Faz moradia

Agora a casa retoma seus timbres amenos, baixos, quase mudos. Quase se não fosse pela memória tua que vaga pelo corredor, faz ranger o piso frouxo, faz ressoar feito uma melodia dançante a voz tua que há pouco ecoou pela sala.

Agora a casa desaquece lentamente. Propaga o silêncio do não mais estar, ainda que você esteja em cada canto do quarto, de mim. Debruçada em minhas janelas da alma, você me espia com olhos tenros e despertos. Você me segura com a audácia de quem sabe exatamente o ponto fixo da segurança. Você me solta no nó frouxo da minha insensatez. Pois eu era paz, menina. Eu era um manto negro estendido ao chão. Nada me feria, nem me atiçava. Nada repercutia em mim, mas nada atravessava meu peito que, por deus, há tempo não sentia mais nada. Nada mais.

E depois de sua ida vaga, sua partida doce, tudo que me era vazio e concreto desmoronou. Feito um castelo de cartas no vento, eu me estilhacei em cem fragmentos de mim, de não saber quem sou e, se sou, por não saber o que fazer disso que, insonsa, carrego em mim.

Você partiu e, mesmo deixando as cores rítmicas da sua presença, um choro agudo me invadiu o peito, o cerne, comeu minha carne, entrou pelas narinas, se embrenhou na escória da minha alma. Chorei cem dias de solidão e não haverá mais lágrima para me despir dos outros cem, duzentos anos. Foi silêncio e caos ao mesmo tempo. Foi a paz sem fim de um noite já acabada. Minha dor escorre pela janela e encontra você debruçada nela. Hoje você se foi, mas resta de ti moradia e o tempo que vagueia. Resta teus olhos pungentes, tua voz que sussurra ainda que sem me verbalizar nada. Resta sua cor preenchendo minhas paredes sujas, flores secas, meu caos quase sem tom, sem vida. Eu que não quis nada mais de ninguém, presença e ausência, te pedi pra ficar. Logo eu que só queria um emudecer prolongado dessa casa, quis fazer moradia entre os seus dedos e toques singelos. Agora que a casa soa inebriante e só reverbera sua não presença, eu sinto a ausência tua me bater à porta, se aninhar em meus bolsos. Eu disse fica, ainda que sem dizer. Mas a casa já está em silêncio é o seu lado da cama esfria sorrateiro e solitário.

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nenhum comodo há de dizer que não tenho morrido em suas ausências

A música rouca ao fundo faz meu coração se trincar. Meu peito sofre um estilhaçamento contínuo e perpétuo. Em cada linha desse quebrar-me insonso ressoa sua tez pálida. Por deus, se você soubesse que me é a força certeira a me salvar e trincar, a me desvelar e me trazer à vida. Mas não sabe, não há de saber.

Como uma pequena ousadia que vocifera do lado de fora desse meu estupor falido e fodido, como uma ressalva amarga, mas que ainda me salva dessa vida sem fim, desse fim sem vida. Eu, pequena demais entre seus olhos grandes de coragem, vou me moldando entre as frases doces e soltas que você entoa. Eu, frágil em minhas perdidas incertezas, vou me despindo das dores de não caber em lugar nenhum. Me aninho em suas mãos e deixo que meu caos escorra pelo vão dos dedos seus. Mas às vezes cresço, fico imensamente incabível nesse mundo, nessa essência sua e tão somente sua. Então sofro, morro por dentro por não saber onde me escorar, onde me debruçar senão entre os feixes doces de sua luz. Tenho um medo danado de ser uma presença que você não suporte carregar, um colo que se dissipe no tempo afetivo por não saber mais como ser afeto. Tenho um medo danado de ser e me ser demais, ao mesmo tempo que me arrisco em me ser ausência e acabar por ser de menos.

Mas quando posso, quando ouso ser mais do que a mim – e tenho sido, como tenho sido! -, eu te recolho em meus bolsos. Tenho te construído de memórias e pequenos esquecimentos. Desses disparates que fazem você perder uma folha rabiscadas da sua agenda, um lenço, uma roupa velha. Tenho surrupiado pequenas partes suas para que assim, e tão somente assim, eu seja capaz de manter uma pedaço seu junto a mim em segurança. Sem que nada me desassossegue, nem as palavras doloridas, sem os silêncios incômodos, sem que nada te tire de meus olhos feridos. As paredes de casa já bordam afetos teus e nenhum comodo há de dizer que não tenho morrido em suas ausências. Mas morro também em sua presença, pois me fere esse existir tenebroso e pesado e asfixiante de precisar me ser quando estou junto a ti. E sou, num esforço trepidante, que me exauri, que me faz estilhaçar de ponta a ponta,como um espelho que não suporta mostrar a imagem refletida de quem verdadeiramente sou.

E nesse misto de olhos vagos e suplícios quietos, nessa paz que não vem, nos dias que não me traem paz, na paz que se aquieta em meu sorrateiro choro interno, você vai crescendo em mim feito uma música triste. Quase não sou mais capaz de te abarcar. Vou me desvinculando de meus laços e, por deus, começo a me contornar em minhas afetuosidades. Queira a vida que você me deixe entre suas pulsos e dedos, bolsos e malas bagunçadas. Mas você vai ficando tão grande, me apertando por dentro, vai me escapando, me escorrendo, me transbordando. Chegará a hora que, debruçada nas minhas construções tortas de ti, poderei embalar-te apenas nas memórias que resgatei. Ninguém cabe muito tempo dentro de um corpo, ainda que seja uma doce alma calma.

As janelas mais vivas. Os cafés mais quentes

Você me ressoa como uma dor pungente.

E eu me recosto na beirada da janela esperando seus retornos. Contornos. Entornos. Ao fundo, uma música que me aperta o peito. Pois me lembra sua voz rouca. E seu café amargo repousa na mesa. E seu perfume impregnado em cada conto da casa, da alma, me remete às suas ausências.

E me fere. Uma dor que me atinge como uma lança cega. Me corta o peito. Invade a alma. Meu amor escorre pois já não me cabe. E, menina, tenho tanto medo. Tanta dor de ti.

Me aflige o desassossego de te ter em mãos e não saber segurar. Me agoniza a ideia de te perder e desmoronar em mim. Numa solidão frágil e inacabável. A solidão do seu afeto me consome, me corrói.

E me escoro em janelas e cantos seguros que me protegem de minhas angústias. Tomo cafés e acendo cigarros que sequer fumo. Me ocupo de banalidades para que, quem sabe, eu me ensurdeça para minhas aflições.

Te confesso, tenho receio de me ser inteira e acabar por te ser presente demais. Espaçosa demais. Mas tenho medo de ser cautelosa e acabar por me ser ausência em ti. Pois te tenho afeto de um modo que me rompe o que sou, o que quero ser, o que preciso ser. E tudo se mistura num não saber mais quem ser.

Mas te quero em verdade, em presença, em um querer-te tão profundo que me anulo em suas ausências. Como um filme que baixa o som, a luz, o ritmo ao não ter plateia. Como se sua presença me fosse de valência vívida. E é. Porra, e é. As janelas mais vivas. Os cafés mais quentes. As músicas mais sonoras.

Seu perfume costurado nas paredes e sua feição bordada em minhas vísceras. A casa ressoa em seu timbre. Eu me tilinto em pecados seus. Me escoro em janelas desbotadas do jeito mais sórdido que há: na espera do retorno de suas tonalidades.

Sete agonias mudas

Faz silêncio lá fora e dentro do meu peito soa um longo e constante assovio. Nem alto nem baixo, nem seco nem eufórico, nem inebriante, menos ainda calmo. Agora ainda é um assovio oco, rouco, estável. Um zunido que soa distante, mas se agarra às instâncias do enlouquecer-me.

Por deus, minha pequena, queria escorar-me em suas cores, me aninhar em seus braços, entre sua paz e seu caos. Queria, ainda que apenas por hoje, sentir-me recoberta por seus olhos turvos e olhares vagos. Queria encolher-me entre seus dedos e ficar do tamanho de seu riso frouxo. Ah, pequena, se eu pudesse, se a vida me brindasse com a efuziante audácia de ficar do tamanho dos meus arranhões, dores e temores – por deus! – eu seria enorme, não mais caberia nesse quarto, desse lado da cama.

Queria, se houvesse um único desejo, me entrelaçar em seus passos tortos, toques doces, em seus timbres rítmicos. Queria só por hoje calar o mundo, esquecer que cem almas podres vagam nas ruas vazias, permitir-me melindrar em meus desafetos, calar o mundo que morre de fome e de sede. Queria escorar-me na luz que vem de ti, afrontar-me nas sombras e ver um feixe do seu tom me transpor, transcorrer, penetrar. Deixar, ainda que só hoje, que tudo que te salva me ocupe, me invada e me transborde. Fechar os olhos no seu colo e derramar o que já não me cabe, se é que um dia me coubera. Escorrer de mim o que não sou, não ouso ou não posso ser. Pingar, escorrer, me esvair de mim entre sua tez, entre sua fé, entre tudo o que já não me sobrou.

Hoje, se deus me permitisse, eu queria derramar de mim, esquecer que o mundo é esse emaranhado caótico ao qual não pertenço e não sei mais se um dia, de fato, pertenci. Queria me absorver em seus poros e sardas, me ocupar de seus jeans velhos e bolsos fundos. Queria adormecer na tua paz, longe do meu silêncio que me sussurra sete agonias mudas.

Aos fins

Ando tão cansada, pequena. Tão exausta desse meu nefasto existir que sinto poder debruçar-me em minha inexistência. Me olho no espelho e a lamúria toca a sordidez do meu eu. Menina, você já sentiu como se seus ombros afundassem, te obrigassem a curvar as costas, como se sua alma arrastasse mais cicatrizes do que qualquer podre humano fosse capaz de carregar?

Por deus, meu reflexo agora é um turvo e inebriado emaranhado de cenas não vividas, amores fodidos, gritos contidos, sussurros que me sufocam. A porra dos meus olhos que me fitam no reflexo são dois espaços vagos, ocos, vazios. Dois ecos eclodindo de angústia. Sem cor, sem tinta que ouse entupir a amálgama solitária que olha mas não vê.

É como se eu fosse perdendo um pedaço meu a cada dia, menina. Uma morte lenta e solitária. Me sentei em frente a um espelho do tamanho do mundo e me olhei, calma e sorrateiramente, decompor. A cada dia perdendo um pedaço, perdendo-me em pedaços e, porra, a cada perda eu enterrei um corpo inteiro meu. Fui fazendo um funeral completo. Uma marcha fúnebre de mim para mim. Entoei, toquei em três tons e refiz a melodia no mais alto timbre que alguém que não mais vive poderia ousar. Repeti meu fenecer até que senti a morte minha única companhia. Morrer não dói mais. Ainda que todos os dias eu tenha que viver de novo, repito essa cena podre de quem se finge vivo só para rememorar o inferno de estar em si. Meus espelhos caóticos nunca racham. Refletir não me obriga mais a existir, menina.

Às peles minhas

A dor é um ciclo extenuante que me assola e me vence pelo cansaço. Ela adormece e renasce em mim cem vez antes que eu possa me dar conta que já me matou mais um pouco. Hoje a dor se estendeu como um manto árduo e áspero, como um tecido denso e manchado. Sem espaço pros meus braços, a dor me cerceou os movimentos, me vendou os olhos, me asfixiou a alma.

Você me é uma pele branca demais que não ouso tocar. Por não poder ou não saber se posso, eu te olho de longe. Nos dias bons, você quase me soa acalanto. Quando a melancolia recobre os ponteiros insonsos do meu relógio, sua tez pálida me berra um despretensioso escárnio, um pudor despudorado, um tocar-te tenebroso que me gela a alma e me rouba a paz. Quando te olho, vejo uma calmaria que algum deus um dia me prometera. Quando te olho, menina, teus olhos desvirtuados me corrompem a esperança e quase sinto a dor esvair-se de mim. Mas ela renasce mais densa. Porra, feito uma lança cega, feito uma estaca ardida me encarnecendo o peito, me dilacerando a alma, me depredando de dentro pra fora. Vou morrendo em frames curtos demais para chegar a, de fato, morrer.

Feito um casaco estirado ao chão, me debruço no que resta desse meu fatigado eu. Me escoro nas minhas parcas forças, escassas forças, mirrados lampejos de força. Hoje, por deus, tirei o telefone do gancho só para ver se ainda funciona. Ainda que eu não queira ver ninguém, ainda que os dias me isolem em mim mesma, preciso confirmar que o mundo me esqueceu: funciona, o toque contínuo e oco do outro lado do gancho me rememora que o mundo vive lá fora e eu reluto entre minhas mortes, entre meus sussuros doloridos, meus silêncios fodidos, entre toda essa merda que me fere em três tons sem cor, sem vida, sem mim. Me debruço nesse meu desalento caótico e já não sei mais quem sou. E se, por deus, ainda haverá alguma capacidade de ser.

Silêncio

Como um espelho que se estilhaça cada vez que adentro o cômodo dessa casa incomodamente vazia. Como um vidro sujo que se fragmenta e, rapidamente, tem seu corpo rijo atravessado por um raio denso e profundo. Nenhum reflexo meu se espraia na superfície, mas cem pedaços de minha alma torpe e sórdida berram agonias passadas.

A casa mal iluminada é feito um assombro desassossegado, nenhum corpo habita os quartos, mas as presenças estão impregnadas em cem feixes profundos nessas paredes tão mais densas, tão mais tenras. Minhas essências se acimentaram na cor desbotada da alma imunda. Essas tintas foscas mal escondem os passos que não dei. Os tapetes mal recobrem o chão turvo que não sustenta mais meu corpo, meu inescrupuloso eu. Meu eu ainda que sem mim. Meu inebriante eu que não me serve, se é que um dia já me vestira. Acabou a luz e eu permaneço na iminência dessa mal dita casa. Maldita estadia minha. Acabaram-se os dias bons e restou o que juntei de meus pedaços rachados e espelhos trincados.

Entre meios

Estou entre o dia e a noite, entre o inverno e o verão, entre o caos e a paz serena. Até a última vinda sua, eu estava aqui, sentada à beira de mim mesma, à espera de um amanhã sorrateiro que, por deus, me salvaria de mim. Ainda que os dias sejam sempre os mesmos, ofertando uma réplica diária que me assosegue em mim, ainda que todo dia seja exaustivamente um estatelar intrépido de cem almas sujas, que nenhuma delas me doa como dói existir em mim. Nesse mais pleno e sórdido eu, nesse nefasto timbre meu que me exauri só, e tão somente, por ser eu, me desmancho, me desmantelo, me sucumbo em minha presença nesse mundo. Estou entre tudo que sou e não quero ser, entre o sol que me toca e a luz que me impede de ver, estou entre o vento que me acorda e a asfixia de estar aqui, entre o perfume doce de sentir-me e a extenuante fragrância de resistir sentindo. Estou entre mim e o abandono. Entre o que resta e o que não veio. E eu não vim.

Porra, há dias, há meses não tenho vindo, sequer visto os olhos meus. Minha alma vaga tenra e solitária sem um corpo. Mentira. A alma se foi, mas o corpo venceu a essência e resiste entre os dias longos, os cômodos gélidos da casa, entre a ausência amarga do existir solitário em si mesmo. Ainda que não sozinho. Nenhum fantasma desabita um bom corpo sórdido. Assim como nenhuma cicatriz se esvai da pele fina. Abracei sete demônios e todos eles me abraçaram de volta. Será que entre os cafés e os cigarros cabem mais esperanças, ou será que me debruço em minha ousada estadia destroçada? Meu espelho me reflete melhor quando esboça meu reflexo turvo, distorcido. Combina mais com o peso dos meus olhos. Agora, entre os dias e as noites, entre o relógio lento e a vida que não passa, sou só uma mancha turva escorada numa dor pungente que fica entre o fio da vida.

Meus ombros pesados pesam menos do que ontem e, por isso, hoje eu gosto um pouco mais deles.

Gosto da linha curva que os tecidos assumem quando o corpo, cansado e mirrado, vai minguando sob os ossos. Ainda que numa enunciação meio fúnebre de quem não sabe bem o que diz – ou ainda pior, sabe o quão horrível o é dizer, mas ainda assim atreve-se a pronunciar -, eu gosto do peso escasso que as entranhas vão assumindo entre os dias. Os olhos turvos vão tendo dias de neblina interna. Em frente ao espelho, meus dedos contornam um osso que agora se sobressai. Isso me soa mórbido ao mesmo tempo que me dá um prazer assombroso.

Minha alma acumula um peso bem mais denso ainda que meu corpo pareça um pouco mais frágil sob meus ossos, minha essência está meio suja há alguns anos. Acho que meus fantasmas pesam tanto que esse amontoado de peso que vejo no espelho é reflexo das dores de alma. Será que dá pra esmiuçar-se tanto a ponto de sucumbir a si mesma? Ficar pequenininha, contornada em minhas costas magras, clavículas expostas, nos dedos longos que almejo ter?

Será que a alma pesa muito quando a gente pesa pouco?

Espelhar

O reflexo denso dos meus olhos me assusta. O espelho intacto paracetamol se fragmentar em um sem fim de rachaduras e estilhaços quando vejo meus demônios refletidos no que deveria ser eu. Se me desmancho em tintas sem cor, sem tom, me acentuo em timbres e retoques de assombro. Meus olhos cansados não se prezam a serem oblíquos nem dissimulados. Nas melhores hipóteses são olhos fodidos e que entregam uma alma desesperada. Joguei os pontos, nenhum reflexo me devolve a paz que venho me forçado. Me escancarei esses arredores de alma e nenhuma calmaria me abraçou.