Flores ao chão

Eu poderia percorrer as quadras todas desta cidade vazia, as ruas escuras desta maldita e inebriante estadia minha. Eu poderia vagar um sem fim de dias e noites e nenhum entardecer me daria a chance de acalmar meu peito aflito. Escrevi sobre amores em mil cadernos manchados de vinho e agora que meu afeto repousa num cômodo ao lado, adormecido ou entretido num livro qualquer, sinto meu vazio insuflar, minha caneta falhar, nenhum rascunho poder ser rabiscado. Agora que meu peito achou um sossego em teu braço, sinto meu amor poético esvaecer. Em vez de espalhar-se pelas paredes brancas, minha agonia mancha minha pele fria, espalha-se pelas mãos e pinga de meus dedos, sem nunca se esgotar.

Eu falava de amor como um modo sórdido de não me deixar morrer. Agora que me envolvo nesse caos de afeto que me berra melodias, eu morro por não saber dizer tudo que ensaiei em infinitas linhas tortas. Mesmo que eu corresse esta porra de cidade suja, eu jamais encontraria a paz de ser um todo amor. Se, por deus, eu fechasse os olhos e vagasse na chuva, no escuro, no breu de quem não sabe fugir de si, eu tropeçaria no meu inexistir e cairia cem vezes pra dentro de mim. Poderia te olhar nos olhos e nunca esboçar o amor que emerge de mim e me dilata as pupilas, mas amordaça a alma. Teço-te de meu afeto até não sobrar nenhum pigmento em meus linhos.

Minha última carta sem destinatário suplicava para que este mundo fodido permita que deixem sentir um amor qualquer, um caos em meio a céu aberto, deixem viver o delírio de ser afeto, mesmo que seja efêmero – e quase sempre é. Mas ninguém – nem eu mesma – nunca falou sobre a necessidade de poder enterrar os amores mortos. Há muito peso em querer viver uma flor que só se deixa tocar depois que despetalou-se em desafetos. Há amores que só se tocam quando todo o caule repousou no chão.  Se eu pudesse correr com os olhos vendados, nesse exato momento, em qualquer direção desta porra de cidade, eu tropeçaria em minhas construções de afeto que tento reviver, e das minhas feridas sairia o seu sangue vívido que me arde em calmaria.

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Anoi(te)cer

Olhei um sem fim de vezes forçando a vista ao que achei ser amor. Me enganei. Olhei, com os olhos semicerrados, o mais distante que minha’lma aflita e fatigada me deixou supor. Não havia resquício de humanidade nos arredores.

Mas acho que é isso, pequena. Essa merda toda que a gente habita é só uma casa de fazer vazios. É somente um quarto alugado, com paredes um tanto sujas, que fazem as noites parecerem um tanto mais sórdidas, mais cruéis.

Visto-me de minha melhor tenacidade para enfrentar o lúgubre desfigurar humano nos olhos alheios. Por deus, por isso prefiro as noites, os lugares vazios, os corpos virados nas sarjetas, as almas que passam feito borrões por mim. Prefiro-os pois me evitam o cruzar de olhos, impedem que eu possa, ainda que despretensiosa e descuidadamente, pousar minha atenção em suas banalidades sem alma, em seus dentes sujos, em seus sorrisos falsos. Os dias – ah, esses malditos dias claros que vociferam e ecoam e cospem em minha cara lavada a vida que não vivo -, esses são ciclos completos dos ponteiros do relógio, mais um circular e mais um e mais outro. Infinitos tiquetaques até que as sombras do entardecer me finquem a pele fria.

Eu tenho a cor desse quarto vazio, fodido, abandonado. Eu me misturei às paredes, bordei-me à tinta descascada, eu fiquei fina feito pó. Virei um peso que ninguém além de mim mesma é capaz de sentir. Mas, por deus, como me peso. Uma tonelada capaz de afundar o chão, se houvesse qualquer base capaz de me sustentar. Não há. Por isso eu afundo por dentro, faço um buraco em mim e vou caindo em meus abismos cavados. Cada vez mais fundo, cada vez denso, cada vez mais.

Mas não me dói. Não me fere. Não me assusta. Pelo menos não mais – esses meus cafés amargos não me deixam mentir – já me doeu. Porra, cair numa imensidão de mim mesma já me estraçalhou em um sem fim de pedaços fodidos e incoláveis e incosturáveis e inamáveis – desculpe a liberdade linguística, mas a minha falta de existir me obriga a recorrer às palavras inexistentes também -, mas agora não me dói mais. Fui caindo sem fim e morrendo pela falta de sentir. Mentira! Senti demais. Demasiadamente. Exauridamente, senti até derramar de mim tudo que pensei ser. Não restou muito.

Depois que suas construções fodidas se esgotam, os corpos viram massas dispersas. E as almas, antes inúmeras, são apenas licenças poéticas. Prefiro as noites pois me desobrigam a olhar a esperança ilusória de que há um algo a mais. Tanta gente cruzando-me as esquinas e nenhum peito ameno para repousar minha mente exausta. Esqueço de apagar os cigarros pois é tão somente a brasa que me queima os dedos capaz de me fazer sentir.

Mais uma hora e o som lá de fora começa a vibrar mais calmo. Este inferno humano vai existir longe de minha alma cansada. Se ainda há alma.

Olho as paredes sujas e minha agonia atônita está presa no cambalear do ponteiro do relógio. Sinto que há sete noites entre cada arfar meu, mas esse tiquetaque insiste em mostrar-me que faltam 2 ciclos solitários para que a tristeza seja misturada ao breu da noite.

Espelhar

Olho minha pele rabiscada no espelho um tanto sujo e percebo que me pareço cada vez menos com o que sou e mais com o que gostaria de ser.

Mas, veja, não quero soar otimista ou tolamente vislumbrante. Não é como se eu quisesse me afastar desse externo eu que é, eterna e infinitamente, eu. Na verdade, quase creio que me fora dada a chance de ocupar um pouco de mim com o que, de fato, sou. É como se meus pulsos cansados agora pudessem ser marcados com um tracejo de alma que berra minha essência, ainda que sórdida, ainda que amarga, ainda que desumanamente sem essência.

Olho-me no espelho intacto, mas vejo um corpo estilhaçado. Não de hoje. Por deus, os fragmentos são uma ferida velha. Mas o reflexo é de uma sombra um tanto mais distante de tudo que foi dilacerado. Mas repito, não é essencialmente uma forma de fugir do eu que veementemente será sempre meu. Ainda que pudesse livrar-me da pele fria, duvido que me seria dada a alforria das memórias cruas e fodidas. Então me resta habitar esse espaço corporal entre o caos e o fim. Entre o frenesi e o fenecer. Entre a flor que despetala e nunca morre.

Permito distanciar-me do que carrega o breu do existir e rumar ao fragmento de mim mesma. É como se assim, e tão somente assim, a cada estilhaço meu uma nova história possa ser recontada ainda que exatamente igual sem nunca, de fato, ser a mesma. Um milhão de vezes, se for preciso, mesmo que sem começo, mas também sem o fim de quem já morrera eternamente refletida mas sem ver-se no espelho.

Neblina

Apago as luzes para ver se me diluo pelo cômodo, para ver se meu breu interno se mistura ao escurecer da sala. Mas nada muda, nada sai de mim. Nenhum peso incômodo me larga os pulsos, nenhuma aflição atônita diminui o tom.

Meus olhos, já adaptados ao novo inebriante sombreado das paredes sujas, ainda vêem o profundo caos que exala de minha derme fria.

Lá fora os ventos são frios. Ou quentes, já não importa. Aqui dentro nenhum vendaval é capaz de me assolar, pois não resta muito além do fim. Uma linha sem toque, uma nota acima do nada.

Os dias mudos me ferem os ouvidos – mas, por deus, são quase dias amenos. Parece que há um gracejo fino que me separa do mundo e, do lado de lá, hei de ter um segredo que me daria paz. Algo que não me foi permitido saber sobre acordar e dormir e respirar com a certeza de que vivo.

Bobagem, só eu sei quanta bobagem ando dizendo nesses tempos amargos. Menina, se tu soubesses que nenhum café resiste quente aos meus quase fins, se soubesses que os cigarros me marcam os dedos e me queimam a alma antes mesmo de eu sentir o gosto amargo, se soubesses que as garrafas se empilham e a bebida amorna em meu copo. E agora, sabendo de tudo, os cafés frios, brasas em chamas e álcool ruim já não me servem de acalanto, o que te peço? O que te digo?

Como digo que esta sombra tenra que há anos me habitara e – tola – achei ter-me abandonado, voltara. Acordo num despertar assombroso, feito uma batida de porta que me rompre o sono, o sossego. Ainda que não haja porta. Não há saída.

Meu eco insonso volta a reverberar, berrar, escancarar meu peito fodido. Meu vazio vibra numa intensidade que fere meu sétimo existir. Não existo mais.

Pequenos debruçar-me em meus caos. A luz de mim ofuscou e, agora, a sala escura parece pouco assombrosa para meus olhos cansados.

Afinei, mirrei, dobrei-me em cem pedaços frouxos de alguém que não mais existe. Mas foi, juro, para esquivar-me da dor, do despetalar frenético que me matou por dias sem fim. Agora, o que restou não me serve para combate. Sou pequena demais para caber em mim de volta.

Um quase nada, um eco baixo, um adormecer que me salva do fim, mas não me resgata da vida que me mata. A luz me respinga mas não me reflete.

Musical

Uma folha seca cai aos meus pés e um estrondo vocifera ao meu redor. Todos os ecos da minha fala rouca são pausas do meu arfar.

Agora o som meio sem melodia toca baixo na sala grande demais para meu corpo mirado que está escorado a 100 metros da paz.

Por deus, minhas entranhas reconhecem esse tamborilar quase seco, quase oco, de uma música que há tempos eu não ouvia. As paredes dessa sala são tocadas por um sem fim de dedos brancos demais para alguém que vibra à luz da vida.

Mas não pense que não havia som até há pouco tempo. Havia. Devia haver timbres crescentes, badalos frenéticos, tomborilares que ensurdecem a quarta paz de um alguém afetivamente são. Deveria haver dez notas frias e quentes e amargas e melodiosas e. Nenhuma era minha. Nunca fora.

Antes eu as ouvia. Deitada nesse chão incólume e denso e frio. Debruçada numa calmaria falseada pelo fim que caminha mas não chega, que me escapa mas não cessa. Eu ouvia notas pesadas de um amor que não viveu para virar sentimento capaz de me tocar a derme, só a ilusão de ser qualquer coisa mais do que esse quase nada.

Mas eu ouvia paz e dor e fim, ouvia a nota surda me perfurar a carne. Emudeci.

Por um sem fim de dias bons, eu fingi que as músicas não haveriam de ser continuadas. Fingi, por deus, que eu era um corpo surdo para a dor que me sangra o existir.

Agora ouço. De novo, como eu quis jamais ouvir e ressoar, ainda que quase morta do meu emudecer, uma melodia que me veste mas não me deixa sentir.

Reescrita

Há tempos que as folhas repousam brancas em minha mesa. As canetas – que da última vez já riscavam quase sem tinta – permanecem igualmente debruçadas na madeira dura da mesa oca.

Faz tempo que linha alguma se ocupa de meus anseios sôfregos e angústias tolas. Não, por deus, não que existisse paz ou calmaria a ponto de não haver o que escrever – pois minha única forma de dizer qualquer coisa, as coisas todas, sempre fora escrevendo.

Houve. Só eu sei como o barulho me fez emergir falas inteiras, assim como o silêncio me fez sentir até o último resquício da ânsia por dizer.

Mas não disse. Por tempos eu não disse, não soube manifestar nenhuma palavra conexa à outra. Nenhuma frase consonante à minha’lma aflita exatamente por não saber exprimir – mas que besteira isso tudo. Alguém que sofre pelo silêncio enquanto se exime do barulho alheio. Mas devo, anseio, arrisco dizer: sou o que sobrou da minha sórdida vontade bradar no meu eco aflito. Sou o que não sabe fazer-se em meio ao caótico evervecer das multidões. Milhões de corpos barulhentos que falam um sem fim de sons e nenhum sentido.

Respiro.

Sou o tecido do silêncio, sou um nó que se faz e desfaz nos emudeceres. Mas é só depois de um bordado denso que, de fato, existo. Somente quando transpasso para o papel, um tanto mais branco que minha alma fraca é, eu me permito vestir-me disso que me resta ser: mangas tão mais longas do que os braços meus. Vontades tão mais distantes do que a vida me permite ter. Um tecido tão mais grosso que meu corpo há de poder suportar. Uma dor tão mais ardida do que meu peito há de saber arder. Uma roupa tão mais pungente do que meus olhos sabem apreciar revestindo uma alma que se desfacela em cada sopro frio de um viver que não espera os desesperados.

Mas, olhe, não é costume me perder em minhas falas. Acho que a ânsia acumulada me despertou uma multidão de desejos falantes. Preencho agora um sem fim de linhas e me perco no emaranhado de meus culposos emudeceres.

Respiro.

Escrevo pra registrar a paz que me pende o pulso esquerdo, ao tempo que o suplício de permanecer em mim corrói a carne da mão direita. Minhas canetas permanecem repousadas na mesa e meu cerne se debruça próximo ao fim de mim. Morro a cada linha e me recomponho antes da próxima – porque alguém já me disse que escritores que não morrem escrevem nas paredes da alma.

Um silêncio agudo

Há uma certa honra a ser mantida quando a luz solar baixa. Há um protocolo tácito que se repete infindável, inexpremível.

Por Deus, não é como se os segredos devessem ser mantidos. É muito mais tenro e árduo do que esquecer rostos que furtam maços de cigarros às três da tarde. É como dever calar o som ecoante de falas duras e amargas e fúnebres sobre almas que adormecem sem nunca terem acordado.

Olha só, menina. Adormeço nessa cadeira um tanto dura, nesse sofá um tanto gasto, com uma bebida amarga demais para meu paladar.

Sintoa chama da vida se apagar dentro do meu peito e álcool nenhum a faz se reerguer.

São esses malditos acordos cegos que nos fazem adormecer em nossos podres desejos de virar a mesa.

São esses tortos e infames acordos que nos fazem sorrir com um canto de boca em vez de berrar a agonia do dia que se repete. Se repete duas, dez, vinte vezes.

São os dias que nascem e morrem diante nossos olhos. Mas há uma janela que não nos deixa esquecer que mais um dia se foi. Ou menos um virá.

A gente adormece antes do fim para que o cansaço nos permita levantar para o fim anunciado que se repete. De novo. Toda dia cada vez mais fundo.

Mas e um segredo que devemos guardar mais um segundo. Mais um suspiro. A vida se repete em ecos que não ouvimos. Um jogo que ninguém ganhou e um estrondo que ninguém ousa admitir ouvir.

Ardor

Não é como uma porta aberta que bate estrondosamente em meio ao silêncio. Não é como uma louça fina dilacerada em meio ao salão, se repartindo em cem lascas finas que não podem mais se colar.

O peso sórdido da dor é que poucas vezes ela é um vendaval em meio à tarde ensolarada de domingo. O amargor insano é que ela cresce aos poucos, comendo seus tecidos da roupa, roubando suas cores variadas, se instalando fundo nos bolsos da calça.

O seu peso insustentável é que ela surge como uma pequena mancha no canto da sala, uma ponta da coberta escorada no chão. Tão insigne, tão desacreditável, que sequer nos damos ao trabalho de medir seu tamanho.

É um se ocupar da alma constante, em que cada café frio e cada cigarro queimando o entre dedos dispersam um pouco nossa atenção dessa dor que, agora, se distribui entre cada bolso da roupa já meio velha.

Me sento nessa sala vazia e olho pra um abismo que não me devora, mas também não me deixa atravessar. Me agarro às bebidas que me queimam a garganta, pois agradeço sentir algo que não o cansaço desse meu eu. Esse meu sujo e torpe e exaurido eu que, por deus, me resta ser. Se é que sou.

Mas a vida é mesmo um tecido fino demais, feito pele marcada pelas alegrias e lamúrias de um quase viver, quase sentir, quase se rasgar um sem fim de vezes.

Porque eu escrevia. Eu sentia. Eu ouvia, ainda que essa porra toda me dilacerasse o peito, a alma. Eu enchia linhas sem fim com o meu vazio só para tentar ser um pouco mais do que nunca fora.

Agora as poesias se apagam antes do terceiro suspiro. Agora as linhas, antes lotadas, são espaços vagos, carentes, ausentes.

Minhas linhas ocupam páginas brancas e eu já não tenho cores.

Por deus, como me perco em minhas explicações. Eu que dizia que as dores são pequenos riscos na parede da alma ganhando espaço entre os risos forçados. Eu dizia que as dores são manchas amargas que se espalham tão lentamente que, quando me dei conta do abismo dolorido que me ocupou, era tarde demais pra abandonar a casa. Quando vi, meus pés estavam à beira do precipício e minha alma mal escrita, mal dita, junto de minhas malditas palavras escorriam para um espaço que eco nenhum se atreve a ressoar.

Tentei falar por mais um sem fim de vezes, tentei calar em mim o caos que insistiu em corroer minha pele ferida. Tentei por dias costurar minha alma estilhaçada, mas os dedos meus se feriram perfurados pela incerteza desse sentir. Se é que sentia – talvez a dor seja só o vazio ressoando tão fundo que nenhum espelho se quebrando em meio às salas vazias possa ser ouvido, ainda que todos os estilhaços se finquem à pele fina da nossa recusa em ver a dor. Em ver ardor.

Florescer

Meus olhos semicerrados de trás das lentes um tanto sujas, um tanto foscas de meus óculos são só um eufemismo para minha cegueira d’alma. Minha voz rouca é só um retalho desse caos que me silenciou.

Mas, por deus, como as dores e ardências dessa vida fodida ganham tons poéticos quando são bordadas em corpos que não os nossos. Todo escritor é um abismo de cicatrizes não sentidas por quem o lê.

Mas caminho nessa reta meio inebriante e desvio dos reflexos de quem sou e não quero ser. Ainda que os seja incansavelmente. As flores mortas despencam das árvores e atingem o chão antes do meu próximo passo. Toco nelas e são tão mais vivas do que eu, ainda que padecidas em seu fenecer. Morri três vezes mais e ainda invejo a paz de quem se deixa cair do topo do galho sem ao menos temer o encontro com o solo. Meu abismo nunca termina porque minha queda é a linha fina que me sustenta.

Almas que ascendem

Há centenas de pessoas incríveis. Aos montes, espalhadas por aí. Há centenas de ações incríveis repetidas insistente e sorrateiramente por aí. Todos os dias, uma pessoa banal vence a si mesma e, no mais perene silêncio e anonimato, ergue-se sobre si mesma.

Juro a ti, se sair correndo o mais rápido que puder e contornar sua quadra às 5 da tarde, você esbarrará numa história incrível ou duas delas. Ou dez. Nunca se sabe.

Mas nem sempre estamos atentos às almas doces, aos encantos alheios. Estamos sempre tão absortos em nossa própria ânsia de ser que deixamos os fatos incríveis ocorrerem bem ao nosso lado sem, ao menos, deixar que eles sejam minimamente notados.

Eles quase nos tocam os ombros com seus dedos longos. Mas passamos ilesos com mais constância do que a justiça há de acordar. Mas é sempre um maldito quase que cava o abismo de cegueira ao nosso redor.

Todos os dias, vamos nos prendendo em nossa sôfrega vontade de sermos mais do que nós mesmos, que perdemos essas almas que vêem em nós os atos incríveis.

Queremos ser melhores do que tudo que já vimos, então não vemos nada mais além de nós. Na nossa pequenez e mesquinharia de ser nada mais. De ver nada mais do que achamos ser incrível. Não somos. Não vemos. Chegamos o mundo e, ao lado nosso, o incrível se prolonga sem nem ao menos nos fazer piscar.