às fotos e fumaças que te escondem de mim

A foto sua está embaçada, sem foco. Nunca aprendi a tirar boas fotos. Mas sua imagem borrada ainda é um esboço angustiante do meu bem querer. Você, tracejada e bordada nesse papel dobrado ao meio, que carrego por toda a vida em meu bolso, me é tão intimamente estranha todas as vezes que olho. Porra, ainda que a foto seja minha, ainda que eu mesma tenha feito esse retrato inebriante, ainda me parece um soco no estômago, uma surpresa incômoda perceber-te ali, me fitando com seus olhos calmos. Súplicas de segredo Te implorei, me conta. Não, porra, não, guarda seus segredos, todos os mistérios. Me resguarda com teus encantos, não me entrega as respostas. Porque, por deus, sei que se me conta tudo, tu vai embora. E eu morro. Eu juro que me dilacero, me desmancho num sem fim de pedaços. Então não conta. Não se entrega assim, ainda que eu me asfixie na incerteza de teu bem-me-quer. Me quer?

Me quer

Quer? Te pergunto e me findo na dúvida. Uma corda bamba. Um ritmo descompassado e a incerteza de te ter, mas ainda assim estou presa na absoluta e vulgar necessidade de ti. Vulgar pois me berra. Não sei afetuar-me em silêncio, em calmaria. Meus amores me comem os olhos, o corpo, a alma. Bem mais a alma. Me alimento, respiro e morro de frio abraçada em amor. Ainda que consumida pelas incertezas. E morro, por deus, morro todas as vezes que te vejo naquela fotografia um tanto amassada. Fui eu que tirei a foto? E seus olhos olhavam a mim ou a lente? Quem é que desvenda seus pecados, menina?

Passo horas absorvendo sua imagem. Te contaria cada detalhe meu, mas só teus olhos já me consumiram vinte vezes. E ainda tenho medo de te olhar. Nas últimas três noites todos os meus devaneios foram perdoados e eu entreguei meus segredos. Entreguei meus dias e minhas noites. Meus pequenos desejos e cada suspiro. Entreguei cada riso e agora eu me asseguro no medo de não saber mais me ser para continuar te sendo. Sendo o que mais você desejaria. Só deus sabe quantas vezes já morri e me reinventei apenas para ser a parte doce de quem amo.

Seus olhos, nessa foto escura. Você com seus olhos e dedos e alma inteira já me ocuparam os bolsos, contornaram meus pulsos, você adentrou a pele, me cobriu, vestiu, tirou a roupa. Você, em cem partes desiguais, me causou o desassossego de quem não tem pretensões de causar calmaria.

Mas, pequena, te peço, te imploro, se puder, se quiser ficar, ainda que sem me dar garantia alguma, fica. Ainda que me matando pela incerteza, mas fica. Pois o medo de te receber em segredos faz com que seus olhos de quem está prestes a partir me sejam bem vindos. Seus olhos, por deus, são seus olhos prestes a partir. Ou são olhos de quem nunca teve pretensões de chegar. Mas chegou?

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