As ruas que me levam de mim

Tem dias que dá uma puta vontade fugir de casa. Não me olhe com essa cara julgadora, você já deve ter querido se mandar também, vagar por ruas sem fim, sem atender o telefone já que ele fora deixado no ex-lar. Dias novos e vibrantes e silenciosos, já que nenhuma notícia é enviada aos familiares ou amigos. Nenhuma notícia recebida também. Será que estão bem? Será que deram comida ao cachorro? A porta, puta que pariu, a diarista sempre deixa a porra da lavanderia aberta, vai alagar tudo se chover. Será que alguém já notou que fugi de casa? Vai que ninguém se deu conta. Não, por deus, o chefe já deve ter notado que a pilha de papel aumenta em minha mesa, de certo anota minhas faltas num caderno preto, já que o ponto eletrônico não funciona há dias. Vai gastar as folhas todas anotando minhas faltas, deve achar que vai se gabar ao me avisar sobre os descontos em meu salário. Se é que pode se chamar de salário aquela merda que me banca a sobrevivência. Sobrevivência?

A gente vai resistindo dia após dia. Nessas porras de empregos fodidos, entre corpos que mal notam a nossa presença ou, ainda pior, a nossa ausência. Ah, menina, esses seus olhos risonhos ainda que tristes. Na verdade acabo de me dar conta de que você não sabe mesmo do que falo. Você nunca quis fugir do lar, pois entre seus cômodos e quartos habitados, você divide o dia com outras almas. Só há de querer fugir de casa quem mora só.

Não ria. Porra, não ria de mim. Deixe-me explicar. Verá que a lógica habita cada poro meu nesse instante, minha consciência está plena, nunca estive tão sóbria, juro!

Veja, menina, quem divide os lares foge de casa pela presença alheia. Pelo inferno dos outros. É fácil fugir do caos divido, mas também é falso. Bastam algumas quadras para que haja medo e receio e dor do abandono. Bastam 3 quadras para que você titubeie em continuar, seu telefone toque e seu peito berre num desespero isolado e amargo. Mas se decide continuar, você abandona seus fantasmas no lar, seu caos no lar. Você foge e não volta.

Se mora só, seus fantasmas fogem antes de você. E fogem junto. Digo que não há, de um forma justa, como fugir, mas também não há como permanecer em casa. As janelas e portas incitam a fuga. O vazio e o silêncio convidam a correr pra longe de tudo que te lembra ser você. Quando se mora só, a solidão te recobre nos dias frios e quentes, te enlaça os dedos e corrói sua carne. Se fizesse um exame de sangue, seriam seus monstros sórdidos que se revelariam.

Você bate a porta e venda os olhos, corre metros cegos até o coração disparar e o ar parecer insuficiente. Você corre no escuro para que não haja como retomar o caminho. Quando se foge de uma casa vazia, você espera deixar suas memórias e vidas e caos lá dentro. Mas feito uma queimadura de cigarro, as marcas te acompanham, os bolsos pesam e o silêncio atravessa os ouvidos feito uma lança cega. Já viu uma lança quase sem ponta atravessando alguma coisa? Nem digo para que imagine um corpo sendo atravessado, pois seria um tanto desagradável é não quero causar constrangimentos. O caos dos dias emudecidos pode ser uma tragédia programada matando aos poucos.

Quando você vive só, fugir de casa é uma tarefa árdua, pois a moradia é sua alma. E te pergunto num tom seco feito um vinho indigesto, como é que se foge de si mesmo?

 

Teus tons mudos

Engraçado. Trágico, na verdade. Triste mesmo é que nunca te pedi pra vir… sabe, mesmo quando era eu, e tão somente eu que queria, não pedi que viesse. Nem te pronunciei nada que te quebrasse a proteção externa. Nunca aferi nenhum fulgor por ti, jamais deixei escapar qualquer gesto ardiloso que te fizesse perceber que eu queria mesmo que você corresse pra mim.

Triste. Nem quando tive a chance, nem quando tive a vontade. Quiçá quando tive os ventos me sussurrando o que dizer-te. Nada.

Mas você veio. Acabou que veio mesmo. Do seu jeito, no seu passo, no seu timbre, mas veio. Sem eu pedir. E, do mesmo modo, você se foi sem eu pedir. Sem que eu dissesse que queria que fosse. Simplesmente eu acordei sem seu peso doce ao meu lado.Ou quem sabe eu tivesse ido dormir já sabendo que você não ficaria. Quem sabe.

E nessas idas e vindas você ainda vem. Você ainda vai. Você retorna e me retoma no ritmo teu. Ritmo que, por deus, não sei dançar. Não sozinha. Contigo é mais fácil, você sabe os passos e a dança é tua, meu bem. Eu não. Pobre coitada, barata tonta tropeçando entre cada volta no salão vazio. E antes que eu tropece no meu desespero, antes que caia sentada sobre minhas sapatilhas inadequadas para essa música, você volta. E sem eu pedir, me retoma nos braços numa dança que você, e tão somente você, se diverte, cambaleia o corpo entre o ritmo certo e a melodia tamborilante.

Porque você roda o salão num querer tão somente teu e tão individualmente retornante em mim… volta, parte, vem e me reparte. Te danço enquanto ainda ouço a música. E você se vai num rodopio mudo.

O afeto é um velho sujo

O afeto é como uma pilha de louça delicadamente empilhada sobre uma toalha de seda. Um manto leve que suporta as bordas delicadas de algo que facilmente se quebra ou te corta.

Por deus, há tanto tempo você se fora. Largou a casa aberta e as roupas amassadas no canto da cama. Sequer levou suas malas, suas lembranças sórdidas me assombram e em alguns dias creio que amor é um velho sujo tentando me roubar a paz. Quase te esqueço, quase caminho leve entre os cômodos que um dia você habitara. Então sua presença me toma como um rompante. Seu rosto doce me sorri sombrio e seis pontos de abstinência afetiva me ferem feito uma lança cega.

Te quis como um querer absurdo e impetuoso. Te quis como quem quer ser salvo do resto do mundo patético. Mas esse velho sujo me traz a dor de saber que você caminhou, fez as malas, dormiu e acordou entre novos lares. Eu me mantive rastejando em suas memórias. Suas feridas ainda me ardem e tenho certeza que seu perfume ainda está impregnado no travesseiro. Besteira. Porra, isso é uma puta besteira, porque você afunda seu rosto em outros cabelos emaranhados, você deseja outro riso e corpo e alma como um dia desejara a mim. Você, de certo, rola e se enlaça em braços alheios num chão fresco enquanto eu me debruço nesse piso duro tentando absorver as memórias nossas. O seu entregar-se a outro corpo me perfurou o peito, me dilacerou a alma, seu timbre ressoou e a memória do seu riso doce me marcou a pele como uma tatuagem. As palavras que você nunca me disse são silabicamente pronunciadas para alguém que não eu. Sórdida e pausadamente repetidas. Não sou eu que as ouço. Porra, eu poderia ter sido mais, você ter sido mais. Termos sido nós.

Mas tropeçamos e você se foi. Fiquei com as saudades e um nó na garganta. Você agora recosta a cabeça eu outro peito acolhedor. O afeto é mesmo um velho sujo puxando a toalha, os copos se quebraram e meus dedos ainda sangram.

Nenhum fantasma adormece nessa noite

Nessa noite todo os cigarros estão apagados, todos os copos vazios e nenhum timbre ecoa para afagar meu peito insonso. Existe um sem fim de vidraças sob meus pés e a vida se estilhaçou como um raio ríspido que atravessa um espelho ao se quebrar. Hoje eu recobri o chão com mil pedaços mortos. Hoje eu escorri entre meus dedos, desmanchei diante minha fragilidade, hoje eu sucumbi ao inferno de ser exatamente isso que eu sou.

A tristeza é um manto denso que me recobre. Uma blusa larga demais que me veste e me sufoca. O silêncio é como um quadro azul que parece ser calmo, mas pincela o abandono entre os tons insalubres e vazios e melancólicos e. Vejo o medo da solidão delineada em cada tracejo desse inebriante fantasia de liberdade. O afastamento é uma capa protetora que me esconde do mundo, assim eu guardo minha dor e incapacidade dos olhos alheios. Morro do meu próprio julgamento. Nesses últimos sete anos, minha blusa foi crescendo, alargando, cabem mais cinco de mim aqui. Nesses tempos turbulentos, ela vai absorvendo meu medo e angústia. Ficou pesada, quase não consigo mais carregá-la. Acho que por isso ando tão cansada, presa nessa cama suja. Minha blusa escora as mangas no chão frio. Por deus, como eu queria cortar essas mangas.

Hoje mais um dia se passou e eu não faço ideia da onde estive. Não, besteira. Fisicamente estive aqui, há dias venho estando aqui, exatamente aqui. Com o mesmo pijama manchado há uns 3 ou 4 dias. Talvez mais. Olhei no relógio, foram três voltas até que eu tivesse forças de mudar minha posição no sofá. Queria tanto um café bonito, daqueles que a gente tira foto, mas meu choro doído me impede de sair de casa. As portas entreabertas me enclausuram cada dia mais em mim. Me pergunto quantas coisas eu cumpri nesses últimos dois anos e 3 pedaços meus se estilhaçam ao chão enquanto tenho tomado mais remédios do que café.

Minha pele branca e fina e fria. Meu toque toca seis tons de feridas e nenhuma delas mais me faz sentir. Mesmo quando a dor é ardida, queima, corta e sangra, mesmo quando respinga desespero, são poucos segundo que me relembram que ainda sinto. Às vezes as linhas tortas são um caminho bizarro para lembrar que algo ainda pode cicatrizar na gente. E quando cessam a dor da carne, é bom pensar que algo ainda cura em nós. A dor acaba por fora, ainda que a caos seja um berro agudo e constante que me fere os ouvidos.

O espelho é uma mancha cruel. Um plano ubíquo e sórdido que reflete um desabitar. Quando me posiciono em frente a mim, admiro a linha curva que se exalta sob minha pele. Gosto de contar e contornar os caminhos visíveis dos meus ossos e mesmo quando a consciência me lembra que estou arriscando caminhar de olhos vendados no parapeito do décimo andar, eu tenho um prazer repugnante de pesar um número a menos.

Quando eu varro a casa, encontro pedaços de minhas tenras memórias de dias amenos. Quase volto a crer numa calmaria definitiva. Quando me olho em retratos esquecidos, quase não me reconheço sem essa blusa maldita, mas meu peito se enrola num apelo sôfrego, uma súplica amarga me sobe à garganta. Deve ser isso que chamam de fé ou esperança, ainda que quase não reste mais nada sóbrio nesse meu sujo eu. Estou caminhando com sapatos furados e cadarços soltos. Estou pisando em meus pedaços e eles me perfuram os pés. Estou ajoelhada no chão e não sei se deus ainda acredita em mim. Tudo bem, repito comigo, tudo bem, eu também não acredito mais em mim. Mas eu continuo enquanto meus passos trêmulos me sustentarem, continuo enquanto o caos não me ensurdecer, enquanto houver pedaços manchados de papel. Eu persisto em mais um relato amargo enquanto eu ainda estiver caminhando no décimo andar.

À deriva

Tirei o telefone do gancho só pela certeza de que ainda funcionava. Tudo anda quieto demais e as ausências estão me matando. Sim, ainda funciona. Há dias uma penumbra solitária recobre a casa e o corpo meu. Há tempos minha alma gotejou as últimas palavras compartilhadas, os últimos afagos. Nunca um abismo sórdido me foi tão intenso e avassalador. Derramei minhas esperanças.

Pensei em te ligar, mas que tolice, sequer sei o número teu. Pensei em ligar para qualquer afeto passado, corpo que me foi repouso ou essência que um dia me deu amparo. Não restou ninguém. Digo, sei que ir embora não é um destino carrasco, é uma invariável. Todos se vão e traçam seus caminhos vezes acompanhados, vezes não. Mas nesses anos arrastados e sôfregos, tenho acumulado despedidas que me arrancaram pedaços, cavaram um buraco fundo em meu peito.

Revirei minha mente em busca de alguém para ouvir qualquer bobagem dessa virada de ano, desses fogos barulhentos, dessas esperanças despedaçadas que se revigoram nas passagens de ano. Não me veio ninguém. Por deus, eis o primeiro dia do ano regado a abandono. Odeio recomeços e suas austeras necessidades de demonstrar segurança. Sei, porra, eu sei que é apenas um recomeço simbólico, uma contagem de tempo rompidas por comemorações e que, no final, é tudo uma contínua vivência de dores e desamores. Mas é como um primeiro dia no emprego novo, seu sorriso amarelo e o estômago embrulhado. É como a ansiedade de não saber ao certo qual rumo as coisas estão tomando, nem como se portar. Ah, que besteira, nunca soube porra nenhuma da minha vida. Fui remando sempre as cegas fingindo saber exatamente para onde ir, mas tudo que sempre soube é que tenho um medo danado de estar remando num barco furado, à deriva de minha própria incapacidade de ser.

Se eu ao menos soubesse.

Tirei boas cartas durante esses anos. Não sei se por sorte ou competência, quem sabe uma mistura tenra dessas duas sacadas inerentes ao ser humano. A grande falência da minha vida foi tirar boas cartas de jogos diferentes. Dedicação, boas pessoas, admiração, um pouco de sorte na carreira. Cartas certas nos jogos errados, no final eu perco tudo. Sempre esperando alguém me salvar. Mas ninguém vem, não é mesmo? Se teve um jogo que nunca tirei boas cartas foi em minha própria salvação. Sempre à beira do precipício, sempre vulnerável nas minhas incertezas, esperando que o próximo irá remar comigo e me salvar. Eu nunca aprendi a partir, me concentrei em ficar parada, inerte, incólume num ponto morto pois acreditei que seria mais fácil ser encontrada se eu me movesse menos.

O relógio deu três voltas enquanto eu chorava, mas eu parei de olhar para ele. Tentei me afogar em minhas lágrimas para que a dor parasse. Ou para que, enfim, ela saísse, expurgada, entre esse choro que não cessa. Pensei em todos os corpos e almas que me habitaram, seus risos que me asseguravam salvação, seus olhos confiantes, suas habilidades de vida. Todos que me despertaram afeto talvez por possuírem essas singulares habilidades que por falta delas, me impedem de viver. De repente amei-os de volta num fulgor extenuante. Senti como se ainda hoje tivesse me emaranhado entre seus corpos. Todos estampam uma vívida satisfação em existir, como se soubessem algo que eu não sei. Como se possuíssem uma bússola e um remo seguro. Por deus, me confesso que, apesar de ter havido dias que jurei poder morrer da falta da reciprocidade de meus amores, nunca me senti capaz de sustentar o remo junto deles. Tão mais sóbrios, tão mais valentes, tão mais humanos do que eu. Confesso que mesmo almejando que ficassem para me salvar, pois enfim me sentia alguém perto de suas auras humanas, nunca fui capaz de deixá-los compartilhar meu barco incerto. Como se a presença de alguém que me ame estanque o furo do barco, mas me jogue de vez pro fundo do mar.

Tentei ligar para alguém me salvar ou me ouvir. Sequer sei mais em qual choro dolorido o relógio parou de dar voltas. O telefone não tocou.

Não havia espaço num só corpo meu para te vestir, te cobrir, te desenhar

A casa está vazia e incomodamente quieta. Fins de ano sempre deixam um espaço denso entre o que fizemos e o que quisemos fazer. Entre suas risadas quentes e seu hálito fresco, entre seus cigarros finos e seus copos borrados de batom, lembro que você ria desses ciclos comemorativos e a banalidade com que inflamam esperanças e energia nas pessoas. E como as palavras faziam sentido quando verbalizadas entre seus lábios e sua essência. Ah minha pequena, essa tenra e austera necessidade de nos reinventarmos, sempre essa porra de necessidade de ter força e ter vontade de continuar. E mesmo quando eu ria ao lado teu, era a sua presença que, dia após dia, criava minha reinvenção. Me refiz uma centena de vezes só para que você nunca enjoasse de mim. Me fiz em risos calmos, olhos flamejantes, me fiz em palavras amenas e tilintares delicados. Me fiz em um sem fim de afetos para ser capaz de te amar. Não havia espaço num só corpo meu para te vestir, te cobrir, te desenhar nas paredes de minha alma. Foi preciso me recriar todo dia para acompanhar sua vibração.

Agora a casa está vazia e morna e cálida. Agora os cigarros impregnam as paredes me lembrando que suas brasas apagaram há dias no cinzeiro. Agora as pontas do meu cabelo escoram na água dessa banheira e eu juro, por deus, eu juro que quase posso ouvir a fala tua ritmando um riso frouxo. Mas não ouço. Porra, eu não ouço nada além de resquícios de seu tom em minhas memórias, não vejo nada além das memórias bordadas em cada canto dessa sórdida casa que não sustenta mais a sua presença.

Agora me afundo um pouco mais nessa água que ainda parece quente demais para a pele minha, mas eu suporto. Afundo um pouco mais para ver se há mais presença sua debaixo da água. E entre um gole e outro desse vinho barato, entre a música rouca ao fundo, entre mais um, dois ou dez cigarros sujos que queimam entre meus dedos frios, você sussurra estadias, saudades e solidão. Você mergulha nessa banheira, entorna meu vinho e me estende o isqueiro para mais uma tragada. Você revive minhas dores, suscita meus afetos, me rouba o ar e quase mata minha alma de asfixia. Porra, eu não fui capaz de me reinventar o bastante para sustentar suas distópicas fantasias de ser você. E por deus, como eu tentei.

O ano vira, os barulhos lá fora me recobram a consciência de que me reinventei numa versão solitária de mim. Meus afetos ainda te contornam os dedos e eu não faço ideia em quais bolsos você me jogou. O ano vira e quem você virou, pequena?

Ao fim dos corpos

Agora tudo é um silêncio incômodo e insustentável. Tudo dentro de mim é um berro alto, um caos insano que não me deixa ouvir a calmaria externa. Se ainda há alguma calmaria.

Deixei meu cigarro cair dentre os dedos meus, a brasa se esparramar ao chão em mil fragmentos flamejantes. Nenhuma brasa durou mais de três segundos, nenhuma resistiu. Mas não me importo, porque os cigarros têm sabor incômodo e amargo. Já não me trazem o sossego que antes me eram imediatos, ainda que passageiros.

Deixei também a bebida esquentar no copo. Logo eu que apreciava o poder anestesiante das bebidas amargas. Nada mais tem me dado momentos de fuga.

Na mesa, os rostos familiares me parecem cada vez mais distantes. Mais voláteis. Cada vez mais forçados e cansativos. Sucumbi a minha existência nesse bar. Não estou aqui. Permaneço escorada nesse canto da mesa e me recuso a participar dessas fortuitas conversas ridículas. Desse esforço gigante de parecer interessante e pertencente e integrada à vida. Não quero estar integrada a essa porra de realidade que não é minha.

Esses corpos vazios e vidas vazias e esforço extenuante para parecer normal numa mesa de bar enquanto toda a sua realidade fodida te consome. E a menina tão atraente ao meu lado parece não se cansar nunca de performar essa necessidade de estar ali. Quem precisa estar. Quem.

Eu me escoro na minha incapacidade de estar nesse bar, nessa mesa, nessa vida. Me debruço na minha fragilidade desse corpo cansado de ser porra alguma.

Nem os cigarros amargos, as bebidas fortes, nem esses rostos que num fragmento de segundo pareciam tão interessantes me trazem de volta à vida.

Quem se importa com política, economia, cerveja gelada, crise de relacionamento, início das férias, contas atrasadas, o cachorro atropelado, o mendigo que morre de fome do outro lado da rua. Quem se importa com o vazio existencial, a depressão do colega de trabalho, a ex namorada que tentou suicídio, a hipocrisia do cigarro na mesa e do LSD na carteira. Quem se importa com o yoga no domingo, a musculação nas segundas, quartas e sextas, o rodízio de carne no almoço, o perfume escolhido pra uma noite especial. Quem se importa com o casal em crise, o amor que não vem, a família desestruturada, seis fracos de ansiolíticos e uma garrafa de álcool. Quem se importa com a anorexia, os chocolates roubados, as crises de ansiedade e o choro trancado no banheiro. Quem se importa com a cocaína para abstrair, a cafeína para aguentar as tardes no trabalho e a traição com prostitutas nas quintas à noite. Quem se importa com a falta de afeto, a solidão consumindo o cerne, o abandono dos amigos, quatro corpos diferentes para foder numa noite antes de um lapso esquizofrênico. Quem se importa com chá de camomila, comida vegana, separação de lixo, caridade e noites permeadas por carência afetiva e perseguição ao ex marido. Quem se importa com a amiga internada, os remédios ilegais para emagrecer e as drogas para sobreviver. Quem se importa com o best seller na bolsa, os estudos em dia, o novo emprego conquistado e o garoto que pulou do vigésimo andar.

Ninguém. Os cigarros ficaram ruins e a bebida me embrulha o estômago. Não estou mais aqui.

dos prédios altos, amores que não caem

Me sento no parapeito do vigésimo terceiro andar e olho esse amontoado de corpos ocos perambulando a tantos metros abaixo. Tolice a minha, pois sou mais um desse monte de ossos e carnes e vísceras e medos sórdidos. Sou alguém que agorinha mesmo caminhava esbarrando em um sem fim de gente vazia. As coisas vão pingando tons mornos em poças rasas, descolorindo a essência, fatigando o cerne. As luzes sequer acendem mais e as janelas se fecham cedo. O escuro é um olho vívido acompanhando nossos movimentos lentos.

As noites se tornam longas e as conversas cansativas. No final da semana a gente só esperava um corpo quente para dividir as mazelas e angústias. Ah menina, talvez isso seja tudo uma ilusão, mas os dias ao lado teu foram tão reconfortantes, tão sagazmente doces que quase creio nos afetos que nos permitem repousar a cabeça no peito nu e aliviar a alma.

Você me era a essência amarga que dividiria a insensatez desse momento comigo. Por deus, menina, seríamos eu e você rindo desses corpos mal amados que ziguezagueiam longe de nós, enquanto trocaríamos os cigarros de dedos e balançaríamos as pernas. Nossos vazios compartilhados formando uma rede segura da solidão. Não era a altura que nos assustava.

Mas alguma coisa se quebra no decorrer sôfrego das relações humanas. Alguma coisa me faz frequentemente perder o ritmo certo. Quando por fim me encontro no compasso, no tilintar ressoante e calmo e rítmico, mil ventos internos me roubam os passos. Agora me sento sozinha nesses parapeitos altos e distantes e ridiculamente sujos, meus cigarros têm gosto de suicídio e abandono. Nenhuma companhia para acolher minhas dores. A rede parece tão mais fina agora. Quase te vejo aqui  de cima e você me procura como alguém que me ouve chamar, mas não sabe ao certo para onde olhar. E eu que te acompanhei descer as escadas todas, sem tempo de chamar o elevador ou pedir que ficasse.

Sua partida tem gosto de alma vazia. Meu cigarro queima a ponta do meu coração. Me debruço nesse parapeito e trago as últimas memórias tuas. Olha para cima, olha para cima, olha para mim.

emergiria entre multidões só porque seus olhos me eram únicos

Faz um bocado de tempo que o tempo passou, menina. Os dias, que no início da sua ausência eram longos e pesados, foram aos poucos retomando o tempo normal.Sua presença foi, lentamente, se esvaindo. Faz realmente um tempo danado desde sua última estadia em mim, um ano talvez. Ou mais, por deus, não sei contar quando foi exatamente que você se foi. Entre sua última palavra e minha certeza de que você partira levou um tempo grande. Sua ausência me habitou cem voltas de um relógio infinito.

Mas agora seu perfume sequer reside nos lençóis. Nem em minha memória consigo me lembrar de seu cheiro. Soa tolo pensar que a gente quase morre desses amores ocos e vagos e que, porra, parecem que não vão deixar a paz reabitar nosso peito. Mas eles passam, levando dias ou meses, em tempos amargos e tempestuosos, eles passam. Depois da casa vazia, da saudade ardida, da vontade te ligar e implorar pela pele na pele. Depois de um tempo em que os quartos continuam vazios, as luzes apagadas e nenhum outro corpo habitando a casa, passa. Um dia, depois de choros engolidos e a dúvida amarga do porquê o afeto tem esse senso de não-reciprocidade, passa. E depois a gente percebe que o perfume das paredes estão muito mais na memória ou que sequer há perfume mais. A gente nota que a presença alheia está mais no hábito, nas saudades e na dor do que, de fato, no amor.

Olhei sua foto hoje e sua familiaridade me soa tão estranha. Um corpo todo que foi um afeto meu. Uma alma que, por deus, eu quis envolver em sem fim de proteções e que eu emergiria todas as noites entre multidões só porque seus olhos me eram únicos. Você, que me era tão íntimo, familiar, sorriso perdido, agora aparece nessa fotografia como uma imagem desconexa. Te vejo e, ainda que muito perto de quem você me fora, não é de fato quem eu conheci. Me deu saudade, mas aquela saudade boa. Mentira, não é saudades… é leveza. É a calmaria daquele espaço que já foi caótico e agora é ameno.

Não sei, menina, por onde anda sua alma. Não sei se o perfume ainda é o mesmo. Não sei mais de seus sorrisos que tanto me encantaram. Mas os afetos passam, os perfumes secam e as ausências adormecem mesmo nas lembranças mais árduas, nos afetos mais egoístas. Você ainda me parece muito com aquela essência que conheci há um tempo danado. Foi bom te ver.

às camas vazias e nada mais sobrou

Vê se perdoa a ausência e me lê até o fim. Se ainda me lê, se ainda resta um ímpeto desassossego de me cuidar, insiste mais uma linha. Se puder, se ousar me sustentar mais um dia que seja, imploro como quem suspira um vestígio de vida. Por deus, menina, esses últimos meses foram um vendaval frenético e minha paz foi queimada numa brasa ardente de um cigarro barato. Logo eu que jurei em suas ausências me manter firme e forte e. Jurei caminhar durante as manhãs e manter a mente calma no trabalho, jurei diminuir o café, as bebidas e parar os cigarros. Jurei por ti e por mim, ainda que muito mais por ti, que seriam dias leves e calmos e doces. Ou seriam apenas dias amenos. Mas foram dias de caos e por dentro o vazio me consumiu e me engoliu mais e mais para dentro. Fui sendo uma repetição sem fim do meu vazio, feneci em mim. Fim. Mas, porra, eu que morria todas as noites querendo ressurgir como uma supra esperança, empolgada com uma inviável deterioração de vida, sucumbi. Me debrucei na minha incapacidade de me ser e, dia após dia, chorei em silêncio por não ter seu peito para me aninhar, seu afeto para cobrir minha solidão, seus olhos calmos para ocuparem os vazios entre o abismo e eu. Os cafés ficaram mais fortes e amargos, as bebidas mais frequentes e agora queimo a beira dessa carta com meu cigarro que há de ter todo o calor que ainda resta em mim. Pensa, menina, que os cinceiros derrubam restos de cigarros mal tragados por ti. Sequer tive a capacidade ou a audácia de limpar os restos teus dessa casa, dessa minha alma. Também não juntei suas roupas, seus perfumes ainda estão nas paredes, sua essência vaga em passos pesados entre a sala e o quarto. Mas toda vez que abro as portas é tão somente o peso da sua ausência que me abraça, se aninha entre meus dedos, me envolve o peito e torna minha estadia mais amarga. Acendo mais um cigarro porque você odiava que eu fumasse. Tento queimar suas lembranças com esse isqueiro um tanto sujo, um tanto fraco, mas você é como um aura que inflama, acende e, por fim, ascende em mim. A porra da tua lembrança só me fere o peito ao me dar conta que seu vazio da cama está cada vez mais gelado. A brasa perfura mais um lençol e meu caos escorre entre os copos que eram nossos. Acendo mais um cigarro porque você odiava que eu fumasse, mas é só para acabar de vez com essa sua carteira esquecida no fundo da minha gaveta. Da minha alma, te guardei no bolso.