Telefone

Eu me deixo cair entre seus dedos na vã esperança de que alguma coisa me segure antes de atingir o chão. Besteira. Eu caio todas as vezes, cada vez mais fundo, cada vez mais rápido.

Eu me perco entre seus devaneios e sussurros desajustados. Eu esqueço de catar os meus pedaços antes de ir embora. É que talvez assim eu não precise ir. Só assim é que, quem sabe, eu possa ficar mais um dia, ainda que sejam só meus retalhos surrados que lhe envolvam a tez. Nunca eu completa, nunca um eu inteiro, munida de meus anseios e desatinos.

Agora o peso de meus ombros parece um tanto mais insuportável do que de costume. Agora, por deus, os cigarros parecem intragáveis, os cafés me amargam a boca, as bebidas me embrulham o estômago sem me embriagar. Agora as músicas soam riscadas ao fundo e seus olhos não me veem mais aqui, mesmo que eu esteja acenando à sua frente. Me sinto uma alma velha e cansada tentando ser qualquer coisa mais.

Um desejo amargo me ocupa os bolsos, me entrelaça os dedos, me costura a pele. Um anseio tenro de ser qualquer coisa além de mim, desse torpe eu que me coube ser. Porra, há um milhão de outras almas bem mais vívidas, no entanto – olhe só! – coube justamente a mim me ser. Não, não que eu seja o mais reles dos seres, nem o mais azarado. Apenas nesses dias cinzentos, em meio às bebidas solitárias e um álcool barato que levemente me tira a consciência, eu retiro o telefone do gancho só para ter a confirmação de que ainda funciona. Funciona. O toque constante e seco atinge o fone e me atinge os ouvidos. Ninguém manda notícias, ninguém me salva, mas também ninguém me silencia. O silêncio da casa é resultado de um abandono à cor de sépia. Eu morri três vezes e o sol ainda nem se pôs. Eu morri três vezes e sua ausência ainda é uma lança cega atravessada em meu peito. Eu morri mais três vezes enquanto escorria por entre os dedos meus. Porra, eu morri mais um sem fim de vezes, mas há um estilhaço afiado que insiste em me manter combatente, ainda que morta em cem desatinos ao ouvir os sons mudos do outro lado da linha.

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Coabitar

Se você pudesse notar que há um bocado de silêncio em mim, talvez, ocuparia meus ouvidos. Se você pudesse notar que há, entre meus tons baixos e um constante emudecer, um caos que reverbera frequentemente, poderia se acomodar em meus hiatos. A paz que não me habita é tingida à cor de sangue, é bordada com uma linha espessa demais pra um tecido fino. Eu me destroço todas as vezes que insisto num bordar-me reticente. Não sobrevivo no que inventei de mim.

Mas seus olhos vagos e dispersos envolvem meus dias, tocam minhas horas, contornam uma alma minha que, por deus, não haveria de saber sentir. Caminho numa vastidão tola de me perder e te perder e, por fim, encontrar um pedaço nosso que haverá de me dar paz. Mas não dá. Porra, não dá. Esse meu emaranhado de almas sujas que compõem um único corpo é infinitamente menos caótico do que deixar que os afetos torpes bordem minhas entranhas com a sua existência. Mas, me entenda, não é um desejo de abandono. Por deus, sou humanamente incapaz de abandonar coisa qualquer, quem dirá uma alma doce. Mas é uma fuga complexa, um inexistir em mim que me impede, incapacita um inexistir no outro. Vou sobrevivendo aos pedaços, me decompondo em mim mesma, juntando meus retalhos para resistir um pouco mais envolvida em você. Então eu afrouxo os pontos, esqueço os nós e me sinto um bordado ainda mais sórdido num tecido teu. Tão limpo, tão mais branco do que qualquer branco que eu ousara ser. E, que não sou, nem nunca fui. Me sinto um corpo educado, ensaiado, descorado para sustentar o que a alma já não haveria de pronunciar. Me sinto decapitada da minha existência num outro alguém. Mas, porra, me sinto debruçada no meu vazio. Eu sussurro meus receios e sete medos ecoam por toda a eternidade em meus ouvidos. Eu me escoro em seus ombros nus porque o ritmo de sua respiração me traz paz e nada mais deveria me tirar daqui. Mas seus suspiros me assustam e a insatisfação em não ser moradia de mim mesma me impede ser quem habita um outro alguém.

Pisco os olhos um pouco mais forte e você ainda está em minha frente.

Eu pisco os olhos um pouco mais forte para ver se recobro a anestesia de mim. Eu olho isto que restou de mim através do espelho meio embaçado, meio sujo, e de repente me dou conta que talvez sejam meus olhos que estejam inebriados. Um borrão de mim e nenhum suspiro aliviada meu peito.

Olho pras janelas distantes e o abismo entre o mundo e eu parece ainda mais intransponível. Por deus, como pode uma distância tão humanamente percorrível parecer um desafio que pouco ou nada valerá?

Mas são os reflexos turvos nos vidros estilhaçados que permanecem refletindo. São minha imagens tortas, meus olhos torpes, meu desajuste nesse sórdido eu que anda refletindo por aí que me entristecem a alma. É este cansaço em existir sem nunca, de fato, pertencer a nada. Um corpo se esgueirando das almas todas, dos corpos todos, da porra de um repouso sossegado em si mesma. Um dia acreditara que viver era feito flanar entre os suspiros alheios e incontroláveis desejos. Bobagem, viver é se olhar com ombros curvados, apagada pelas manchas do vidro. É se ver dispersa entre um reflexo que, quiçá, é seu, que não te contempla, não te sossega, não te alimenta. Um não estar em si e em nada mais.

minha alma dói por pensar na solidão que te toca os ombros

As últimas cartas foram deixadas nos braços do sofá, carregadas de um sufoco amargo, de uma letra apressada, de uma tinta borrada pela necessidade de despedir-se. As últimas cartas eram rascunhos manchados de um não-ser, não estar, não mais existir, ainda que seja preciso uma existência densa e exaustiva para transcrever uma dor qualquer que se sente. As últimas cartas eram sequências de despedidas que nunca, de fato, oportunizaram o abandono da dor. Um adiamento sorrateiro, um deixar de lado o peso fodido que se arrasta preso aos pés, aos pulsos, à alma toda. Mas apenas momentaneamente esquecido, pronto pra emergir à rotina novamente.

Eu, que há tempos não escrevia, passei meses furando esse sofá velho com as canetas já sem tinta. Eu, que há tempos não vivia, encontrei no meio do seu arfar solitário um repouso para meus olhos cansados. Por deus, eu, que não descansava mais, caí exaurida no chão sujo da sala escura. Ali fiquei até o silêncio reinar, até minha mente vulgar esquecer que a dor é feita pra doer, ferir, rasgar a alma em fragmentos torpes de um corpo que sente. Sente?

Deixo meu âmago sórdido escorrer por entre meus dedos, vou pingando de mim mesma e borrando essas linhas mal escritas, essas palavras vazias, esse eco repetido à exaustão. Vou deixando o grito seco do meu silêncio ensurdecer o que restou de mim. Não há muito mais, mas ouso pensar que há uma imensidão desse sujo eu para cair do penhasco. Deixo minhas últimas letras pingarem de meus olhos e tecerem palavras rotas numa folha branca demais.

Mas você tem olhos doces e a calma de quem leria todas as minhas escritas cansadas. Então me sento no chão frio do inexistir e deixo você me inventar em camadas difíceis de esculpir. Minha menina, há muito mais dor em ser o que se é do que cortar os dedos nas lâminas do que se deve ser. Me sento no canto dolorido de me perder e te olho de relance. Seus olhos ainda brilham e minha alma dói por pensar na solidão que te toca os ombros com dedos longos e frios. Meus anseios se estilhaçam ao ver a lança cega da decepção lhe perfurar o peito. Meu eu escorre entre os vincos sujos dessa sala oca, absorvida pela página quase branca do último bilhete mal escrito e perfurado no sofá: fui ser além de mim, inclusive isso tudo que não posso e não sei ser, pois não suportaria ser nada que te borrasse os contornos suaves, ainda que fosse exatamente eu.

Um tecido manchado pela falta de alma

Esses tempos correm vagos entre os suspiros e agonias. Esse vazio tamborila em meu peito dilacerado e faz eco. Três vozes sussurram desafetos em meus ouvidos e todas elas têm exatamente o meu timbre. Sabe, menina, acho que andei me contando memórias ruins novamente.

Do lado de fora, o vento varre a rua, aqui dentro a dor varre a alma. Continuo à mercê de mim mesma, beirando os meus penhascos, debruçada no abismo de minha mais tenra escuridão. Tenho medo de respirar um pouco mais fundo e cair de vez em mim, cada vez mais pra dentro desse imenso eu. Tenho medo de contrair a respiração e morrer em minha asfixia, sem ter por onde aliviar minh’alma cansada, acabada por excessos desse exaurido eu.

E mesmo quando os cafés são doces, quando as bebidas são fortes, quando os cigarros aliviam o peso árduo de se perceber inviolável dentro de si, mesmo quando os dias se somam em calendários sujos, ainda há um estilhaço fodido aqui dentro que insiste em arranhar o riso espontâneo. Ainda há um pedaço ardido de alma que não sossega em nenhuma essência. Ainda há um amargor costurado na garganta que insiste em misturar-se aos goles quase mornos do que deveria ser uma bebida boa. Por deus, as lembranças são retalhos sordidamente costurados num tecido fino demais para sustentar qualquer peso desalmado. Memórias doloridas que perfuram os dedos de quem apregoa dor à vida já sem cor, perfuram a pele, rasgam as fibras finas de uma seda que se rompe. Derramo meu café agora frio nesse tecido manchado pela falta de alma, pela falta de calma.

Amortizar

Os dias vazios são de um peso imensurável. Se houvesse algum resquício de alma nessa casa, coisa qualquer, certamente me questionaria como pode um espaço de tempo oco, vago, quase um limbo temporal, ser sufocantemente árduo, indigesto. Mas não há nenhum vestígio de vida, nenhum passo arrastado pelo andar de cima, sequer há a lembrança de um perfume impregnado nas paredes. Agora me sento solitária e esvaída de mim nesse sofá meio desbotado pelo peso dos meses sufocados, dos olhos mal vistos, dos corpos mal amados, agora me debruço na inexistência de alguém que sequer sabe se um dia existira de fato.

Os cigarros queimam entre os dedos meus e pesam. Por deus, as cinzas que caem ao chão possuem a dor de três vidas e nenhum amor. As plantas morreram sem água e eu me afoguei em meus excessos. Porque a casa está muda e escura e inabitável, e não me ocupo de mim, ainda que cheia e transbordante desse meu insonso eu, me olho nos olhos e vejo um reflexo irreconhecível. A cor púrpura de minha angústia me corroeu a carne, riscou minha tez pálida, atravessou minhas entranhas. Mentira, a amálgama fodida de dores inexpressivas se instalou em mim, contornou meus dedos, se entrelaçou em minhas pernas, adentrou pelos meus poros. O peso desse mundo caótico e desse meu eu sombrio afincou-se em meu peito, se alojou em companhia ao frio do café. Respirei fundo três vezes: eu ainda respirava, mas tudo em mim era silêncio.

Eu já estava aqui quando você chegou. Eu já previa o abismo quando suas olhos vagos ocuparam os cantos da casa. Eu já estava aqui quando suas blusas brancas e barras tortas recaíram sobre a cama. Quando os timbres roucos ecoaram pela sala grande demais para registrar meu mirrado eu, quando seus dedos longos tocaram os vidros frouxos das janelas, quando a embriaguez despertou um paz amena, escassa, torpe. Quando os corpos nem tão vivos revivem e recobram um afetuar-se ao mundo, eu já estava aqui de com pés preparados para correr até lugar nenhum, até as esquinas obscuras de ruas sem fim. Os olhos vendados, os medos pungentes, a décima ferida corroendo minha alma fodida. Não há mais café para esfriar, não há um só copo de vinho barato para amortecer a culpa de ser quem se é. Mas você, por deus, você me escorre entre os dedos, pinga no chão. Você evapora pra dentro de mim mesmo quando a casa tornou-se um caótico vazio do que eu fora. Pra longe disso tudo, eu já estava aqui quando tudo começou. E três segundos depois do fim, num suspiro, eu permaneço num recomeço dilacerado por nunca poder acabar.

O tempo não sobe escadas

É como se você me olhasse do alto, de um andar distante, de um ponto incólume em que não posso me ver. É como se você sussurrasse essa porra de segredo que me salva e todos podem ouvi-la, menos eu. Por mais que afinque minha atenção na sua boca amargurada, por mais que eu me escore na parede suja da sua alma, eu não ouço, não sou capaz de entender uma só palavra. Então seus olhos entristecem minha alma já dilacerada, seus timbres mudos queimam minha esperança, sua distância fria torna-se insuportável. Eu, que já estou à beira do meu abismo interno, despenco para ainda mais fundo. Um buraco turvo, uma penumbra de mim mesma.

Vou bordando as páginas de um diário que ninguém lerá. Vou contornando com tintas de meu sangue os desenhos que caíram de meus olhos e escorreram pelo meu rosto. Seis manchas densas causadas por lágrimas sofridas quase furaram o papel, mas o enfurecer da dor secou antes que a folha fina pudesse se desmanchar. É feito o afeto que escorre entre meus dedos antes eu que eu possa ser recoberta pela paz. Vou tecendo novas folhas meio amassadas, meio emendadas na angustia que você não quer ou não pode ver. Ou, por deus, não quer poder ver. Mas me mantenho escravizada, obrigada, renegada a furar meus dedos só para que você tenha páginas para me ler. Só eu sei com quantos tons de desespero continuo a tingir esse papel desalinhado. Quem sabe você aprende a me olhar.

Mas é exatamente isso que me mata. É seu olhar desviante, seu afrouxo atencioso, sua inexatidão em me captar. Ainda assim, é a porra da sua atenção que me mata, enrosca meus pés, cerceia meus passos frouxos. É a merda do seu existir que rouba o ar, prende meu peito, costura cada poro de minha derme para que eu morra em acúmulos de ti. Me sobrecarrego do seu mal-me-quer e então não resta mais nada para me querer.

Escrevo três páginas borradas com uma caligrafia apertada. Repouso a caneta no fim de cada palavra que me acerta o peito com uma estaca cega. Deixo o café esfriar, o cigarro me queimar a ponta dos dedos, o inferno incendiar minha garganta. Você faz ruir em mim o que nem eu mesma sabia possuir. Te jogo do décimo sétimo andar, mas quem cai sou eu. E quando do chego ao chão, você me acena do alto, de onde não posso mais te alcançar, te ouvir. Do alto do meu próprio desespero fugaz, você deixa escapar sete segredos que me dão paz. Eu, estirada no chão da minha desistência, já não ouço nenhum. Suas palavras pesadas, há tempos, só me atingem feito flechas doloridas, me ensurdecem, me cravam um ardor insustentável. Há tempos, nossa linha fina não me dá equilibro e não deixa eu me afastar. Há tempos, o tempo entre nós foi engolido pelo despertar fodido de vidas sem timbre, corpos sem cerne, amontoados de entranhas que se decompõem sem a necessidade de haver tempo. O tempo engoliu a mim e pausou um segundo antes do fim.

Crepúsculo

Você tem medo do escuro e do breu lotado de reticências. Você tem medo do silêncio ensurdecedor e das sombras opulentas que se inebriam no chão de pouca luz. Você tem medo do que se mistura aos espaços de desconhecido e do que você não vê. Por isso, quando a luz é frouxa, pouca, baixa, você acende uma chama, risca um fósforo longo demais. Você deixa queimar um fogo que te sossega os olhos, aquece a paz, estende a visão, mas que me queima a pele. Esse fogo distante de seus finos dedos apenas reflete a calmaria em seus olhos. Um reflexo em sua íris que exala um respirar mais fundo, uma alma que agora pode adormecer mais em paz. Reflexos exalam outra coisa além de uma aparência sufocante? Mas essa porra de chama ardida me fere a alma, me dilacera o cerne, corrói em três camadas fodidas o castelo frágil de segurança que eu mesma levantei. Sua chama acesa lança luz em meu desassossego e projeta a sombra do caos anunciado. Mergulho em cem fragmentos de mim mesma e ninguém vem me salvar. Você, sucumbida ao seu egoísmo de fazer-se lúcida, me afoga em meu declínio. Vou submergindo no antagonismo de fazer-te em paz no meu naufrágio. Morro afogada em sua fogueira de salvação. Você me olha nos olhos e me mata no vislumbre de sua luz. Lança-me a intensidade de uma brasa que queima em mim, me transforma num papel que um dia fora poesia e agora se esfarela junto ao cigarro mal tragado. Você, com seu medo do escuro, agarra-se ao egoísmo de ver um pouco mais longe, longe que por vezes sequer será alcançado. Eu, escorada em meus atos fatigados de lutar sem vencer, deixo-te marcar nas paredes de minha alma as neuroses aflitivas de alguém que não sabe ser amor. O afeto se desmancha entre seus dedos tortos e unhas sujas de alguém que finge ser, finge ter amor. Você me asfixia nas pétalas murchas do seu bem-me-quer e me deixa morrer do que deveria ser cuidado. Escorrego na superfície do seu caule e morro nas feridas expostas dos seus espinhos. Seu mal-me-quer é fruto desse exalar intenso e ininterrupto do que, para mim, virou veneno. Seu perfume me afoga de angústia, seus excessos me atingem o peito feito uma lança cega, um espinho grande demais, dolorido demais, insistente demais. Ainda assim, suas palavras ásperas me envolvem os pulsos, apertam meus braços, roçam entre os passos meus, mas, por deus, não me deixam morrer. Você me esfola a carne porque tem medo do escuro. Você fechou os olhos há cem anos e nunca mais deixou a luz entrar.

Janelas abertas

Lá fora, luzes flamulam entre gotas de uma chuva que não cessa. Lá fora, três timbres doces se misturam numa valsa quase inaudível pelas almas apressadas e desavisadas. Lá fora estampa um chão forrado pela calmaria que há tempos não me toca a tez. Não, por deus, esse sequer foi um dos piores dias. Já houvera um caos incalculável, um abismo quase instrasnponivel de inquietude. Mas os fins, sejam eles quais forem, sempre são de um amargor inexato. Beiram ao insuportável, mas nunca adentram a desistência plena. Sempre um equilíbrio tênue, um caminhar torpe entre as linhas que afogam a razão. Há sempre um flanar sórdido à beira do sucumbir a mim mesma. Permaneço existindo e resistindo de corpo, alma e vísceras nessa porra de limiar. Me deparo comigo mesma nas duas esferas finitas que parecem nunca, de fato, acabar.

Mas não é pelo fim em si. Não é a saudade do que se esvai, não é a impressão de que a ausência será um espaço inocupável ou que os quartos serão pra sempre um cômodo vazio destoando do resto da casa. Não. É exatamente pela certeza que há um recomeço, ou ao menos a necessidade de recomeçar, que me assola a paz, me corrói a constância amena do timbre rouco. É exatamente pelo encadeamento fodido de um reviver após abraçar-me ao fim que eu disperso da paz completa, não me debruço num riso doce.

Você que me olha um segundo a mais do que eu mesma nunca me permiti encarar, vê em mim a sombra de quem se cansa dos recomeços? Porque os processos recém iniciados causam um furor desgastante em almas já submersas, em corpos já desnutridos de essência. Mas confesso que seus dedos longos são toques de calêndula, são tilintares afáveis. Não sei, menina, com que impacto os recomeços vão me atingir, nem sei como o caber-me num outro reeguer vai soar, mas ainda que aqui dentro esteja áspero e desajustado, as janelas me mostram luzes baixas e ruas em tom de sépia. Tudo soa calmo do outro lado do fim.

Vinte horas e três segundos. Os minutos eu não vi

Há muito os cadernos estão intocados, com suas páginas  envelhecidas esquecidas no fundo da gaveta. Andei quieta a mais tempo do que esse velho relógio em minha parede suja pode marcar. Nenhum ponteiro poderá tiquetaquear o suficiente para preencher meu vazio. Acho que, por muito tempo, eu repeti intransigente e incansavelmente as mesmas frases rotas, pedidos torpes, desejos insignes de um alguém que não sabe ao certo o que diz. Nunca soube e, por deus, quem haverá de saber?

A solidão invade a casa pelas janelas entreabertas, pelas portas escancaradas pelo vento, pelos olhar emudecido de quem jura querer ver, mas não vê, não olha, não aquece os olhos amargos nas cenas tolas do dia a dia. Há certa vagueza em um corpo sem afeto que caminha sorrateiro pelo andar de baixo, suspira pelos corredores estreitos, arranha a parede oca de uma casa quase sem vida, quase sem alma, quase sem casa. Nenhum ranger do piso haverá de recobrar os risos contidos, os toques delicados, as almas entrelaçadas por um só coração. Você levou meu terceiro timbre e o rádio já não toca mais.

Eu, que disse por tanto tempo um sem fim de palavras, agora me escoro nos livros em busca de um timbre que me faça dizer. Que me permita dizer. Mas não há. Não há poema ou crônica doce, rima ou deleite literário que me permita o risco de ecoar pela casa, pela minha alma fria. Não há nessa vida sequer uma linha frágil que sustente o peso da caneta borrada, da tinta tremida, da palavra mal dita. Os cadernos têm manchas de vinho tinto e minhas palavras embriagadas se agitam no emudecer de um eu que pouco sou. Pouco fui e já não sei se resta a chance de me refazer. Me cabe um emaranhado tolo de palavras rotas, desconexas, um turbilhão enfadonho de grafias sem nexo de alguém que sequer escreve. Se, por deus, um dia escrevi, foi por pura audácia de não saber que me era escuso. Se ousei dizer quem desejara ser, foi por pura necessidade de tentar ser mais que a mim e, quem sabe, te tocar a tez pálida de quem sabe exatamente o que é. Agora não há mais nenhum café quente a minha frente, nenhuma necessidade de ser presente nessa casa com cheiro asséptico. Não há, por fim, nenhum desejo ou necessidade de me transpor numa folha seca que habilmente virará cinza junto aos cigarros e sonhos fodidos. Não há, nesta casa, um só corpo capaz de sustentar o que uma alma berra. Se sucumbir à escrita deteriora a paz do corpo, é nela também que floresce a dor de um relógio parado no tempo.