Um silêncio agudo

Há uma certa honra a ser mantida quando a luz solar baixa. Há um protocolo tácito que se repete infindável, inexpremível.

Por Deus, não é como se os segredos devessem ser mantidos. É muito mais tenro e árduo do que esquecer rostos que furtam maços de cigarros às três da tarde. É como dever calar o som ecoante de falas duras e amargas e fúnebres sobre almas que adormecem sem nunca terem acordado.

Olha só, menina. Adormeço nessa cadeira um tanto dura, nesse sofá um tanto gasto, com uma bebida amarga demais para meu paladar.

Sintoa chama da vida se apagar dentro do meu peito e álcool nenhum a faz se reerguer.

São esses malditos acordos cegos que nos fazem adormecer em nossos podres desejos de virar a mesa.

São esses tortos e infames acordos que nos fazem sorrir com um canto de boca em vez de berrar a agonia do dia que se repete. Se repete duas, dez, vinte vezes.

São os dias que nascem e morrem diante nossos olhos. Mas há uma janela que não nos deixa esquecer que mais um dia se foi. Ou menos um virá.

A gente adormece antes do fim para que o cansaço nos permita levantar para o fim anunciado que se repete. De novo. Toda dia cada vez mais fundo.

Mas e um segredo que devemos guardar mais um segundo. Mais um suspiro. A vida se repete em ecos que não ouvimos. Um jogo que ninguém ganhou e um estrondo que ninguém ousa admitir ouvir.

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Ardor

Não é como uma porta aberta que bate estrondosamente em meio ao silêncio. Não é como uma louça fina dilacerada em meio ao salão, se repartindo em cem lascas finas que não podem mais se colar.

O peso sórdido da dor é que poucas vezes ela é um vendaval em meio à tarde ensolarada de domingo. O amargor insano é que ela cresce aos poucos, comendo seus tecidos da roupa, roubando suas cores variadas, se instalando fundo nos bolsos da calça.

O seu peso insustentável é que ela surge como uma pequena mancha no canto da sala, uma ponta da coberta escorada no chão. Tão insigne, tão desacreditável, que sequer nos damos ao trabalho de medir seu tamanho.

É um se ocupar da alma constante, em que cada café frio e cada cigarro queimando o entre dedos dispersam um pouco nossa atenção dessa dor que, agora, se distribui entre cada bolso da roupa já meio velha.

Me sento nessa sala vazia e olho pra um abismo que não me devora, mas também não me deixa atravessar. Me agarro às bebidas que me queimam a garganta, pois agradeço sentir algo que não o cansaço desse meu eu. Esse meu sujo e torpe e exaurido eu que, por deus, me resta ser. Se é que sou.

Mas a vida é mesmo um tecido fino demais, feito pele marcada pelas alegrias e lamúrias de um quase viver, quase sentir, quase se rasgar um sem fim de vezes.

Porque eu escrevia. Eu sentia. Eu ouvia, ainda que essa porra toda me dilacerasse o peito, a alma. Eu enchia linhas sem fim com o meu vazio só para tentar ser um pouco mais do que nunca fora.

Agora as poesias se apagam antes do terceiro suspiro. Agora as linhas, antes lotadas, são espaços vagos, carentes, ausentes.

Minhas linhas ocupam páginas brancas e eu já não tenho cores.

Por deus, como me perco em minhas explicações. Eu que dizia que as dores são pequenos riscos na parede da alma ganhando espaço entre os risos forçados. Eu dizia que as dores são manchas amargas que se espalham tão lentamente que, quando me dei conta do abismo dolorido que me ocupou, era tarde demais pra abandonar a casa. Quando vi, meus pés estavam à beira do precipício e minha alma mal escrita, mal dita, junto de minhas malditas palavras escorriam para um espaço que eco nenhum se atreve a ressoar.

Tentei falar por mais um sem fim de vezes, tentei calar em mim o caos que insistiu em corroer minha pele ferida. Tentei por dias costurar minha alma estilhaçada, mas os dedos meus se feriram perfurados pela incerteza desse sentir. Se é que sentia – talvez a dor seja só o vazio ressoando tão fundo que nenhum espelho se quebrando em meio às salas vazias possa ser ouvido, ainda que todos os estilhaços se finquem à pele fina da nossa recusa em ver a dor. Em ver ardor.

Florescer

Meus olhos semicerrados de trás das lentes um tanto sujas, um tanto foscas de meus óculos são só um eufemismo para minha cegueira d’alma. Minha voz rouca é só um retalho desse caos que me silenciou.

Mas, por deus, como as dores e ardências dessa vida fodida ganham tons poéticos quando são bordadas em corpos que não os nossos. Todo escritor é um abismo de cicatrizes não sentidas por quem o lê.

Mas caminho nessa reta meio inebriante e desvio dos reflexos de quem sou e não quero ser. Ainda que os seja incansavelmente. As flores mortas despencam das árvores e atingem o chão antes do meu próximo passo. Toco nelas e são tão mais vivas do que eu, ainda que padecidas em seu fenecer. Morri três vezes mais e ainda invejo a paz de quem se deixa cair do topo do galho sem ao menos temer o encontro com o solo. Meu abismo nunca termina porque minha queda é a linha fina que me sustenta.

Almas que ascendem

Há centenas de pessoas incríveis. Aos montes, espalhadas por aí. Há centenas de ações incríveis repetidas insistente e sorrateiramente por aí. Todos os dias, uma pessoa banal vence a si mesma e, no mais perene silêncio e anonimato, ergue-se sobre si mesma.

Juro a ti, se sair correndo o mais rápido que puder e contornar sua quadra às 5 da tarde, você esbarrará numa história incrível ou duas delas. Ou dez. Nunca se sabe.

Mas nem sempre estamos atentos às almas doces, aos encantos alheios. Estamos sempre tão absortos em nossa própria ânsia de ser que deixamos os fatos incríveis ocorrerem bem ao nosso lado sem, ao menos, deixar que eles sejam minimamente notados.

Eles quase nos tocam os ombros com seus dedos longos. Mas passamos ilesos com mais constância do que a justiça há de acordar. Mas é sempre um maldito quase que cava o abismo de cegueira ao nosso redor.

Todos os dias, vamos nos prendendo em nossa sôfrega vontade de sermos mais do que nós mesmos, que perdemos essas almas que vêem em nós os atos incríveis.

Queremos ser melhores do que tudo que já vimos, então não vemos nada mais além de nós. Na nossa pequenez e mesquinharia de ser nada mais. De ver nada mais do que achamos ser incrível. Não somos. Não vemos. Chegamos o mundo e, ao lado nosso, o incrível se prolonga sem nem ao menos nos fazer piscar.

Luz baixa

A tristeza sopra um assobio baixo em meus ouvidos. Eu já ouvi esse sussurro por cem dias mortos. Mais do que isso, eu já vivi esse barulho quase mudo por cem mortes frias. O que se tornou paz, calmaria, agora começa a ranger, despertar nesse barulho ainda distante.

Talvez possa parecer confuso entender o que digo, ou tento dizer, mas eu estive imersa nesse assombro caótico por um tempo tão longo, que sou capaz de reconhecer qualquer pequeno romper silencioso. Sou capaz de perceber a nota fora da linha antes mesmo da melodia adotar ritmo. Sou capaz de prever o breu antes das luzes penumbrarem.

Esses últimos tempos houve uma paz danada. Não direi que não houve. Tudo foi leve, uma leveza que por vezes eu não soube lidar. Tudo adquiriu um tom vivo, um timbre mais alto e, ainda assim, mais afável. Nada me feriu os ouvidos.

Mas me resta dizer que os fantasmas são sombras adormecidas que persistem dentro do meu peito em um sono leve. Tive medo de correr rápido demais e acordá-los. Tive me medo de rir um pouco mais alto e fazer tudo desabar em meus medos assentados.

A verdade é que, hora ou outra, nossa essência um tanto torta desperta. Nossa paz se esgota. A verdade é que me sinto grande demais para mim mesma, então vou me encolhendo nisso que sou, que me cabe ser. Vou me escorando em meus cantos escuros até que eu mesma não seja mais capaz de me ver. Mas ainda vejo.

Me senti tão exausta nesses últimos dias que posso sentir o caos emergir em mim. Ainda que haja um porto de paz me segurando as mãos, sinto qualquer fim que já acabou comigo mais vezes do que fui capaz de suportar me olhar fundo novamente.

Ainda que a luz reflita no chão da sala, o chão da alma minha escurece entre os silêncios que não sei ouvir.

Tempo vivo

Acordei um pouco menos lúcida do que nos últimos tempos. Os dias têm sido árduos e os passos vagos têm perdido o ritmo. Não como alguém que sucumbe à caminhada, mas como um corpo torpe que marcha a esmo.

A vida fez seis vincos fundos em minha derme e todas as cicatrizes ainda doem, ainda escorrem um sangue que percorre os braços, pinga ao chão. Tão meu, esse líquido quente quase não me assusta mais. Percebo-o como quem se dá conta de que o cabelo cresceu demais nos últimos tempos, nenhuma surpresa devastadora.

Vivo os dias numa ânsia sôfrega de um velho escorado na terça parte da vida, mas que nunca é capaz de ver o relógio tiquetaquear. Lanço meus olhos apertados sobre os minutos que correm, mas me parecem repetir a mesma hora fodida. Meus relógios não despertam mais. Atravesso os dias como um quase humano que, por deus, não vive. Não há de ter vivido.

Achei que os tempo corridos me trariam a paz que aquela tola juventude almeja. Mais tolice ainda. Se, antes, a insegurança comia a ponta dos dedos meus, agora me arrancou os braços. Não há bolso fundo ou xícara de café que disfarce a aflição de quem se afoga na própria existência. Se é que existo.

Os dias esfriaram meus cafés e chás. Os dias mataram minhas plantas e sorrisos amenos. Os dias mancharam a cor púrpura dos olhos alheios. Sobrou o caos borrado em minha pele e a inexatidão de caminhar rumo ao nada. Feito o relógio de minha parede, persistir num esforço para chegar ao mesmo ponto de partida. Só uma hora a mais.

Um segundo mais denso

A maioria de nós já esteve uma linha abaixo de onde estamos agora.

Ou uma linha acima. Mas é sempre difícil lembrar dos dias menos tenros.

Dos amargores mais intensos. É sempre mais inviável recordar do medo mais latente ou da asfixia mais nefasta quando não se vive o momento exato.

Acho que a maioria de nós, humanos e tolos fodidos, já esteve um grau mais perto da loucura. Já riscamos o fósforo com medo do escuro. Já queimamos o temor da solidão com a chama ardente da desistência.

Acho que nós, corpos desalmados e decompostos pela inexistência de ser, já estivemos um passo mais perto do amor. Mais acima do bem. Quase tocando a paz, ainda que sem nunca ousar romper o manto suave do intateável.

Nós, entre corpos amontoados e almas dilaceradas, caminhamos um caminho sinuoso. Um curva quase nula. Um eco ressoando à exaustão. Mas nós já estivemos um segundo mais perto da perfeição, da inescrupulosidade de aspirar o ar, aspirar o fim, tragar a última essência que perfura os pulmões.

Estivemos perto do fim e do começo. Do ponto final que nunca chega.

Falo-te em afetos

Era sobre o amor que eu queria falar. Sabe, pequena, sobre os anseios compartilhados e os dias amenos. Era sobre seus risos frouxos e toques delicados de quem teme me tocar de um modo abrupto ou incoveniente. Era sobre o seu amor me cobrindo o corpo, segurando-me as mãos, entrelaçando-me as pernas. Era sobre seu modo de preencher meus vazios sem nunca me ocupar demais, ainda que eu anseie por me transbordar de sua alma doce. Por deus, eu só queria te entregar frases de amor, de afeto.

Mas eu sempre sucumbo às linhas amargas. Aos tons cinzas, aos toques emudecidos por um sentimento um tanto mais amargo. Acabo sempre ressoando sobre a solidão e o amargor da casa.

Agora ocupo minhas linhas sobre essa solidão que divido ao lado teu. Sobre os dias que correm soltos e me trazem pra mais perto de mim apenas por estar ao lado teu. Hoje eu escrevo sobre um vazio que já não me dói mais, mesmo que todo humano mantenha em si, em sua mais tenra essência, um espaço caótico e inocupável. Escrevo palavras sobre a paz e o caos que você me causa e sobre o medo de te deixar escapar entre seus olhos cansados. Escrevo sobre as salas vazias e o peito apertado, sobre o eco de não te ouvir e sobre o fim dos dias que suspendem no ar o teu perfume empregado em minha alma.

Escrevo palavras pesadas para que marquem as folhas, o cerne. Desejo que minhas palavras, por vezes secas e inexpressivas, te penetrem a pele. Porque me resta um pouco mais de mim a cada vez que tu me toca. Me sinto um tanto responsável pela felicidade que se ausenta de ti. Não pela prepotência de me achar capaz de causar felicidade, mas por te achar digna de uma paz que o mundo, cruel, te rouba.

Mas, por fim, mesmo quando não sou capaz de falar dos afetos que lhe teço, desejo que os amores que emergem desse tecido denso que te bordo te aqueçam a alma. A solidão é um afeto  entregue cem vezes a quem sabe compartilhá-lo.

É sempre de amor que se fala.

Silêncios

Seis frases roucas emudeceram em meu peito. O café esfriou antes que eu pudesse dizer que o tempo anda esmagando nossas entranhas. Nenhum livro foi lido, nenhuma música soou pelos cômodos da casa. O silêncio, que fora calmaria, hoje é a agonia que come o que restou de nós.

Mas você se senta nesse sofá velho e espera que os dias corram bons. Eu me debruço no chão frio estirada nos estilhaços do desafeto.

Suas roupas esquecidas no pé da cama me lembram que nenhuma estadia dura tempo o bastante para ser suficiente. Por deus, nós sempre morremos antes do arfar definitivo, daquele que encerra os filmes, que aquece as almas.

A gente sempre vive na imanência de resistir a mais um dia. Horas corridas e bebidas esquecidas na cozinha escura preenchem o caos de não existir. Não mais resistir.

Dias úteis

Entre pilhas de papéis e xícara vazias de café, entre a rotina fatigante e uma semana mal vivida, entre a solidão de estar rodeada de rostos turvos e a audácia de persistir um dia a mais, eu sobrevivo ao fim dos tempos.

Por deus, meus passos são arrastados e meus cigarros queimaram o vão dos dedos meus. Lá fora chovem cem lágrimas fúnebres de anjos negros e ninguém notou a palidez a morte alheia.

Eu me sento em frente a mim mesma e procuro uma resposta que não vem. Por deus, não há de vir. Nenhum timbre rouco para aliviar a depreciação de existir esse meu exaurido eu. Feneci sob meu manto denso de imprecisão. Coberta do caos de me pertencer, de me habitar, de carregar um sem fim de mim, mesmo que de fato sem nunca me ter, me estar, me ser.

Ah, mas olhe quanta bobagem. Meu corpo cansado anseia pelo repouso e minha mente goteja junto à chuva sorrateira. Meus dedos percorrem a borda curvada dessa xícara fria, mas são meus olhos que tombam na porcelana mal cuidada.

Eu me debruço na inexistência desse torpe eu e mantenho meus pés no chão. Só Deus sabe que minha alma foi decapitada antes do amanhecer e não há vestígio de amor ou de dor capaz de fazê-la recobrar a vida.

A música soa rouca no rádio quase mudo. Isso porque meus ouvidos fodidos ensurdeceram aos berros internos. Mas você quer ver em mim tudo aquilo que eu acredito não ser capaz de sustentar. Acho que a esperança tua me sufoca, me asfixia, me mantém inebriada no poço que me escalda. Incapaz de me mexer, eu me permito afundar um pouco mais só para te tocar os cabelos densos. Você cheira àquelas flores que arranquei as pétalas por não saber a hora certa de regar.

Você suspira debaixo de meus dedos e toques, me matando pelo não sentir. Ouço seu arfar denso e te imagino entre os tilintares que a vida me roubou.