Silêncio

Não tem ninguém do lado de fora. Mas tudo bem, também não há ninguém aqui dentro. Essas paredes frias e finas deixam escapar o eco do silêncio. Essas rachaduras me deixam vislumbrar aquilo que evito encontrar nos espelhos da alma. Esse abismo entre a existência e o pertencimento. Ah, bobagem, nunca existiu nada além desse meu eu torpe e sujo e cansado.

Ah, tenho estado tão cansada nesses últimos tempos. Nada mais do que um corpo sem cerne, um amontoado de feridas que não sangram mais vagando em decomposição da alma. Os dias já foram doces, foram bons, já foram dias. Agora a paz é um caco reluzente no canto oposto da minha sala. A calmaria é um espelho estilhaçado que ocupa a parede inversa dessa casa. Tudo que posso, por deus, tudo que me é cabível de ser feito é me sentar num canto mal iluminado desse cômodo e observar o que restou dos dias bons. Quase chego a tocar o esplendor de reviver. Mas o que me tece os dedos é tão somente o fenecer em três tons abaixo de um sussurro.

Seis flores debruçadas nesse chão frio e todas elas morrem sem cor. Se despetalando em um fulgor flamejante. Não há fogo que queime tanto quanto a solidão. Não há chama que encurte mais a essência doce de uma pétala do que a inexpressividade de ser sufocada pela queda. Seis flores caindo em um continum, um ciclo efêmero e constante, curto e inevitável. Antes mesmo da morte tocar o caule, essas malditas flores retornam a cair. O abismo não cessa, pois o medo o alimenta, o rega, o faz florescer. A solidão é um barulho surdo de uma flor morta tocando o chão.

Fui me dilacerando e você nem estava no terceiro andar ainda

Passei três dias tentado tirar de mim essa agonia extenuante, essas palavras um tanto quanto duras, um tanto quanto sujas. Passei dias de penúria, dias de escuridão tenra. Passei dias em que o corpo frio do fenecer se debruçou ao meu lado, me tocou as costas da mão. Fechei os olhos e morri antes de você chegar.

A gente vai escrevendo pra salvar o que restou da alma. Se é que ainda resta. Mas alguma coisa aqui dentro ainda agoniza, ainda reverbera, então a gente enche centenas de linhas sem sentido só pra fazer valer esse eco mudo, esse eco repetido à exaustão de um socorro que não vem e que, por deus, não cessa também.

Eu não queria escrever sobre cafés frios, cigarros mal tragados, sobre essa porra de quarto mal iluminado. Eu não queria alimentar a quimera exaurida de sentir. Mas eu já nem sinto mais e se, por um fragmento dos ponteiros lentos desse relógio, eu sentir, sinto demais. Caminho numa linha fina demais para meus pés cansados e meus joelhos frouxos. Caminho numa corda bamba à mil metros do chão e as paredes do abismo gritam em timbres dos meus medos. O vazio sou eu morrendo de fome de mim. O chão duro é feito da minha alma estirada e decomposta de aflição. Meu cerne está corroendo meu eu de solidão e nem mesmo me levantei da cama.

Há três dias deixei meu afeto recostado no trigésimo andar e ninguém veio buscar. Deixei meus bilhetes pelas ruas vazias, pelas esquinas úmidas, pelos cafés abafados. Deixei meus pedidos de socorro pelos corpos mal amados que me visitaram. No fim das contas, não deixei ninguém vir. Ninguém me ver. Tudo bem. Morri pouco antes de você chegar só para não morrer bem diante dos seus olhos. Fui me dilacerando e você nem estava no terceiro andar ainda. Mas tudo bem, eu deixei bilhetes bonitos pela casa. Deixei cafés novos e cigarros intactos. Deixei minha alma ressonando em sete tons doces do seu timbre. Eu fechei os olhos antes de você chegar só para não te ver entrar.

tudo de ti que não me cabe

Você é o canto da sala que eu não consigo atravessar. Você é o perfume concentrado entre o caule e a pétala vívida da flor que eu não alcanço. Talvez você seja aquela sombra esguia que me atiça e suscita curiosidade na sala ao lado. Não, não. Você é a paz que me chegou em uma tarde de caos. E a merda do ser humano é estar preso sempre em um filme ruim em que ninguém pode te salvar. Te juro, menina, como tentei me manter em pé, equilibrada sobre meus pés tortos, sapatilhas sujas, sobre minhas insustentável inexistência sôfrega.

Eu queria te deixar um café e um boa carta. Queria dizer como o sol parecia tão afável quando frestas tocavam-lhe a pele branca. Queria que os ponteiros longos do relógio se arrastassem só para que eu permanecesse sentada aqui, ainda que longe, apenas para admirar tudo de ti que não me cabe: seu sorriso e inquietude. Sua paz e ousadia. Sua mania de tremer o lábio e de desviar os olhos. Parece bobagem, uma porra mal escrita, mas eu queria que a última coisa minha soasse bonita. Então escrevi sobre você.

Com algum asinino divino, meus planos falhem miseravelmente e amanha seja um novo dia. Mas esses tempo andaram matando os resquícios de amor em mim, de vida, de esperança. Os dias comeram minha carne, dedos e braços. Engoliram minhas lágrimas e me fizeram chorar para dentro. Eu não queria mesmo ser alguém se atirando das janelas, nem caminhando à esmo em ruas de morte. Eu não queria mais ler sobre a solidão de projetar-separa dentro evitando as dores externas. Mas também não ouso crer que alguém haveria de me salvar. O inferno me cercou em um espiral infinito de memórias remoídas. Me sentei no centro do meu melindro e deixei que o fogo fosse, aos poucos, me tronando uma brasa que mal queima.

Te escrevo essas últimas palavras para que tudo que foi chorado fique na folha virada. Por deus, eu olharia por cem dias seu riso e ainda assim os dias seriam poucos para lhe caber a felicidade. Agora eu caminho feito equilibrista no alto da corda banda, em escorrego entre um arfar denso de quem abandona metade dos dias e pede socorro num titubear duvidoso de salvação. Se eu pudesse ser qualquer coisa, por deus, eu seria uma paz danada, eu seria um livro entreaberto no seu poema predileto. Se eu pudesse ser o encanto que nasce de deus olhos cansados, eu seria. Mas se eu pudesse me ser em qualquer outra coisa além de mim, eu correria vinte quadras escuras só para deixar meu passado perdido e, quem sabe, a dor de me habitar fosso derrubada numa esquina suja.

Se eu pudesse, menina, eu me sentava numa esquina mal iluminada e me desmontava para ver se sobra algo a ser salvo. Se sobrar, queria te entregar. Mas agora a esquina parece gelada, o fim é um chuva fina caindo em minha cabeça e ninguém vai notar se em me escorar nessas paredes sujas de desafeto.

Antes de você chegar em decidira quebrar os espelhos, limpara casa, varrer as calçadas, desmanchar os laços. Deixei que a dor fosse maior do que a vontade ou a capacidade de sentir qualquer coisa. E se deixo qualquer coisa mal acabada ou mal escrita foi porque seus olhos dispendiosos me atrapalham os planos. Não queria esquecer nada na cama ou na mesa, mas acho que deixei minha alma e meu afeto todinhos lá. Cuida do que foi teu, cuida da melhor parte final dos dias maus.

as janelas altas também choram

Eu acho que tudo bem ser invadida pela angústia, tudo bem a dor e o medo nos tomar pelas mãos. Acontece. Olha pra você, menina. Nenhum dos seus dias mais doces e leves – mesmo que sempre abrangentes -, seriam capazes de secar suas dores hoje. Suas lágrimas pesadas são riscos de sangue em sua pele branca.

Olha para esse gente toda.. Hoje nem meus cigarros me assossegariam o peito e minha alma se retorce dentro de mim. A multidão virou uma massa branca e homogênea e eu não faço ideia para onde eu tô correndo. Tudo em mim dói, ainda que não haja mais o que se sentir. Eu poderia brincar de morrer dez vezes e nenhuma me daria medo pois o inferno consumiu meu peito, minha alma e minha esperança. Que tipo de ser humano sujo persiste sem esperança alguma? Nem as cervejas geladas, os cigarros fortes, as bebidas baratas que queimam meu estômago me tiram essa aflição e furor de flertar com o fim. Por deus, minha pequena, como eu tenho tentado viver nesse caos que sou. Tenho me escorado nas paredes de minha alma e, por garantia ou covardia, fechei as janelas do apartamento. Rabisco pedidos de socorro e atiro em pequenos papéis rasgados. Ninguém nunca sobe. Ninguém nunca olha para cima. Bando de filhos da puta do caralho. Todos vendados por suas vidas repetidas e suas lascividades cheias de pudor. Que tragédia somos nós.

Esses dias bebi até quase sentir a alegria de estar fora de mim me tocar as costas da mão. Esses dias – lembra-se do vinho que você deixou aqui?- pois bem, dias desses, eu, vinho, umas músicas tristes e senti minha dor diminuir um tiquinho a cada gole. Mas foi bem pouco, te juro. Sorri de leve pensando que talvez haja gente por ai que passe bem pelos dias, ao menos a maioria deles. Me escorei na janela e o chão era um resquício de vida. Morrer não tem glamour. Não ouse achar que falo isso como quem ressoa Bukowski e seus poemas solitários. Morrer é podre, é sujo, é desesperador. É passar os dias tentando arrancar de si algo que, no fundo, é inteiramente você. Você é a dor, o medo e a ansiedade. É a raiva, o receio e a queda do décimo andar. Você é a brasa quente queimando a pele só para sentir de novo qualquer coisa que te garante que, cedo ou tarde, para de doer. O sangue para, as cicatrizes fecham, a dor cessa. O inferno de dentro não. Você se senta no vão das portas e se permite verbalizar um quase socorro, uma quase oração “deus, universo ou o diabo que seja, me leva de mim, anda insuportável existir”. Mas nada acontece. Nada nunca acontece além da dor continuar e corroer sua essência. Um fogo que te tranca a garganta e afasta você dos olhos audaciosos de quem, insolitamente, vive.

Aqui do décimo andar não dá pra ver direito, mas as janelas altas também choram, o céu muda um pouco de cor quando alguém extremamente bêbado e quase feliz se debruça no parapeito e pede, por deus, se há vida depois de fenecer de dentro para fora, me deixa viver. Acho que era só porque lembrei que precisaria comprar outro vinho para você, outro cigarro. Te liguei, mas não atendeu. Chamou três, quatro, dez vezes, já nem sei. Tudo bem, joguei alguns papéis de socorro, mas não havia ninguém na rua. Pensei em pedir ajuda, mas só consegui me deitar no chão da sala e pedir pra vida, enfim, me deixar viver, me deixar morrer. Sem beleza ou glamour, sem poesia barata embalando essa porra de cena mal contada, mal narrada. Por dentro invejei aquela flor que acordou seca e despetalada. Joguei o resto de vinho nela e fechei os olhos. Me deixa ser flor, me deixa ser flor, me deixa derrubar uma pétala do décimo andar.

O inferno é um afeto maldito me queimando as mãos.

Esse é um daqueles malditos dias em que nada te acalma, que nada te traz paz, que nada sucumbe ao silêncio afável de uma paz que, talvez, a gente sequer tenha tido. Hoje as músicas foram tristes, os filmes não ma atraíram e corpo nenhum me atiçou a euforia afetiva.

Milhares de almas vagando entre becos sujos e festas caóticas, sequer uma alma para te recolher em braços confortáveis abraços apertados. Alma também dói, minha pequena. A minha tem sido uma ferida exposta há dias e não há muito o que eu possa ou saiba, ou possa querer fazer. Deixo minha aura quase que fora de mim. Já olhou um corpo se decompor bem em frente aos olhos teus e, diante de uma ojeriza extrema, tudo que resta é uma paz por aquele que finalmente se libertara de si mesmo?

Mas que merda a gente tá fazendo com isso tudo? Desisti de meus dias e minhas noites, ancorei minha angústia nesse quarto escuro e, por deus, vivo num ambíguo desejo que não abram a porta, mas me resgatem daqui.

Os dias foram passando e eu me calei num silêncio sombrio dentro de mim mesma. Três saídas em minha frente e tudo que faço é sentar-me em minha inexistência e deixar que meus monstros comam as pontas de meus dedos, meus braços, pernas e, finalmente, me devorem. Assim, quase numa utopia escancarada, eu estarei enfim dentro de mim. Deixo o amargo de minhas flores desabrocharem na janela escura. Evito frestas de sol e espero que os dias morram junto comigo. Meus quartos tornam-se refúgio extenuantes que me servem de alimento e veneno. Sobrevivo pois me recuso a viver fora dele. Me mato porque toda vida se constitui fora daqui, fora de mim. Sou um abismo intransigente de fenecer. A vida passou e essa porra de nada mais persiste em mim feito um linha fina e inabalável. Respiro a última essência envenenada e só me arde o pulmão. Nada mata o que há tempo já morrera.

Então alguém chega, chega com risos falos e uma insegurança latente que te faz querer arriscar, mas atiça todo o estupor amedrontado em ti. Alguém vem com tudo que há tempo você se esforçou para se livrar. Ninguém tem, sequer deveria ter, paciência para lidar com quem não sabe caminhar à beira do abismo. Eu compreendo que o afeto é pulo cego. Mas, deus, jurei querer ser exatamente isso que me transformei. Ainda que a solidão me fira a sete estacas cegas, ainda que o ferro afunde meu peito e faça meu eu inteiro se contorcer, eu prefiro a solidão do que dividir quem sou, do que expor tudo que demorei tanto para introspectar em mim, sem linhas ostantáveis, sem falsas ilusões. Não quero alguém me roubando de mim e me deixando vulnerável ao meu próprio eu.

Arrumo minhas malas. Bobagem, sequer as fiz, se as fiz, sequer as trouxe. Vim duas ou três vezes e sua intensidade me trouxe uma temorosa lembrança de minha ausência. Me deparo com tudo que tu me és e que, um dia, alguém me fora. Olha, quanta sordidez. O ser humano é esse poço de mal amores, mal afetos, palavras mal ditas, malditas palavras. O ser humano é um acúmulo intenso de deveres e a gente cobra tanto que o outro tenha por a gente uma porra danada de responsabilidade afetiva. Eu me debruço nessa janela vazia, fumo meu cigarro amargo, eu trago o afeto que queria, mas sou humanamente incapaz de lidar. Eu sei dos meus conceitos e meus cigarros mal acabados, fotografo mentalmente minha própria cena forçada de desinteresse só para que você lembre que eu quis, porra, como eu quis ficar e ser doce, e ser alguém capaz de ser qualquer coisa boa para você. Mas eu não posso matar a última essência do que resta em mim. Por isso eu me vou.

Reviro as gavetas atrás de seus isqueiros, garrafas mal acabadas de vinho, talvez um pingente que me dera de presente. Reviro a gaveta atrás de um afeto que jurei ser capaz de querer e saber lidar e saber retribuir. Não há nada.

Pela última noite, me deito nessa cama grande demais e me cubro com as ausências, com suas palavras falaciosas de meu bem-me-quer, e sua repugnância almática me aquecendo a insegurança. Me cubro com o oco do meu eu e a certeza que sou nada mais do que alguém que te vê e te quer e te ama apenas, e tão somente apenas, ao longe. Seu corpo perto, sua alma perto, suas porra de expressão exaltada em minha frente me oprime, me encurrala, me retoma a tudo aquilo que um dia jurei nunca mais aceitar ser. Não aceito. Por deus, não quero mais aceitar ser quem luta contra a última essência de si. Tudo em mim morreu, senão um décimo fragmento que juntei de meu estilhaçar. É ele que manter mantém, ainda que intocável, sensível e vulnerável, me mentém obstinada.

Se for pra vir, deus, se for pra entrelaçar minh’alma a algo além, tem que que me dar chão seguro, tem que me olhar além desse frágil eu, tem que garantir a paz e o caos das palavras, mas nunca me tirar acalmaria. Meu corpo arfa a solidão. Ninguém entra. Ninguém há de entrar. Por deus, o inferno são almas sem copo e corpos sem alma. O Inferno é você que não me deixa partir, mas me prende a tudo que jurei esquecer. O inferno é um afeto maldito me queimando as mãos.

epiderme

Eu queria escrever alguma coisa bonita. Queria te deixar cem linhas de um poema rimado e de um história calêndula. Queria que minha letra soasse segura e que a porra do papel não evidenciasse que andei chorando. Quero limpar os cinzeiros antes de partir, esvaziar as garrafas, quero trocar o disco. Essa droga de música triste não melhora nada o timbre persistente dessa casa, desse meu eu.

Os dias correram até que amenos, menina. Passaram entre idas e vindas ao trabalho, sorrisos apagados e um certa tranquilidade nesse meu eu. Mas assim como o mar calmo precede ondas catastróficas, em mim a quase paz antecede a asfixia sem fim. É como olhar seus olhos e não saber mais o que ousou me encantar. É como precisar quebrar os espelhos de casa para que, porra, nada mais me lembre que eu continuo exatamente aqui, para que nada mais me quebre.

Andei fechando muitas portas nos últimos anos, e quando alguém decide, por fim, manter alguma aberta, eu sinto cada fragmento podre de mim esvaindo. Mas não é como se isso fosse um alívio, um desvincilhar-me de minhas feridas. É como se cada pedaço nefasto meu pingasse em gotas amargas nesse chão frio. É como ver meus dedos rasgando minhas cicatrizes e não faço ideia se há mais dor em olhar meu vazio interno ou sentir a pele se dilacerar em mil pecados sórdidos. Não ouso existir. Por deus, pedi a ele, à energias, ao universo ou qualquer porra que possa haver entre essa linha humana e sublime, me deixa existir. Ajoelhei em minha frágil e perene estadia em mim, pedi  a deus ou ao diabo para me deixar existir. Assim, só existindo de fato eu posso morrer e deixar a paz florescer como um girassol que percorre os raios. Talvez, com alguma sorte, sobrou espaço para algo a mais em mim.

Eu não faço ideia mais por onde andam suas falsas alegrias, seus timbres amenos. Jurei não deixar nada mais doer mim, jurei não terminar os dias com frases amargas e agonias intragáveis. Por isso me ludibrio em minhas palavras, por isso te lanço falsas promessas e sorrisos enganosos. Ainda minto e me dou conta que bordo um alegria que não sou capaz de praticar. Não me entenda mal, a alegria que te juro é o primeiro ponto a ser puxado nessa minha cicatriz. Como quem atira num pássaro recém liberto, você me fere sem sequer me matar. Agonizo em dias de frio.

Agora eu queimo a brasa do cigarro em minha pele só pra ter certeza que ainda resisto. Sentir dói pra caralho, mas não sentir perfura sete camadas e é um ardido fodido. Se meu peito fosse folha, ele estaria na décima flâmula, queimando de dentro para fora e espalhando cinzas. Se eu fosse qualquer merda além disso que sou, eu estaria debruçada à luz do sol de um terraço qualquer. Eu terminaria esse vinho barato e, antes de terminar essa carteira de cigarros, o sol me tocaria. Deus finalmente me traria a paz. Mas eu não acredito em deus e, entre uma cerveja quente e um antidepressivo, eu vivi três infernos diferentes. Deus também não acredita em meus suplícios, ele não me deu a benção da paz. Nem a coragem do fim. Eu só queimei a pele para lembrar que, mesmo não sentido, eu sinto muito.

essa frágil e fodida alma que nada é

Escrevo na ânsia para que não leia. Mas deixo esses bilhetes espalhados pela casa.

Escrevo para sobreviver à essa merda toda enquanto o rádio toca alguma melodia que me arde o peito. Acendo um cigarro só pra ter algo seguro entre as mãos, perdi o mundo e vi meus dias escorrerem entre essa minha pele fria.

Leio cartas antigas e a dor caligrafada me acompanha até hoje. Será, por deus, será que você leu alguma dessas porcarias? Escrevi para sobreviver e são minhas próprias palavras que me matam.

Já tentou, pequena, externalizar sua dor? É um processo medonho, um estigma, um prego perfurado três vezes em seus olhos.

Acendo um cigarro para que algo amargo me traga à vida, já que a vida amarga me dilacera o peito. Posso tomar um banho? Posso adentrar seu chuveiro, corpo e alma como quem se refugia de si mesmo? Não posso mais suportar meu reflexo distorcido no espelho do banheiro. Meu existir distorcido, se é que existo.

Algum bom escritor já deve ter dito isso em um belo poema: viver é uma dor insuportável. Ou talvez algum velho sujo entre bares e garrafas vazias. Não importa.  Minha vida é feito uma flecha mirada no centro do meu peito e se eu a arranco, toda minha alma se esvai.

Talvez eu devesse ver um filme, tomar um remédio – tenho feito terapia, yoga e bebido chá. Tenho tomado meus remédio, tenho sustentado essa porra de ausência em mim. Tenho sido tudo que não sou e só me restam minhas letras tortas e rabiscadas rapidamente. Só me restou um corpo vazio e ninguém mais pode salvar.

Escrevo para que fique registrado a dor e angústia. Não que eu ache digno registrar afetos mal entregues. Mas preciso pra caralho tirar de mim o peso da renúncia, da negação de mim mesma. Preciso escrever cem cartas tristes para que alguém veja minha dor. E porra, tá doendo pra cacete. Tá me dilacerando, matando, rasgando minha pele de cima à baixo. Tá expondo tudo que não quero ou não posso ser. Estou debruçada no chão da minha própria existência e não sei me levantar.

Mas que fique nos registros escritos dessa vida fodida: eu tentei. Por Deus, eu tentei ser alguém capaz e afável e simpático. Eu tentei ver a humanidade com olhos humanos e se me restou algo de bom, foram minhas letras sujas.

Eu escrevi sobre filmes e poemas e amores e ódio e sexo e prédios altos. Eu escrevi sobre folhas caindo, sobre a beleza do anoitecer e o inferno de um novo dia. Escrevi sobre corpos suados de amor e almas fodidas de desafeto. Eu escrevi sobre a porra do silêncio que me mata e a ausência de mim que me consome. Eu escrevi cem cartas e queimei cada uma delas. Eu inventei um eu todo novo só para não precisar me ser. Inventei você, mesmo que todo o amor que eu caligrafei tenha sido uma externalização que não sou. Escrevi a porra do mundo todo e queimei com a brasa do cigarro.

Escrevo para os mal amados, os loucos, inconscientes, inconsequentes, para os fodidos emocionalmente, para os bêbados e os solitários. Escrevo para os que morrem de ausência e os que matam pelo silêncio. Eu escrevo 30 linhas tortas para os velhos rotos, as moças doces, para os machucados estampados em minha pele, escrevo pra morte que não veio e pra vida que não vingou. Escrevo para a alegria estonteante de quem sabe um segredo amargo sobre estar vivo, para os que creem na finalização divina e, também, aos que entregam suas almas a deuses e suas promessas de vida pós morte. Eu não, acho que sequer tive alma. Se a tive, corroeu-se em três camadas de uma ardência fodida. Escrevo aos que amam demais e a quem, assim como eu, admite o amor feito uma foice decepando cada membro do meu corpo. Escrevo aos filhos rebeldes, aos pais abusivos, aos amores que morreram antes mesmo de serem amor. Por fim, escrevo para salvar em mim essa porra de vida que eu não soube, e não quis saber, viver. Escrevo para salvar de mim a culpa de passar por esses dias como alguém que sentiu demais e feneceu em sua própria ação de ser. Não fui. Não posso ser. Se posso, não ouso pois ser precisa ir além do papel.

Escrevo para que você leia e me perdoe por não ser nada mais do que essa frágil e fodida alma que nada é.

o inferno é no décimo sétimo andar

Então é isso. No fim dos dias nublados e cinzas e pálidos, no fim dos tempos, resta-me somente a mim. No fim das contas sou eu lidando com o amontoado do que restou desse caos, desse devaneio ilógico e inexorável que sou.

Acendo um cigarro e sinto meu corpo pesar docemente. Depois o alívio, a paz, a consciência podre de que ainda me pertenço e, por deus, assim será. Já caiu do décimo sétimo andar, menina? Seu corpo é uma lâmina pulverizada no ar. Ninguém se importa com uma alma sendo, dia após dia, arremessada dos mais árduos abismos, mas um corpo choca. Um corpo caindo é feito uma renúncia ilegal dessa porra toda que a gente não quer ou não sabe viver.

Já amou hoje, pequena? Cem dias de solidão e reclusão e uma alma cada vez mais insigne emudecida em si mesma. Depois a euforia. O afeto transbordando pelos cantos relapsos da derme. O amor – que besteira! Como pode acreditar no amor se bastaram três esquinas mal iluminadas para que seus olhos sejam substituídos por um corpo que encaixa seus quadris com tamanha maestria em quem nunca te jurou amor? Como pode crer em afeto se você doaria sua alma, acolheria outras centenas de almas e corpos e bocas e mãos torpes e sórdidas se as esquinas da vida lhe permitissem?

Já olhou seus olhos hoje, pequena? Nos meus queima uma incessante necessidade de gritar. Um som mudo que me corrói a espinha dorsal, assume uma dor física, asfixia minha alma, se instala em minhas entranhas. Em meus olhos refletem-se cem portas trancadas de quem eu me recuso ser. Mas daria a paz que não tenho para abrir todas elas. Um demônio perfurando meus timbres com estacas do meu próprio ser. Se é que sou.

Meu corpo caiu do mais alto espectro da minha dor. Estatelado no meio da sua sala, da sua alma. Doeu menos do que meus últimos três dias de consciência. Minha essência sôfrega está há meses estilhaçada ao chão e ninguém sequer notou. Te amei até o ardor do sentimento cessar, te amei até o fim dos dias só para saber que os dias, por fim, acabariam. Agora sinto nada. Uma prévia de caos e meu corpo ocupa a rua.

Se eu tivesse a capacidade enfadonha de viver, eu me sentava entre a opulenta luz amarelada de uma esquina suja e te tragava a alma. Seu soubesse viver essas porras de dias sujos, eu trocava de dor, eu te tocava e te comia, engolia em pedaços de um amor fodido que me matou e ninguém viu. Mas continuaria morrendo de amor por tantos outros olhos cheios de pudor.

Se eu soubesse viver, eu secava essas lágrimas e te deitava em meus braços. Mas eu caí da janela enquanto você juntava suas roupas manchadas de um afeto alheio. Acendo um cigarro que resta em meu bolso, pois você me é um gosto amargo que não mais acende em mim. Ninguém liga pr’alma ferida nessa vida fodida.

Oito pétalas mortas, mas a nona resiste em mim feito alma

O amor me protege dos ventos frios, me cobre os olhos dos dias nublados. O amor me dá cor ao cinza, ao breu, me dá luz em meio ao caminho solitário. Me aquece as pontas dos dedos, percorre as veias e envolve meu peito num misto de agonia e bem-querer. O amor me faz parecer seguro estar em pé à beira do precipício sem medo de olhar para baixo.

O amor quando chega é um vento ameno em dias quentes e um casaco impermeável para as inseguranças do mundo. Mas a vida ainda é um continuar caminhando. E eu que cheguei aqui com o receio e a dor e os passos trôpegos de quem mal caminha e, por deus, se caminho, percorro sem direção, titubeio entre os passos frouxos que suspeito me levarem à sua direção.

Ainda que as ruas sejam calmas, ainda que os afetos venham embrulhados nessas esperanças sorrateiras de calmaria, por toda uma vida a estrada foi um despetalar de mal-me-quer. Então protejo esse caule, esse pólen quase sem flor, quase seco. Deixo que o amor me roube o ar, as vísceras. Deixo que me tire as roupas, a fala, que me desabroche o riso de modo a me deixar vulnerável, despida das roupas do âmago. Mas protejo entre meus dedos fracos e ainda gelados essa flor quase morta. Como quem protege o que restou d’alma. Como quem morreu oito vezes, mas guarda um resquício tenro dessa nona vida na petulante e audaciosa vontade de fazê-la viver, fazê-la segura. São oito pétalas mortas, secas e estraçalhadas que caíram ao chão frio da indiferença, mas a nona resiste em mim feito alma.

Meu cerne se espalhou em cem estilhaços afiados e minhas vísceras sucumbem aos meus passos meio tortos, meio arrastados. Mas a porra da nona parte que ainda vive em mim eu guardo. E se puder, por deus, se souber entender que admito pular sem medo do vigésimo andar contanto que me permitas debruçar-me em proteção sobre minha flor quase morta, eu aceito qualquer pedaço dessa loucura que chamam de afeto. Pois em mim tudo é vulnerável, mutável, tudo dói pra caralho, e essa nona pétala quase morta resiste como uma quem flanou à beira do abismo e olhou de volta para si mesmo. Eu colhi a flor fenecida e deixei-a ser essa quase morte dentro de mim. Agora sou essa última tonalidade torpe de flor. Sou o que restou e protejo-me para que assim, e tão somente assim, um dia alguém saiba me fazer reflorescer.

feridas

Eu não queria mais olhar para as pétalas caídas, nem para os vidros estilhaçados, nem para os cacos caídos em mil pedaços ao chão. Eu não queria olhar mais para mim, nem para você. Eu não queria sentir o peso de continuar aqui dentro, onde tudo é um caos, nem sentir o desapreço de deitar mais uma noite sendo vencida pelo meu inexistir.

O velho rádio toca uma melodia ardida, um ritmo que penetra em cada canto dessa sala maldita. Mas ainda é melhor do que o silêncio. Ainda é melhor do que o barulho alto da falta de afeto. Ainda é melhor do que o descompasso dos meus pedaços caindo ao chão.

Eu não posso mais te escrever boas vindas. Eu não sei mais te dizer amenidades. Eu não sei mais calar e, por deus, eu não posso mais te machucar, porque suas feridas me matam. Suas dores meu atingem feito uma lança cega bem no meio de meu peito. Mas se não te arranco de mim, morro em cem gotejares podres e sórdidos de desamor a mim. Se não te deixo cartas escritas à sangue, me traio, me desespero, me sufoco. E suas dores me matam e ferem, ainda que sua presença me asfixie. Seus olhos piscam para me ver mais límpida e eu só sei fenecer entre três lágrimas secas em minha pele.

Deitei no meio da sala, no chão frio, no caos interno. Deitei em suas palavras doces e atitudes egoístas, deitei em seu desamor disfarçado de bem-me-quer. Me acolhi entre a porra da sua necessidade de me machucar, me acolhi em suas mãos duras e olhos reprobatórios. Entre seu cabelo macio e juras de quem me protege mesmo que sem nunca, de fato, me assegurar calmaria. Me deitei em cem brasas acesas em seu existir podre. Deixei você, sendo brasa, me marcar a pele e a alma. Deixei você, sendo fogo, me ferir cada camada da derme. Deixei você perfurar minhas entranhas e costurar a tristeza em meu peito. Agora quero arrancar as costelas para ver se consigo salvar alguma coisa em mim. Agora sinto que um buraco flamejante me comendo a pele seria menos dolorido do que continuar a existir assim – quase que não existindo.

Me aconcheguei no fim das minhas forças. Na inexpressão da minha vibração. Deixei seus cacos de vidro sujos me perfurarem as primeiras camadas da pele, uma dor prolongada e ardida, mas que me faz sentir. Me faz sentir. Me faz sentir. Logo eu que, inexoravelmente, sentia o ópio, o regozijo, sentia a penúria do estar aqui ou sentia nada. Sentir a ferida do corpo me recobre mais uma noite e eu me aninho nesse buraco fúnebre de acordar entre seus desafetos.