manter-me inerte e duas linhas acima da asfixia da tristeza mórbida. Uma flexão constante de evitar-me a felicidade pois quando me vem, das poucas vezes que me permito a ocorrência extenuante, isso – essa suposta felicidade – me toma a garganta, se enrola em minhas vias aéreas, se instala em meus pulmões. Os pequenos ensejos tornam-se euforias imensuráveis, ganham proporções intragáveis. As pequenas fugas da rotina fodida se tornam pesos insustentáveis para mim. Toda e qualquer alegria besta se transforma em um sufoco eufórico. Depois, o fenecer, a murchidão, o meu corpo frio se decompondo em sete camadas tenras de inexistência. A felicidade, por fim, reverbera uma crise julgando-me não merecedora de sentir qualquer coisa boa, coisa doce. Um equilíbrio constante entre a tristeza, apenas e tão somente uma linha acima do desespero,  e a desistência perene, pois tudo a mais do que isso torna-se eufórico, torna-se assombroso, torna-se uma praga me corroendo em carne viva.

E seus olhos continuam dançando entre o corpo meu, e meus dedos quase te tocam, e minha alma quase te deseja, e meu eu quase sente uma vontade de arriscar-me o tatear de sua tez. Mas depois da euforia vem um abismo denso demais para que eu possa suportar. Depois do toque teu, me afundo num híbrido obscuro do que sou. Não há necessidade ou habilidade de viver. E quando há olhos fugazes como os seus me atiçando à vida, eu me permito a vontade de arriscar meu abismo. Mesmo que depois da sua pele macia seja um fossa funda sugando meu corpo. Corpo que dança delineado no cerne apaixonante do seu ser tão próximo ao meu que juro, minha pequena, eu quase quero viver esta noite e acordar em meio ao caos do desiquilíbrio.

Aos teus (meus) fins

O afeto nasce num diálogo ameno. Nasce num olhar tímido e num desvio calmo. Nasce naquele cigarro entre os dedos e uma risada sorrateira. O amor nasce no fulgro de não saber bem o que falar ou que fazer com as mãos soltas.

O amor meu nasceu entre o cruzar dos braços e a vontade imensa de jogá-los nos ombros teus.

Os tempos correm, os tempos urgentes são gente, porra, e a gente mal soube o que fazer com os dias e com o medo e com o desconhecido. Mas eles estiveram lá.

E o afeto cresceu, ganhou corpo, ganhou um espaço imenso em mim. Mas não é sobre o tempo bom que correu que quero falar. Já escrevi notas sem fim sobre esse Você que me sustentou os dias que, acredite, não guardo mágoas. Ora, não pense isso de mim, mal parece que conviveu comigo. Até essas frias paredes sabem que jamais seria capaz de reverberar qualquer desafeto por ti. Ainda que o inferno tenha se posto em minha vista uma centena de vezes após seu abandono, ainda que o sentimento vazio ocupou-me feito um vendaval insuportável, jamais ousaria substituir qualquer bom afeto por ti por um pensamento atroz ou iníquo.

Agora, porra, agora abro notas suas, ouço comentários tecidos em timbres esquálidos e, por algum motivo, imagino que coisas nem tão boas andam lhe ocorrendo. O que posso, por deus, o que posso te desejar senão uma imensa paz, uma sorte danada? É tudo que me resta, é tudo que atrevo-me a restar. Porra, passei momentos de caos incalculáveis depois de ti. Sua partida me feriu setes camadas da paz, da alma. Aliás, sua partida ainda me é uma ferida aberta. Uma cicatriz latente que por vezes ainda sangra. Sangrou hoje quando ouvi que, talvez, sua paz não esteja tão em paz, seus dias não soem tão azuis e amenos quanto eu imaginava que devessem soar.

Ahh, pequena, o amor é um diabo disfarçado de uma flor de bem-me-quer quando já arrancou toda a raiz desse caule frágil e dasalmado. Eu que tanto te desejo ainda. ainda que sem flor, sem pétala, se raiz alguma.

Mentira. Menina pequena, te venero, te amo, mas não te desejo. Você me é aquele desejo que almejo só, é tão somente, por não ser mais meu. Mas o amor perdura e quem dirá, quem saberá me dizer por quanto tempo? Há meses, repito num sôfrego desepero por quanto tempo você há de me habitar ainda?

As notícias vagas e inconsistentes suas me fazem crer que eu parti, sai de ti como quem afunda num bolsos pouco usado. Caí entre seus papéis e moedas, caí entre um bolso fundo demais pra ser resgatado. Virei lembrança, virei passagem. Mas e você? Você habita meu bolso mais raso, habita meus dedos, se entrelaça entre meus pulsos, me contorna os pulsos, sobe os braços, se instala no lado esquerdo do meu peito. Você não passa mesmo que toda a admiração tenha passado. Você não parte mesmo que tudo que me lembre de ti me reparta. Me tira. Me atinja feito uma uma lança cega que estilhaça meu peito e corroí minha paz. Você afogou meus dias e minhas noites. Você me fez sangrar em seis tons amargos e ainda assim a merda de seus olhos me olham afetuosos em minhas memórias.

Hoje, sei que seus dias andam cinzas, que seus tempos andam duros e me doeu mais do que minhas próprias cicatrizes. Ainda que saber que não mais sabes de mim não me impede de querer ser tudo que reverbera em ti, e me dói. O amor é um laço cruel que faz doer em um o que pouco importa ao outro. Amo-te ainda que sabendo que outro corpo e outra alma e outra essência toda cuidam de suas feridas.

Se pudesse saber, chorei com o peito ardido a notícia de que seus dias talvez não andem doces e bons e calmos como desejaria. Te desejo paz. Dias bons. Dias doces. Ainda que tudo que me diga que em ti habita outra aura, outro corpo, ainda que eu nem mais exista em sua memória, te rememoro quem deseja a paz. A paz. A paz.

Três vezes, pois meu afeto garante que tu merece. E se não merece, preserva em mim teus olhos saudosos de quem me fez crer em amor. Se não me amas, amo te por dois. Três. Dez. Uma vida e te amo, mesmo que ao lado teu não seja eu. Mesmo que em sua história eu já nem seja uma lembrança boa. Te desejo a paz e me desejo o fim dos vãos que a ausência tua causa. E, porra, me causa.

Quando acordo o sol parece ameno. Parece límpido e calmo. Carregado de um sossego que quase, reverbero, quase me contempla a paz.

As horas correm e por dentro nasce, cresce e se instala aquele velho sentimento de não saber fazer, não saber lidar. Querer, mas por um motivo extenuante, não conseguir fazer nada além de continuar nessa imensidão sofrível e dilacerante.

As horas correm e meu relógio interno berra uma insensatez de permanecer inerte, permanecer sendo essa coisa vaga que eu sou.

A asfixia sobe o peito, mas não se expele pela boca. Ela se afaga, se instala bem no meio de minha gargante e parece que o mundo me exige uma força que não sou capaz de exercer. Sentir, porra, senti as necessidades todas de ser alguém e ter alguém e viver uma vida inteira me eximem, me fenecem, me jogam num canto escuro de mim mesma.

A Ansiedade maldita é um demônio maleável, frívolo, sagas, ele se enrola em meus pulsos e se adentra fundo em meus bolsos. Ele corrói minhas costuras seguras e me faz ter medo de movimentos bruscos. Ele come minhas entranhas e me deixa à beira de mim mesma. Eu choro escondidos entre as portas e corredores, entre os banhos e as noites frios, eu ligo as músicas altas porque o medo da exposição ainda ressoa vergonhoso em meus dias nebulosos.

Eu prefiro a solidão e a quietude, ainda que tudo isso me mate, porque essa ansiedade maldita me faz crer que as pessoas são boas. São boas e eu má. São boas e eu incompetente. São boas e eu o peso da insatisfação.

Eu fujo entre emus dedos e medos, em me escondo entre luzes semicerradas e vazios incompreendidos, eu me escoro em minha agressividade, porque explicar que isso tudo me fere à fogo, a lanças cegas de mim mesma ainda é uma dor que não sei ou não posso suportar.

E quando olho pelas janelas, e quando me fere ver a dor de quem amo, e quando me desvincilho de meus fantasmas obscuros, eu sofro pela dor alheia. Eu recaio no ambíguo sentimento de amar tudo aquelo que me dói em seis tons sujos e machados de amor. E tudo que vejo são vidas que, vezes boas vezes más, correm em alguma direção. E eu abraço essa maldita ansiedade que cresce devastadora em meu peito, sentadas atrás desse vidro sujo, observamos vidas e corpos e almas correndo. E nós, paradas. E nós morrendo. E ela me comendo. Mãos, pés e voz. Agora não sei pedir socorro. Espero que ela me devore de vez porque os dias claros e o sol refletindo próximo me faz doer ainda mais. Espero que ela me coma os olhos e a vontade viver. Espero que ela torne de vez meu eu um peso frio. Olhar minha dor consumir o que resta dos meus pedaços sujos parece um filme ruim que não tem tempo para o fim.

Teus filmes e falas secas

Eu gosto da delicadeza rígida dos franceses. Lembro-me como se bastasse estender o braço para te tocar do dia em que me contou sobre a rispidez dos filmes franceses. “Já notou como, nos diálogos, ‘fere-me os ouvidos’ significa mandar calarem-se?” Você me perguntou sussurrante, numa pretensão de quem vela um segredo. Um tesouro seu e imensuravelmente valoroso. Dividira-o comigo e hoje me debruço na nostalgia de uma película francesa só para me recordar das frases tuas. O silêncio é um espaço valioso em que deixamos habitar muita gente capaz de mal cuidá-lo. Mas em lugar nenhum do mundo encontra-se uma significação tão verídica quanto a paz que nos é tomada ao partilharmos e nos estilhaçarmos em corpos e almas e vidas por aí. Fere-me os ouvidos. Não é, porra, nunca é o barulho aleatório que incomoda, não é a desorganização da rotina, a bagunça dos lençóis que desvirtua o ritmo diário. São nossos silêncios afáveis e solidão deliberada que ficam susceptíveis, tornam-se finas camadas cada vez mais feridas e fragmentadas e machucadas e destroçadas pelo comportamento alheio. É especificamente o timbre de quem fora amor, fora paz, aconchego. São os toques, agora mal quistos, o dedos incômodos, a respiração em tons altos demais. São nossos ouvidos sensíveis captando os cruéis tamborilares estridentes. São meus ouvidos feridos do ácido de suas palavras. São os sons da amargura atribuída ao desafeto que ferem as paredes da alma. Nunca são as portas batidas, as frases mal terminadas, não são as merdas dos objetos caídos ao chão. São suas mãos estabanadas, são seus lábios que se movem em ritmos de ojeriza. É todo o desperdiçar de vida que se culmina numa relação que mal se sustenta mais. Era você me falando como os franceses são cruéis em dizer que odeiam o som da sua voz sem emitir sequer  um timbre alto ou carregado de raiva. Nada sustenta mais o desprezo do que o tom morno e desinteressado ao anunciar que a simples estadia alheia fere seu corpo e alma. Se a presença machuca, nenhum amor sobrara. Nenhuma película francesa encanta. E eu? Eu que me lembro de seus lábios frios me contando como é triste o estilhaçar do afeto, quase te tomo de volta. Quase te recobro. Mas isso é muito pouco, um tracejo menor que nada, um tom a menos da sua voz ao me dizer que minha fala lhe feria os ouvidos. Uma linha abaixo do não existir.

Quarto amarelo

Era como se eu, em meu processo de descoberta da dimensão da vida, tivesse me sentado em um quarto calmo e sóbrio. Um lugar que me suscitou curiosidade e um sem fim de descobertas além das paredes decoradas. Um ambiente que me acolheu sem receio, mas também sem fulgor. Sem muito significado ou sobrepujando qualquer busca de sentido no que eu estava fazendo, me acomodei bem no meio daquele cômodo inquietante ainda que absolutamente reconfortante. No começo era apenas como me situar num espaço colorido e ainda desconhecido da minha própria casa.

Os dias passaram e o conforto da estabilidade me abraçou. Os dias correram e ficou cada vez mais fácil não me mover. Sentei no centro de um caos e o cenário parecia bastante calmo. Mas, veja, o quarto era um lugar seguro e tudo parecia ridiculamente afável ali dentro. Nos dias primeiros, tudo que fiz foi emergir de mim para mim, uma descoberta constante do que eu poderia ser. Olhei os detalhes, as pinturas perfeitas das paredes, os itens de decoração e olhei para mim. Me rabisquei em contornos delicados e expressões de vida. Me bordei no chão, no teto e absorvi aquele cômodo como quem se refugia em calmaria.

Tudo que fora um aconchego, aos poucos, tornara-se um triunfo do caótico habitar. Aquele espaço, que antes era tão acolhedor, tornara-se um reflexo perfeito de mim. Podia me ver em cada fina camada de tinta, em cada contorno da decoração, em cada peça torta e mal posicionada daquela contraposição entre o concreto e o subjetivo, entre quem sou e quem não me vejo ser.

Mas não quero que me entenda mal. Habitei por um sem fim de tempo esse quarto pois, no início, ele fora de um aconchego imenso, uma fuga de mim. Com o passar dos dias, adquiriu minha essência, meu âmago culminou numa decoração medonha. Com o tempo, de uma amenidade e sutileza, ele ganhara um aspecto estranho, afrontoso. Como um quarto todo amarelo, rígido e líquido ao mesmo tempo. Como um lugar que não me sustenta. Como um corpo insípido, vulgar, inerte prostrado na iminência de um eco sufocante. Um cômodo tecido de tamborilares sórdidos que, antes, era um tom sépia calmante, quase uma melodia. Agora é uma cor amarela aflitiva, extenuante. Um amarelo amargo.

Se os azuis rememoram uma tristeza absoluta e os vermelhos uma euforia incandescente, o amarelo em excesso é agonia apregoada no meio de sua garganta. E, por deus, eu sequer vi essa transição cromática. Um dia eu apenas reparei que as paredes escorriam um desfocar de cor que minhas pupilas já não sabiam ou não queriam ou, ainda, não queriam saber distinguir. Quase um debruçar-me despretensioso na existência oca de mim mesma. Pois nada mais existe em mim ou no quarto, ainda que ele seja inteiramente eu. Internamente meu.

E quando me dei conta de que, assim como as pessoas, os lugares também adoecem, comecei a notar janelas mal fechadas, maçanetas emperradas e rachaduras nos cantos. Quando dei por mim, não reconhecia mais como meu aquele quarto que tanto me foi repouso, sossego despretensioso. Sou eu esse ambiente mórbido e, ainda, esse ambiente sórdido é meu, o que me resta se, por fim, decido ir embora?

Contei 10 tons de amarelo e todos me sufocam. Contei 10 tons de meu fenecer estúpido, feito uma flor que morre seca por ser deixada à luz do sol ou morre fria no despetalar ambíguo de quem desfalece pra recomeçar sem nunca, de fato, morrer. Não sei como meu arfar resiste aqui dentro, mas acredito que os tons azuis soturnos são bem intensos do lado de fora.

O amargo do fim

Escrevi por dias sem fim sobre você. Sobre um corpo e alma – muito mais alma do que corpo – que ninguém conhecera. Eu, em minha incandescente vulnerabilidade, observei e absorvi seus tons, seus timbres, sua face valida de quem sustenta um existir que me foge à compreensão. Escrevi enquanto os dias eram claros e os desejos sóbrios. Escrevi enquanto o amor foi uma brisa amena, enquanto o calor era apenas o suficiente para aquecer o corpo. Escrevi enquanto as noites foram brandas, calmas e capazes de me sustentar em seu colo amargo. Fui escrevendo para, contraditoriamente, te manter e te esvair de mim. Como quem preenche um incômodo papel branco para que o vazio se cale. Para que o vazio me deixe respirar.

Mas quando os dias correram num ritmo de asfixia, quando as letras já não me bastaram mais, quando por fim minhas linhas se tornaram uma flâmula repetida à exaustão, idêntica e sordidamente soletrada em desafeto, eu te escrevi como um expurgo amedrontado. Te joguei em papéis brancos e rascunhos manchados de café. Te delineei em traços apertados de uma torpe escrita. Por deus, fechei meus olhos sete vezes e sua presença vívida e pulsante em mim quase me permitiu te tocar.

Me debrucei em pilhas de folhas, em telefones mudos, em bebidas amargas. Me esforcei em suas memórias sujas, seus discos velhos, sua estadia sepulcrada nessa casa. Acumulei pilhas de folhas amassadas porque tudo que saiu de mim foram retratos seus, memórias de uma alma que julgava ser sua, mas que tolice! Não foi você, nunca foi você. Entre falas soltas e promessas que só eu me fiz crer, entre seus olhos esgueirando-se do afeto, entre o riso tracejado e a facilidade de rir em uma fuga sem palavras, eu construí um você que eu mesma não poderia suportar. Te fiz em dias bons, companhias plenas e palavras doces. Te fiz num imaginar que não caberia em ti, por isso te escrevi, desenhei e bordei. Tentei, com as forças que tão somente eu sei ser capaz, te fixar na pele, na alma, nas paredes do meu afeto. Tentei também me costurar na parede de seu cerne. Na tez mais limpa do seu bem-querer. Mas você não quis. Nenhum espaço oco foi ocupado por mim. Restei com um você escrito por mim.

Por 30 dias te repeti, incansável, nessa porra de caderno vazio. De novo. De novo. Te rabisquei para ver se você cairia nas folhas através dos dedos meus. Escrevi até as mãos doerem, a caneta tremer, os copos repousarem vazios ao meu lado. Escrevi repetidamente até que a lembrança dos olhos seus escorresse pelos meus pulsos, manchasse o papel. Escrevi até meu peito acelerado rasgar minha pele, sucumbir ao devaneio, expelir o abismo de insensatez que fui mantendo em mim.

Adormeci e estremeci incontáveis vezes sobre esses papéis sórdidos. Vomitei 30 palavras e todas me olhavam com a lúgubre insanidade dos olhos teus. Dormi dois dias no sofá e o tino desafetuoso me despertou com uma ressaca do não-amor. Prendi a respiração três vezes só para sentir a asfixia de qualquer outra coisa além da sua. Morri em feridas cruas na pele minha só para lembrar que outra coisa ainda me doía, me fazia sentir.

Pareceu que não acabaria nunca. Pareceu que todo o meu eu se despejava nesses papéis amargos e sobrava cada vez mais de ti entranhado em mim. Pareceu que o seu peso era incomensurável e que meus joelhos tortos não poderiam ou não saberiam mais sustentar tanto de ti em mim. Sua presença era tamanha que até meus vinhos doces pareciam não mais tão doces a ponto de nos satisfazer – sim, pois você era tão pertencente e vívido que era preciso te alimentar também. E quando não suportei mais o gosto do seu paladar, você se sustentou de mim. Morri um sem fim de vezes até, por fim, morrer em ti. Escrevi linhas finais até que de fato uma acabou.

Depois da ressaca, o vazio em mim foi como um metal pesado caindo em uma sala oca. Depois de piscar três vezes, seus olhos não me findaram com lanças de desafeto. Depois de páginas rasuradas, você rasgou meu peito e partiu, sobrou uma linha para escrever sobre o eco do meu fenecer explícito.

Uma mancha tua em mim

Sua blusa caiu do meu guarda-roupas. Em meio a tantas blusas minhas, sua camiseta branca e esquecida destoava de todas as outras peças. Em meio aos perfumes meus, o seu ainda exalava saudades. Porra, há meses que tu esquecera essa camiseta aqui. Mentira, esquecera não, deixara incólume e sem pretensão de buscá-la.

Segurei por cinco minutos ou mais esse tecido branco entre os dedos, segurei o que restou de ti nessa casa, nessa alma. Agarrei a peça como quem tenta, desesperadamente, se manter acima da linha d’água, ainda que morrendo asfixiada pelo vazio e pelo excesso. Mesmo que os calendários me digam que sua última vinda fora há mais tempo do que qualquer agenda ou coração amável é capaz de registrar, eu insisto em deixar essa peça tão mais branca do que minha tez guardada. Não como uma pretensão de que você volte para buscar, mas como um objeto doce que carregou o corpo teu. Eu, porra, eu carreguei o corpo teu, a alma tua, a essência toda.

E se eu te ligasse agora seria para dizer que as despedidas são processos da vida. Não é uma finalização sofrida, é uma constante, uma invariável: a partida é o passo final do abandono humano. Em sua partido eu cai seis vezes ao chão e me despedacei em todas elas. Um fragmento eterno de mim e meus olhos chorosos de quem não sabe ao certo se possui a força de se juntar. E se possuo essa força, por deus, não sei se quero. Me espalhei em cem pedaços áridos, torpes e repousei em minha dor.

Mas o que me dói, porra, o que mais me fere é essa mancha imensa bem no peito da sua camisa branca. Essa tinta borrada de desafeto que me lembra sua despretensão afetuosa. Você foi embora e deixou tudo aqui, suas camisas e suas lembranças. O que dói nessa porra de partida é que você não me levou em seus bolsos e nem em suas memórias. Como um desvaler do meu eu, como alguém que deixa as malas e toda a história num canto qualquer, sem o desejo de lembrar, sem a vontade de sentir de novo. Por deus, ainda que me doa, que me fira feito a morte, ainda que sua partida me suje feito um corte incurável, um fenecer exponencial sem nunca de fato me matar, eu me apego às vívidas rotinas que foram nossas. Eu me guardo em três tons de afeto e cuido, com os olhos atentos, para que elas sejam sempre doces. E você, sem o tom ressoante de alguém que amou, partiu deixando o amor e o desamor aqui comigo. Partiu para não reviver e não lembrar e não querer lembrar de mais nada. De você, restou sua camisa branca e manchada de desafeto. De você restou tudo que eu guardo entre o tecido áspero do seu desamor. De você restou eu, e de mim restou o que?

Falamos sobre o caos e a paz, a remissão, a regressão e o ímpeto avassalador de emitir qualquer fala tola e sem sentido. Falamos da luz que se acende e, trêmula, demora a se firmar na fina fibra da lâmpada. Falamos do mal, do mar, do medo de amar. Dos dias quietos e, também, falamos em dias mudos. Palavras novas, velhas, suas, minhas palavras. Um dicionário inteiro não sustentaria nossas falas de afeto. Falamos do amor estendido aos nossos pés e dos pés descalços no compromisso de não não ter nada além de uma velha teimosia em expressar uma aura doce. Falamos o que se expõe em público, e tudo aquilo que se resguarda no mais secreto vazio d’alma. Falamos em dia e dias e dia e, por fim, falamos à noite. Da noite. Das tardes amenas, d chuva, da televisão que animadamente não emite nenhum som. Abafamos os versos. Meus tons mudos, seus timbres roucos, sua voz recobrindo o chão do meu afeto. Meu abraço enlaça suas palavras e me sustento em suas rimas leves, leves. Mesmo que não rimem, que não combinem em tons sonoros, seu timbre cambaleia entre um tilintar tênue. Falamos em línguas que não há de se compreender e nenhuma compreensão fugiu ao nosso entendimento. Não precisaria entender mais nada mesmo. Por fim, falamos em tons baixos, sussurros calmos, estendendo as sílabas e, enfim, calamos. E mesmo quando o assunto pareceu esgotar-se, o que era necessário permaneceu dito entre um fim que não vem.

O amor queima em tons amargos

O tempo que essa brasa quente leva para atingir o chão é o tempo exato que me dei conta que seus olhos fugiram de mim. Acendo mais um cigarro só para tentar recuperar sua atenção que percorreu a sala e agora se  esgueira de mim. Caminho entre cômodos dessa casa quieta e procuro qualquer coisa que faça menção a tudo que tu me fora. Será que de fato fora?

Abro três gavetas procurando mais um maço e só encontro o seu vazio. Logo eu que tanto pedi para que você parasse de fumar, agora me pego revirando os bolsos atrás de sossego. Mentira. Fumo para que a fumaça ocupe o ar denso desse quarto, ocupe meus pulmões com um cheiro que não seja o teu. Fumo para que alguma coisa me toque a boca depois que sua ausência me abraçou em asfixia. Fumo para ter entre os dedos alguma coisa que não seja você. Olhe que besteira, logo eu que estou tola e quase melindrosa em suas mãos tento segurar qualquer coisa que possa, também, ser minha. Me debruço nessa janela, tragando lentamente para ver se entre um cigarro e outro eu te trago de volta, te trago para dentro.

Mas é o tempo certo da chama abraçar a ponta imperfeita desse cigarro e queimar o papel, é um tempo bom entre a brasa se apegar ao fumo e corroer, queimar, arder tudo que se enrola entre os dedos meus. Porra, antes de eu terminar esse você já matou o amor mais três vezes. Seus olhos me largaram há tempos – tanto tempo que eu nem fumava ainda. E mais uma ponta cinza cai ao chão. Dessa vez lenta, flanando quase rítmica. Seus olhos percorreram o quarto e nunca mais me acharam. Se eu te der mais uma carteira você fica mais uma hora? Tenho quase certeza que na próxima vez que riscar o fósforo nosso afeto acende junto. O amor queima em tons amargos. Revirei todas as gavetas e não sobrou mais cigarro algum, acabaram os isqueiros e fósforos, acabaram as brasas quentes. Mas se você ficar, por deus, se você disser que fica eu te entrego minh’alma para tragar.

Flores mortas

Feito uma flor se despetalando num ritmo lento e dolorido. Esses tempos têm sido uma flâmula de dores e lamúrias. Feito essa maldita flor que repousa na janela e, dia após dia, continua derrubando pétalas secas. Mas que, ao invés de dar fim à sua inexistência – pois sim, essa pobre coitada sequer existe, sobrevive permeada pela neblina mórbida do inexistir -, ela continua fazer florescer, fazer renascer mais uma pétala quase sem cor, sem vida. Renasce cada vez mais seca e frágil só para que, logo em seguida, sua nova folha se desprenda e paire frágil feito os sentimentos humanos, porém com muito mais dignidade do que qualquer corpo desalmado que vaga nesse mundo perturbado.

Eu me escoro entre paredes e sofás. Eu passo os dias olhando a resistência dessa burra flor que insiste em reviver ainda que, em uma morte perene, ela nem mais exista. Feito um ardiloso desafeto, eu a observo nascer e morrer em seis tons de morte. Eu observo um esforço inócuo, podre, um arfar mais denso que apenas um velho no leito de morte poderia experimentar. Mas a persistência é uma pétala maldita se soltando da vida sem nunca morrer. E, por deus, ainda que eu costure com linhas de afeto essas folhas secas, tudo que sou capaz é fazer meus dedos sangrarem, meus olhos arderem, tudo que posso é ver a morte escorrer entre minhas mãos.

Retorno depois de três dias e oito mortes bordadas em minha aura insólita e essa maldita flor continua despetalando-se em minha janela. Por mais que eu limpe o parapeito da janela, por mais que eu me esgueire de sua viçosa aparência, por mais que seu caule quase prostrado no vidro sujo aparente um fenecer iminente, alguma coisa permanece, alguma coisa agoniza e ressurge, alguma porra de força biológica, cósmica, sobrenatural ou afetiva culmina um reviver nessa flor falida existencialmente, mas que resiste sordidamente, quase distendida entre suas pétalas secas e murchas e sem perfume.

Retorno depois de dois invernos, três manhãs de sol. Nem minhas tentativas de arrancar-lhe a vida são capazes de cercear essa lúgubre vitalidade que pulsa, ainda que frágil, entre a raiz e seu caule torto. Ainda que eu exagere na água e, logo em seguida, a mate de sede, ainda que eu a prive do sol e superaqueça a terra, há uma maldita resistência pulsante e latente e voraz dessa porra de flor inexistente. Vejo a morte se instalar ao lado meu para observar a resistência de quem ressurge. Observamos juntas, a morte e eu, a inexistência da vida.